






    Cazuza
    S as mes so felizes

    Lucinha Arajo
    Depoimento a Regina Echeverria




      "S as mes so felizes  uma homenagem s pessoas que vivem o lado escuro da vida, aquelas que preferem trocar o escritrio pela rua, que resolvem viver e
escrever a vida "
      Cazuza
      
     PREFCIO
      
      "Me, acontea o que acontecer,
      eu vou estar sempre junto de voc "
      Cazuza
      
       complicada a matemtica da justia. Essa equao sempre foi de difcil compreenso para mim. Mal sada de uma conjugao perversa que me jogou num canto 
escuro do pensamento - onde era imperioso assistir a um espetculo de dor e sorrir -, comecei ame agarrar s lembranas. Como se elas me chamassem desesperadamente 
para a vida, deixei meu corao recordar. Estava sentada olhando a janela, no andar alto daquela casa em Laranjeiras, conseguida em negociaes pacientes, quando 
o rudo das crianas no ptio me causou arrepios. Ouvia o burburinho bom das correrias, risadas, gritos finos. Era impossvel esquecer: todas elas foram tocadas 
pelo mesmo vrus que levou meu filho. E estavam l embaixo gritando e brincando como crianas sadias. Talvez ainda no compreendam muito bem a sua situao. Algumas 
foram largadas ali pelas prprias mes; outras, recolhidas de abrigos imprprios. Mas, tenho certeza, seus coraes batem com esperana. 
      Anos depois da morte de Cazuza, muitas delas estavam vivas - que ironia - por causa dele! Estranho sentimento esse. Era impossvel sufocar essa indagao quase
bvia: foi preciso que ele morresse para que essas crianas vivessem?
      Pergunto, tambm: e se tudo no tivesse passado de um sonho ruim? Se essa doena no tivesse se infiltrado em minha famlia, estaria eu aqui hoje, fundadora 
e presidente da Sociedade Viva Cazuza? Uma casa modesta, onde trinta crianas que receberam de seus pais a herana do hiv podem alcanar uma qualidade de vida que 
eu e meu marido Joo pudemos, ao menos, proporcionar ao nosso nico filho. Estaria eu aqui? 
      Certamente no. 
      Sei muito bem que nada o trar de volta, mas o sinto a cada minuto a meu lado e lamento. Lamento no ter tido a chance de conviver mais, muito mais, do que 
os poucos 32 anos de Cazuza. Sinto no ter tido mais tempo para aprender a compreend-lo e fazer com que perdoasse os erros do passado: o excesso de zelo, a cegueira 
que me impedia de ver o poeta que ele era, e aproveitar um pouco mais do artista inconformado em que se revelou. Queria que me perdoasse, por ter dado importncia 
a coisas to pequenas, nas quais eu acreditava como verdade suprema. Que me perdoasse por t-lo sonhado  minha imagem e semelhana e a forar que ele pautasse sua 
vida, que apenas comeava, em convenes inteis. 
      E, nesse exerccio de autoconhecimento, aproveito a oportunidade que o sofrimento me deu para dividir com todas as mes do mundo um aprendizado feito a duras 
penas. E, ainda, tentar responder s eternas questes que atormentam a alma feminina h sculos. Como, por exemplo, a pergunta que tantas e tantas vezes me perseguiu:
o que  preciso para que uma me aceite ter gerado um anjo rebelde? Mais, ainda, como ter a generosidade suprema de dividi-lo com o resto do mundo? Dividi-lo com 
pessoas que voc nunca viu? Saber que ele corre perigo e j no aceita seus velhos conselhos? Queremos que nossos filhos vivam debaixo de nossas asas, que pensem 
como ns, se comportem como ns e, ao crescer, fiquem ricos, famosos e felizes para sempre. 
      Um dia pensei ter poderes divinos e que o poder de uma me poderia alcanar a graa suprema de mudar o rumo da histria. Acho que Joo e eu, cegos de esperana, 
chegamos a acreditar que o patrimnio conseguido ao longo de uma vida de luta seria suficiente para salvar nosso filho. Mais do que crenas desabaram quando o desfecho 
de toda a doena de Cazuza foi um trgico final sem volta, sem hiptese alguma de soluo. Sua morte modificou de tal maneira minha existncia que fui me deixando 
aceitar essa misso que se imps e me coloca hoje no papel de proteger vidas, poucas que sejam, todas as que eu possa, onde a sombra do hiv positivo ronda perversa 
nessa guerra fria da luta contra um monstro invisvel, palpvel, apenas, no corpo que definha  nossa frente, transformando nossa impotncia em quase loucura.
      E foi quando resolvi dar um basta na importncia preconceituosa e pobre de esprito dos segredos, das dissimulaes e das mentiras. E imaginei que a trajetria 
de Cazuza talvez pudesse ajudar a salvar almas, alm de vidas. Decidi que minha relao com ele merecia ser passada a limpo. 
      Decidi seguir o exemplo de meu filho e declarar, contar, revelar, como se o meu pensamento e corao fossem o quintal do mundo, a aldeia global que tanto fascinou 
esse menino to esperado, cercado de amor demais. Amei meu filho com toda a fora sobrenatural que um sentimento muito forte nos permite. Queria que ele fosse o 
melhor em tudo: o mais bonito, o mais inteligente, o mais bem vestido, o mais estudioso e comportado. Lutei muitas vezes com a fora de minhas prprias mos para 
que ele seguisse as regras que eu - a me perfeita - considerava as certas. E por qu? Cazuza foi criado do jeitinho que ditava a cartilha da minha gerao: atitudes 
de carinho e controle. Carinho demasiado e controle demasiado. Aonde queramos chegar com essa nsia onipotente de preparar os homens para o mundo? 
      
     Captulo 1
     O inevitvel
      
      "A vida  bem mais perigosa que a morte."
      Suporte Baby
      
      6 de julho, 1990, Rua Prudente de Morais, Rio de Janeiro. Meio-dia de uma sexta-feira. O doutor Paulo Lopes j havia me avisado dois dias antes para que me 
preparasse. As foras de Cazuza iam desaparecendo sutilmente de seu semblante a cada dia. Seu estado era gravssimo. Mas eu, sinceramente, nem sequer ouvia suas
palavras, quanto mais acreditar nelas. O que sabiam esses mdicos, pensava, ao recordar toda a nossa via-crcis por especialistas, hospitais, curandeiros e charlates,
em terras brasileiras e americanas. O que sabiam todos eles sobre meu menino? Ele no foi capaz de subir num palco para gritar que viu a cara da morte? Por que no
tambm dessa vez? O que todos esses senhores de branco poderiam conhecer mais do que eu e Joo sobre Cazuza? Eu no tinha certeza, no; eu tinha verdadeira convico
de que, em algum lugar do mundo, algum iria encontrar a sada, a cura esperada, o remdio salvador. E ns iramos busc-la, onde quer que fosse, para que ele voltasse
a ser o mesmo, o nosso garotinho.
      Mas, de fato, o doutor Paulo Lopes tinha com o que se preocupar. Na quinta-feira, 5,  noite, a enfermeira Edinha - ns a chamvamos Ed Motta, apelido inventado
por Cazuza devido  semelhana dela com o cantor - notou que algo no ia bem. Ela relembra com pesar:
      "Depois que lhe dei todos os remdios atravs do cateter, olhei para a sonda da urina e cad o xixi? Cazuza no estava urinando. Chamamos o doutor Paulo Lopes,
ele administrou Lasix e mediu sua presso. Estava baixinha - em geral, sua presso era normal, onze por seis, doze por seis. A famlia nunca soube, mas nesse dia
sua presso caiu a quatro por zero. Presso, alis, de um paciente chocado que, em geral, no abre os olhos e no fala. Mas Cazuza estava acordado e falando. Foram 
tantos os procedimentos para tir-lo dessa crise que no tive tempo sequer de anotar. Precisei tirar tudo do lixo depois, para recuperar as instrues, porque deu 
certo, ele voltou a urinar e saiu da crise". 
      
      Na manh de sexta-feira, como nas ltimas, conversamos  beira da cama de Cazuza. Desde o retorno de nossa ltima viagem a Boston, em maro, ele voltara a 
morar conosco e nossa casa foi preparada para receb-lo. Imaginei que ali, mais perto da familiaridade de nossa casa, em territrio seguro, ele pudesse se recuperar. 
Cazuza dormia em nosso quarto de casal, e ns, no de hspedes. 
      Voltei bastante equipada da ltima viagem aos Estados Unidos. Tnhamos  disposio tudo o que uma pessoa nas condies de meu filho poderia necessitar durante 
seis meses. Desmontei nossa cama de casal e, no mesmo lugar, foi instalada uma cama hospitalar. Na cmoda, ajeitei todos os remdios, as seringas descartveis, depsito 
para lixo descartvel, para o lixo hospitalar, os kits para trocar o cateter que desde Boston haviam colocado em seu peito direito. Meu filho j no tinha veia disponvel 
para que as drogas entrassem e aliviassem seu sofrimento. Em cada gaveta da cmoda, uma espcie de medicamento. Duas enfermeiras se revezavam dia e noite a seu lado, 
controlando a quantidade de soro que descia, administrando os remdios todos, trocando o curativo do cateter todos os dias. Os mdicos faziam duas visitas religiosamente 
- de manh e no fim da tarde. Trocava-se a roupa de cama vrias vezes ao dia. Todos os lenis eram brancos, inclusive as fronhas dos dois travesseirinhos muito 
jeitosos, que eu e Ezequiel Neves roubamos da Varig. Um deles ficava entre as pernas de Cazuza, magrinhas, e o outro era usado para ajeitar suas costas. Os remdios 
eram inmeros: Citovene, vitaminas, tranqilizantes, antibiticos, pomadas, antivirais, remdios para dormir. Talvez Cazuza tenha herdado do pai, ou talvez fosse 
conseqncia da longa enfermidade, mas o fato  que, como Joo, ele tinha problemas para dormir. Nessa fase, tomava os tranqilizantes, mas trs, quatro horas depois 
acordava novamente. Tambm lutava contra o sono. E sofria com dores musculares terrveis, horrorosas. Nos ltimos tempos, at morfina ele tomava. Comprar morfina 
era muito difcil. Apesar de ter em mos a receita, tive at que entrar dentro de um cofre para adquiri-la legalmente. No comeo ajudou, mas no final j no fazia 
a menor diferena. 
      Cazuza tinha dificuldade para respirar e sua voz estava cada vez mais fraca. Pesava 38 quilos. 
      Zeca, o jornalista e produtor Ezequiel Neves, grande amigo e mentor de Cazuza desde o comeo do Baro Vermelho, vinha todas as tardes. Lia os jornais e comentava 
as notcias com meu filho. Naquela tarde de sexta-feira, ele saiu mais cedo e me contou depois que Cazuza lhe pareceu estranho e sereno. Ouvia pouco e quase no 
dizia nada. Era como se meu filho dissesse "deixa pra l". Cazuza tinha dito a Zeca que queria assistir ao show do Legio Urbana no dia seguinte. Renato Russo, no 
7 de julho, dia da morte e sepultamento de Cazuza, dedicou o show a ele. 
      Meu corpo estava debruado sobre meu filho, e o ouvido bem prximo para poder escutar aquela vozinha, um fiapo de vida no qual me agarrava com unhas e dentes. 
      Perto do meio-dia, Cazuza me chamou e disse: 
      -  Mame, estou morrendo... 
      Um vulco de autoridade surgiu dentro de mim, enquanto lhe dizia que parasse com aquela conversa ridcula. Indignada, ia lhe dizendo que no devamos falar 
sobre isso, alis, como havamos combinado h tempos. E ele, procurando me acalmar, tentava levantar os braos magros, fechava e abria os olhos fundos, at que parei 
para ouvir: 
      - Porra, me, eu t morrendo  de fome. O que tem pra rangar? 
      Comecei a rir. E como se um blsamo lavasse minha alma, olhei para ele pensando no quanto eu o admirava, em quanto seu esprito de moleque se conservou na 
idade adulta e que o mais adorvel lado de sua personalidade se manifestava em situaes to adversas. 
      Foi se agarrando a esse lado brincalho de Cazuza que Tereza Oliveira da Silva, 47 - que trabalha conosco h 23 anos -, se comunicava com ele nesses ltimos 
tempos (e talvez sempre na relao dos dois). Cazuza queria que Tereza ficasse no quarto com ele. Pedia a ela que se deitasse com ele na cama e Tereza explicava 
que no podia, que ele ficasse bonzinho porque ela precisava ir dormir para sair cedinho, s seis da manh, e ir para casa. Era quase uma da manh quando Tereza 
se despediu de Cazuza dizendo que ia para casa curtir sua televiso e seu vdeo. No o veria mais com vida. 
      Estava especialmente cansada naquela noite. J havia sugerido que todos fssemos dormir, quando Cazuza pediu para tomar outro banho. Os banhos de Cazuza eram 
trabalhosos. Trs pessoas se mobilizavam para esta operao. Meu filho tinha medo de se machucar, ns tnhamos medo de machuc-lo. Mas Tereza desenvolveu um jeitinho 
especial para faz-lo relaxar na hora do banho. Quando esfregava a esponja em seu sexo, ela dizia: agora, chegou a hora da parte mais importante do corpo humano, 
que  o pau! Cazuza ria  bea, relaxava e a tenso diminua. Depois do banho, ele vestiu uma de suas camisetas favoritas, branca, da Company, escrito no peito: 
Rio de Janeiro - Brasil. Embaixo, desenhos de um sol, uma clave de sol, uma borboleta, uma estrela e uma flor. Em seguida, pediu para comer um misto-quente e tomar 
um milk-shake de creme feitos pela Nandinha, sua secretria. Tudo isso levou meia hora, mais ou menos, e a realmente eu estava caindo de cansao. Fui deitar. 
      Joo passou a ter problemas de insnia desde que Cazuza adoeceu. Naquela noite eu o ouvi caminhando e imaginei a cena - meu marido vagando pela casa, copo 
de usque na mo, at no agentar mais e desabar no sof da sala. Ele lembra: 
      "Realmente, eu no conseguia dormir de jeito nenhum. Havia conversado rapidamente com ele na hora do ltimo banho. Ele j no falava direito, muito baixinho, 
e no queramos que ele se cansasse. Ento, meu ltimo contato foi um beijo na testa e o toque de minha mo em sua cabea. Na verdade, me despedi de meu filho dois 
dias antes de sua morte. Cheguei do trabalho e fui para o seu quarto. Geralmente eu ficava sentado numa poltrona ao lado da cama, lendo jornal, vendo televiso.. 
Naquela noite quando sentei, Cazuza estava deitado de lado. Num determinado momento, nossos olhos se cruzaram fortemente. Ele olhava fixamente para mim e senti que 
ele fazia um balano, um flash-back de tudo o que havamos vivido juntos e que mais ou menos justifica o que ele disse a mim e a Lucinha, quando voltou para casa 
no dia em que recebeu a notcia de que estava contaminado pelo vrus hiv. Lembro dele dizer que, justo naquele momento, quando tudo estava indo muito bem para a 
nossa famlia, a tragdia se abateu. Meu ltimo contato com Cazuza, no fim de sua vida, parecia se ligar irremediavelmente quele momento que mudou o nosso destino. 
Foi como uma ligao teleptica, espiritual. Naquela intensa troca de olhares, me despedi de meu filho para sempre". 
      
      Lutando contra a insnia e seus pressentimentos, Joo ficou na sala bebendo usque, sentado no sof. Eram seis da manh quando ele percebeu a enfermeira Edinha 
alvoroada, com lgrimas nos olhos, no corredor: 
      - Seu Joo, vou ligar para o doutor Paulo Lopes porque Cazuza no est nada bem. 
      Edinha foi a nica testemunha dos ltimos sinais de vida de meu filho e seu depoimento reconstitui o que se passou: 
      "Trs da madrugada era o horrio de Cazuza fazer sua nebulizao. Medi sua presso, que estava sete por quatro, baixa, mas no to baixa. Estava deitado em 
decbito lateral direito. Comeamos a nebulizao e, pela primeira vez em todo esse tempo de tratamento, fez um gesto desconhecido: arrancou a mscara e a jogou 
de lado. Disse: Cazuza, no faa isso! E coloquei a mscara outra vez. Cazuza a tirou novamente. Ele j no falava e no disse mais uma palavra sequer. Mas insisti: 
Cazuza, no seja teimoso! No tire a mscara! Ento, quando ajeitei o elstico atrs de sua cabea, fiquei segurando para que ele no a soltasse mais. Ajeitei sua 
mozinha fina no peito e ele se aquietou. As seis da manh acordei para nova nebulizao. Cazuza estava na mesma posio, com os olhinhos fechados. Comecei a dizer: 
Cazuza, vamos fazer nebulizao. Ele no se mexia, no abriu os olhos. Mesmo com a presso baixa, ele sempre dava um sinalzinho de vida. Achei aquilo esquisito. 
A presso, eu no conseguia ouvir. Virei Cazuza de barriga para cima e sua respirao estava pesada. Liguei o nebulizador e nada, nenhum sinal. Quando sa para a 
cozinha e entrei no corredor, encontrei seu Joo. Telefonei para o doutor Paulo Lopes s seis e meia". 
      
      Eu, no entanto, dormia profundamente quando a voz de Joo me acordou, s mesmas seis da manh, com o alarme. Corao palpitando, saltei da cama, corri para 
o quarto, agarrei a mscara de oxignio e pressionei-a contra o rosto de meu filho, tentando controlar a tremedeira e o pnico. Pensamentos positivos se repetiam 
como num mantra - ele vai sair dessa, ele vai sair dessa, ele vai sair dessa! At o mdico chegar. 
      Passaram-se quase duas horas e, quando percebi, o doutor Paulo e a enfermeira j estavam aplicando uma injeo em Cazuza. Pareciam tensos. Pensava comigo: 
no acredito no que est acontecendo.  um sonho e eu vou acordar. Meu filho j estava em coma e eu me deixei ficar ali no quarto, jogada num canto, tentando quebrar
o bloco de esperana feito de concreto com que me revesti durante todo o tempo em que ele esteve doente. Precisava quebr-lo de qualquer maneira para tomar uma atitude
e sair do quarto. Levantei intempestivamente s 8h15:
      - No vou assistir  morte do meu filho. Eu no vou agentar! 
      Fui para a sala e fiquei ali sentada por quase meia hora olhando para o nada. Sentia pelos passos que Joo continuava sua caminhada em torno do nada. No conseguamos 
olhar um para o outro. O momento de enfrentar o fim daquele caminho doloroso em que fizemos de tudo havia chegado. Para Joo, que sempre acreditou que podia salvar 
Cazuza, a situao era inconcebvel. O choro de Edinha quebrou alguma coisa dentro de mim. No era preciso dizer nada. Revolta e desespero se misturaram ao meu soluo 
cansado, exausto, de algum profundamente abandonado, jogado no mundo. Joo no reagiu, como recorda: 
      "No me lembro a hora em que meu filho morreu porque estava paralisado, hipnotizado. O estado de perplexidade era tanto que no consegui verter uma lgrima 
sequer. No vi o corpo de meu filho morto". 
      
      Eram oito e meia em ponto quando telefonei para Paulo Csar Ferreira, amigo nosso. Foi a primeira pessoa em quem pensei depois da morte de meu filho. Eu disse 
apenas al. Do outro lado da linha, Paulo Csar respondeu: Estou indo para a. Liguei para minha irm mais velha, Clarinha, e para minha cunhada mais velha, Tereza. 
Telefonei tambm para a Nandinha, que estava dormindo no apartamento de Cazuza, e pedi que ela trouxesse a roupa do ltimo show: um terno de panam branco com camisa 
de seda branca, de manga curta. Ele tinha dois conjuntos iguais. 
      Minha amiga Maria Lcia Rangel, jornalista e, na poca, editora de Cultura da Rede Globo, foi a segunda a chegar ao meu apartamento. Ela me recordou que entramos 
no banheiro - uma sentada no bid, outra na tampa do vaso sanitrio - , e conversamos em soluos por quase meia hora. Lembro de lhe dizer: 
      - O Joo no vai agentar! Ele sempre me pareceu uma fortaleza, uma rocha. Mas acho que ele no vai agentar! 
      
      Enquanto Maria Lcia fazia os contatos com a imprensa, Clarinha e minha amiga Maryse Mller se encarregaram de vestir Cazuza, junto com a Edinha. Fiquei na 
sala sentada como uma idiota. Paulo Csar precisava falar comigo para tomar providncias. Perguntou como eu queria o caixo e eu disse: nem o mais rico, nem o mais 
pobre. Era incrvel. Durante todo esse tempo no tnhamos pensado sequer na possibilidade de Cazuza morrer. At o tmulo onde o enterramos no Cemitrio de So Joo 
Batista foi comprado naquele sbado. 
      Eu conversava com Paulo Csar quando algum me perguntou se eu queria me despedir de meu filho. Entrei no quarto, o abracei e lhe pedi perdo por tudo o que 
eu fiz de errado, por toda a incompreenso, pela impacincia, por amar demais, por ter demorado a entend-lo. Em voz alta, como se assim ele pudesse me escutar melhor. 
Trs anos depois, conversando com uma amiga, a escritora Glria Perez, ela me verbalizou a mesma sensao que senti naquele momento ao abraar meu filho morto. Contou 
que, ao abraar sua filha Daniella Perez, assassinada em 28 de dezembro de 1992, sentiu como se a estivesse levando de volta a seu tero. Eu abracei Cazuza como 
se quisesse que ele entrasse dentro de mim novamente.
      Joo e eu no trocamos uma palavra naquele sbado. Pouco nos abraamos e pouco choramos no ombro um do outro. Na verdade, raras vezes conversamos sobre a morte 
de nosso filho. S conseguimos conversar sobre as coisas boas, as lembranas to queridas que ele nos deixou. Cada um estava no seu canto quando o caixo que trouxeram 
no coube no elevador e desceram o corpo de meu filho enrolado num lenol, sentado numa cadeira de rodas at o andar trreo do edifcio onde moramos at hoje. A 
Kmbi que o levaria ao cemitrio j estava saindo quando minha irm Clarinha pediu que parasse: "Meu sobrinho no vai sozinho nesse carro. Eu vou junto!", disse 
ela e, no caminho, pediu ao motorista que desviasse um pouco da rota para que Cazuza passasse pela ltima vez em frente ao seu apartamento da Lagoa, onde morou pouco, 
mas se divertiu muito. De casa, Joo e eu seguimos direto para o So Joo Batista. No deixei que abrissem o caixo, queria que todos se lembrassem de meu filho 
bonito e saudvel. Minhas lembranas desse dia, no entanto, me remetem a um emaranhado de reprteres, seguranas, muita gente, luzes acesas, televiso. Ficaram em 
volta de mim e eu falei uma poro de coisas. Entre elas, me lembro especialmente de uma declarao, onde eu dizia que Cazuza havia sido muito corajoso ao expor 
publicamente sua doena, e que eu me orgulhava disso. 
      Nunca havia percebido o peso da passagem dos anos. Em 7 de julho de 1990 eu estava com 54. E, pela primeira vez, senti a mulher velha que eu estava comeando
a ser. 
      
      
      
     Captulo 2
     Vassouras, onde tudo comeou
      
      "A minha msica faz parte de uma histria que comeou quando o meu av, dono de um engenho em Pernambuco, resolveu morar em cima do areal do Leblon. Ali nasceu 
meu pai. Joo Arajo, que se casou com uma moa linda, Lucinha, que cantava como passarinho"
      Cazuza
      
      Quem saber me dizer o comeo desse holocausto? O que importa saber onde, com quem e como meu filho foi contaminado pelo vrus hiv? 
      Nos 32 anos de vida de Cazuza, nosso relacionamento atravessou o tempo sempre no fio da navalha. Foi intenso enquanto ele era criana, intensssimo na adolescncia
e transcendental na idade adulta. Tive, nos trs anos e quatro meses de doena de meu filho, inmeras oportunidades de pensar e repensar tudo o que vivemos juntos.
Nos devaneios de meu pensamento, buscava em mim a explicao para seu comportamento, fosse ele alegre ou triste, expansivo ou retrado. Perseguia na minha histria 
exemplos da herana que lhe passei. Buscava, na histria de seu pai, e de seus avs, a gentica da construo do indivduo to especial em que resultou. E percebi 
que era preciso entender primeiro a minha histria, antes de compreender a dele. E a histria de seu pai, enfim, a de seus antepassados cujos destinos foram traados 
numa pequena cidade do interior, distante 110 quilmetros do Rio. Vassouras, erguida pelos bares do caf e reduto da aristocracia rural fluminense no sculo XIX, 
era bastante procurada tambm nos anos 20 e 30, por seu ar puro e clima ameno. Ali, convalesciam muitos doentes de tuberculose, pois acreditava-se que os ares da 
montanha fariam bem aos seus pulmes. Minha me, Alice da Costa Torres, era vassourense e conheceu meu pai, o carioca Thomaz PorteI Ia da Silva, quando ele tinha 
18 anos e uma tuberculose. Casaram-se contra a vontade de meu av materno. 
      Imagine, se unir a um tuberculoso! Vov no foi ao casamento. Um constrangimento! E s voltou a falar com meus pais quando minha irm mais velha nasceu. 
      O jovem casal se estabeleceu no Rio de Janeiro. Alice, minha me, era uma mulher cheia de vida, animada, com o astral l em cima sempre, em qualquer situao. 
Tinha uma histria de vida sofrida porque perdeu a me aos 3 anos de idade com sete irmos, todos pequenininhos. Foi criada pela madrasta, pois meu av se casou 
de novo logo em seguida. J meu pai Thomaz tinha uma histria diferente, era um bem-nascido. Estudou no Colgio Santo Incio, classe mdia alta. Seus pais eram moos 
ainda quando a famlia faliu e ele conheceu dias difceis. No sei se isso influenciou muito na formao dele, mas o fato  que meu pai passou pela vida e no viveu. 
Trabalhou na mesma firma durante 47 anos. Entrou em Perfumes Coty ainda rapaz e s saiu de l ao se aposentar. No tinha amigos ntimos. Toda a sua rotina era ver 
televiso, assistir a jogos de futebol elevar a mesma vidinha de sempre, sem alteraes. Alm disso, era muito omisso. 
      Sou a filha do meio. Primeiro veio minha irm mais velha, Clara Maria, a Clarinha, que nasceu em Botafogo. Cinco anos depois, minha me parece ter sentido 
saudade de sua terra natal, pois decidiu que queria ter uma filha vassourense. Por isso nasci em Vassouras, a 2 de agosto de 1936. Maria Christina, a caula, nasceu 
oito anos depois. Ser a filha do meio  uma experincia nica, que s os semelhantes talvez possam compreender. Voc no foi to esperada quanto a primeira e tambm 
no  o bebezinho da casa, como a caula.  preciso se virar do avesso para que prestem ateno em voc. Pelo menos, era assim que me sentia quando criana. Uma 
criana que fez de tudo para se fazer notar, por sinal. Quando eu manifestava essa preocupao em ser a filha do meio, mame sempre me dizia: 
      - No, minha filha, voc  o melhor do sanduche, voc  o recheio! 
      
      Mas o problema era simples: eu no queria ser o recheio. Admirava minha irm Clarinha pela liderana que ela exercia sobre todos ns, com a maior tranqilidade 
do mundo. Admirava Christina por sua beleza - uma das mulheres mais bonitas que j conheci. Que papel restava a mim? Percebi que era mais esperta e, assim, desenvolvendo 
minhas potencialidades, logo me transformei num doce problema para a famlia. Na escola, era a primeira da classe. Era nota dez do princpio ao fim. Guardo at hoje 
meus boletins com a nota mxima em todas as matrias. Desde essa poca, a rigidez se imps em relao a meus princpios. Eu queria ser perfeita. Se no tirasse dez, 
eu chorava. Hoje penso que fazia tudo isso para chamar a ateno de minha me, porque sempre que eu chegava toda feliz em casa com o boletim, mostrava a ela, esperando 
os elogios; Mame assinava a caderneta apressada, sem ateno. Decepcionada, lhe perguntava: 
      - Mame, voc no viu que tirei dez em tudo? 
      Mas ela, em sua dureza diante das dificuldades, sempre respondia com a mesma frase: 
      - Minha filha, voc no faz mais do que sua obrigao! Eu costuro para fora para te botar em colgio de gente rica. E se voc repetir o ano vai para a escola 
pblica. No vou pagar colgio para voc repetir de ano. 
      
      Em 1944, aos 8 anos de idade, fui matriculada no Sacr Coeur de Marie, colgio de freiras para moas de elite do Rio de Janeiro, de onde s sa depois de completar 
o curso Normal. A vida era apertada l em casa, embora nunca tenhamos passado qualquer necessidade. No sobrava dinheiro no fim do ms, mas a comida era farta. Minha 
me costurava para fora, ajudando no oramento domstico, mas ter uma filha em colgio de gente rica era mais do que um sacrifcio, era uma aposta no futuro. 
      Na adolescncia jamais repeti uma roupa em festa. Quando eu no tinha dinheiro para comprar tecido, pegava uma roupa da mame, virava do avesso e o transformava 
num vestido novo. 
      Foi uma freguesa de minha me quem me desafiou a produzir com minhas prprias mos, ainda pequenas. Por acaso, essa mulher era dona Elvira Amaral, me de Gisela 
Amaral, que mais tarde descobri ser prima de Joo. Ela me deu uma boneca de presente. Escolhia, ento, um modelo nas revistas de figurinos e encomendava o vestido 
da boneca para dali a uma semana. Fiz o primeiro, ela gostou e muitos outros passariam a gostar. Com o tempo, comecei a costurar para as empregadas das vizinhas, 
depois para as vizinhas, as colegas de colgio e a criar minhas prprias roupas. Na escola freqentava as aulas de trabalhos manuais e, assim, aprendi abordar e 
a fazer tudo o que uma menina "prendada" daqueles tempos deveria saber. Aos 8 anos, ganhei meus primeiros trocados bordando monogramas com as iniciais M. T. (Manoel 
Torres) para a roupa de cama usada ria penso de meu av, o prprio, Vov Manduca, que ficava no Largo do Machado e onde passvamos temporadas enormes, quando minha 
me se cansava da casa onde estvamos vivendo. Ela gostava disso, de trocar os mveis de lugar, de tirar a ordem das coisas, de viver em casas diferentes. No futuro, 
eu me revelaria exatamente o oposto nesse ponto de vista. At hoje, se eu colocar um cinzeiro num canto determinado por mim, ele ficar ali para o resto da vida. 
      Para compensar tamanha precocidade, meu comportamento na escola e fora dela era um zero  esquerda. Fui daquele tipo que no perde uma piada. Era incontrolvel, 
mais forte do que eu. No havia o que me fizesse ficar calada. As freiras no se conformavam, porque meu boletim era impecvel, mas as notas de comportamento me 
comprometiam irremediavelmente. Era irreverente, levada, inconveniente. Todas as freiras do Sacr Coeur de Marie lembram de mim fazendo besteira, mas com boas notas. 
O castigo para a indisciplina, no Sacr Coeur, era permanecer na escola depois do horrio. E s se saa dali na presena dos pais. Mame quase me matava. Quando 
morvamos em Laranjeiras e ela era chamada na escola para me pegar depois do horrio, o tempo esquentava. No tnhamos carro e ento mame precisava largar as costuras, 
pegar um bonde e ir at Copacabana me buscar. No caminho, eu ouvia as suas reprimendas, mas no adiantava. Aquele meu jeito era incontrolvel. 
      Com papai as coisas pioravam. Ele realmente implicava comigo. Minhas recordaes dele so sempre de censura e repreenso. Sinto uma tristeza enorme ao pensar 
que papai no me ensinou praticamente nada. Ele me perseguia com dedicao, desde o dia em que descobri a existncia de uma certa rainha do clube Cotybrs Atltico. 
Ela tinha a minha idade, uns 15 anos, e, por um acaso inexplicvel, a flagrei aos beijos com meu pai. Armei o maior carnaval e acabei contando a histria para a
minha me. Foi horrvel sob todos os aspectos, pelo ato de denunciar um deslize de meu pai e pelas conseqncias todas que isso representou. Ele passou a me controlar 
mais ainda e a me castigar todas s vezes em que o desobedecia. Mas eu o enfrentava apesar das circunstncias adversas. Aquele dia da festa na Coty no Clube Amrica, 
alis, me reservou outras emoes. Ali, conheci Elizeth Cardoso, que eu adorava. Ela havia recm-lanado a msica Cano de Amor (Elano de Paula e Chocolate), e 
estava em plena escalada do sucesso. Sentou em nossa mesa e pude conversar bastante com ela. Falei de minha admirao por ela, contei que sabia todas as msicas 
que interpretava e confessei odiar Vera Lcia, cantora concorrente que lanou a mesma Cano de Amor. Elizeth, nesse dia, me deu seu telefone e, a partir da, passamos 
a nos falar, ocasies em que cantava suas msicas novas e contava novidades sobre a carreira. O pessoal l de casa no acreditava que eu conversasse com Elizeth 
Cardoso. Costumavam escutar na extenso, para conferir. Muitos anos depois Elizeth, contratada pela Som Livre, se deliciava a recordar que aquela tiete menina era 
eu mesma. 
      Quando chegou o tempo de namorar, a ento papai revelou que suas garras eram afiadas. Em 1951, aos 14 anos, recebi uma carta de Lili, uma amiga de Vassouras,
com novidades: nem te conto, estou namorando um rapaz lindo chamado Joo Alfredo. No se anime porque no vou te apresentar nunca. Sei que ele  teu tipo. No sei 
se por premonio, mas o fato  que guardei essa carta (at hoje) e se passaram dois anos at que o tal Joo Alfredo se materializasse na minha frente. Foi num jogo 
de vlei em Vassouras, no vero de 1953. Eu morava no Rio, mas passava as frias l. Ele, vim a saber depois, vivia em Vassouras e, ao contrrio, viajava ao Rio
de Janeiro nas frias. Era um rapaz muito bem-apessoado, muito bonito. E as pernas, ah, meu Deus! As pernas eram to lindas que por causa delas, no time de futebol,
ganhou o apelido de Marta Rocha, nossa mais bela dos anos 50, nossa eterna Miss Brasil.  
      Joo Alfredo era o caula - nasceu em 2 de julho de 1935, o temporo de uma famlia com razes nordestinas, pernambucanas, mas radicada no Rio. Meu sogro,
Agenor de Miranda Araujo, era integralista e, por conta da perseguio sofrida pelos adeptos do movimento de extrema direita inspirado no fascismo europeu e dissolvido 
por Getlio Vargas em 1937, se deslocou bastante pelo Brasil. Uma de suas filhas, Maria Antnia, nasceu no Paran; outro filho, Baby, em Recife. Zezinho nasceu em 
So Paulo e outros trs deles no Rio, inclusive Joo. 
      Mal podia imaginar que aquele comeo de dcada de 50 seria to excitante para mim e que um jogo de vlei em Vassouras iria mudar to decisivamente minha vida.
Para sempre. 
      
      
     Captulo 3
     Voleibol e casamento
      
      "Tudo  possvel. Uma vida futura, passada"
      Azul e amarelo
      
      
      Por uma dessas estranhas coincidncias do destino, o quarto onde nasci no casaro em que morava minha tia Cecema, irm de minha me, em Vassouras, que ficava 
em volta da praa principal, foi o mesmo em que seu Agenor de Miranda Araujo, pai de Joo, veio a falecer em 1952. Hoje, no mesmo lugar funciona a Casa de Cultura
Tancredo Neves e, ali, dona Maria, minha futura sogra - uma educadora -, instalou e fundou o internato do primeiro ginsio masculino de Vassouras. Joo nunca foi 
um aluno brilhante. Seus amigos adoravam debochar dele por ser filho da dona da escola. Diziam gue sua me havia fundado o colgio s para ele poder passar de ano. 
      Quando vi Joo pela primeira vez, naquele jogo de vlei, ele namorava uma moa chamada Zuleica. Eu havia terminado h pouco meu flerte com Adriano Reis, que 
no futuro se tornaria ator conhecido. Alis, foi ele quem terminou o namoro. Moa que fica presa em gaiola pelo pai, no h rapaz que agente namorar, dizia. Felizmente, 
Zuleica estava gripada dias depois, quando reencontrei Joo na "Manh Danante do Centro Vassourense", que acontecia todos os domingos logo aps a missa das dez 
da Igreja da Matriz. Danamos at a msica se acabar e, durante o baile, Joo chegou perto do maestro da orquestra, Capucci, e pediu que tocasse um bolero. Conversa 
vai, conversa vem, confessou que estava gostando de um bolero novo, cujo nome era Lucinha. 
      - Posso cantar para voc? 
      - S depois que voc parar de cantar o bolero Zuleica. 
      
      Ele disse que o namoro com ela havia terminado, mas no era verdade. Acabou depois, sob minha presso. A paixo que me arrebatou, naquele comeo de namoro, 
creiam ou no, continua a mesma at os dias de hoje. Foi com a fora desse amor que enfrentei a oposio familiar e todos os acidentes de percurso nesses quarenta 
anos de casamento, dos quais no me arrependi de ter vivenciado sequer um segundo. Minha me no levou a srio o namoro com Joo, por acreditar que suas filhas tinham 
sangue "azul" e que haviam nascido predestinadas a casar com prncipes encantados, eleitos e perfeitos. E Joo no se encaixava no modelo de mame. Em 1953, ramos
bem garotos: eu, com 16 e Joo, com 17 anos. Quando nosso namoro comeou, Joo j morava no Rio. Um tempo de namoro, alis, com sabor de desobedincia, pois os atritos
surgiram quando meu pai passou a exercer uma marcao mais do que cerrada em minha direo. E mame argumentava sempre contra meu namorado. Em seu raciocnio na 
poca, Joo era pouco para mim, que j estudava na PUC, cursando o primeiro ano de pedagogia. Estudava na Cultura Inglesa, tinha aulas de violo, ganhava meu prprio 
dinheiro costurando para fora e fazendo tudo o que exigisse habilidade manual. E Joo, dizia ela, s havia terminado o ginsio e, ainda assim, a duras penas. Alm 
disso, por no parar nos empregos que lhe arrumavam - loja de acessrios para automveis em So Cristvo, laboratrio farmacutico de seu irmo Baby e
outros,
 ganhou fama de quem no gostava de trabalhar. De fato, Joo no era um aluno exemplar. Em 1954, quando morava com uma de suas irms, acordava cedo para ir ao Colgio
Mallet Soares, em Copacabana. Ele se vestia, pegava os livros e saa de casa, mas seu destino era outro: uma alfaiataria de um amigo no Leblon, onde se aninhava 
no sto, em meio aos panos, e dormia tranqilamente at a hora de voltar para casa. 
      Por tudo isso, a rejeio a um namoro firme com Joo era constante e presente l em casa. Mas eu no levei em conta as apreenses de meus pais. Estava determinada 
a continuar me encontrando com ele e a prosseguir com ele e a prosseguir com o namoro. Depois de um ano de corao palpitando s escondidas, meu pai permitiu que 
Joo entrasse em casa, mas s s teras-feiras, quintas e sbados. E, mesmo assim, bem  vista deles, sentadinhos no sof. Eu no agentava. Era incontrolvel. Quantas 
e quantas vezes nos agarramos nos elevadores, no depsito do laboratrio de seu irmo, nos becos, onde desse. Nas frias, que costumava passar na casa de minha irm
Clarinha, em Vassouras, recm-casada e j com sua primeira filha, Cludia, eu era obrigada a respeitar um cdigo de comunicao estabelecido por meu cunhado Jos. 
Podia namorar com Joo na varanda, mas quando ele apagasse as luzes por trs vezes seguidas, era sinal de que o relgio marcava dez da noite. Hora de recolher. A 
luz acendia e apagava como combinado, mas eu me fazia de desentendida. Fingia no perceber nada, porque o tempo era curto demais. Joo chegava s oito horas e s 
dez tinha que ir embora. Algumas vezes, me convidava: 
      - No quer ir dar uma danadinha? 
      Eu adorava danar. Adorava mesmo freqentar aquela garagem l em Vassouras, onde se apresentava um conjunto local. O palco era de frente para a rua e na calada 
o pessoal danava e se divertia a noite toda. Mas meu cunhado se opunha porque, na verdade, ele era igualzinho ao meu pai. Quantas vezes no me lancei em desabalada 
carreira rua abaixo at chegar  tal garagem, danar duas ou trs msicas rapidinho e voltar a toda, antes que percebessem a minha ausncia! 
      O namoro com Joo durou quase cinco anos. Tempo de dribles e conhecimento. Mame no se cansava de repetir os velhos ditados populares, para ela quase uma 
norma de vida, que desejava passar para as filhas: "Homem bonito d trabalho" e "homem tem que gostar mais da mulher do que a mulher do homem". E eu agia justo o 
oposto. Cometi os dois pecados cpitais de minha me e no me arrependo. Joo era e continua sendo um homem muito bonito e sempre me coloquei, na relao, como a 
que demonstra mais os sentimentos. Esse  o meu temperamento, no uma receita de vida. Meu mpeto incontido sempre foi o de mergulhar de cabea fossem quais fossem 
as conseqncias. 
      Mame sabia muito bem disso. Ela foi testemunha do que aconteceu quando, s vsperas de meu casamento com Joo, com os convites do casamento prontos, sofri 
um de meus acessos de loucura momentnea. Estava passando um filme no Metro Copacabana a que eu queria assistir e avisei papai que iria ao cinema  tarde. Me arrumei 
toda e, quando Joo chegou, papai disse: 
      - Aonde voc vai? 
      Eu argumentei que ele j sabia aonde eu estava indo, mas ele, altivamente, levantou o rosto ao decretar: 
      - Enquanto comer da minha comida e beber da minha bebida, voc tem que me obedecer! Voc no sai sozinha com ele nem para entregar convite de casamento! 
      Armei um escndalo. Aos berros, pronunciei todos os palavres que sabia e no sabia e, no contente, avancei para cima dele com fria. Queria esmurr-lo, destru-lo 
com minha raiva diante do que eu considerava uma inacreditvel injustia. Minha me se colocou no meio, apartando a briga. Joo olhava acena de lado, pasmo, morrendo 
de vergonha. Depois que me acalmei, ele me aconselhou a caminhar com mais jogo de cintura, mais elasticidade, a no ser to radical. No sei como, mas Joo quase 
acabou dominando esse meu temperamento com rara sabedoria, com seu jeito calmo e seguro. Minha me, antes de nos casarmos, vivia me dizendo que eu era uma pessoa 
completamente diferente na frente de Joo. Ele no gostava de mulher que falasse alto, ento eu falava baixo, e outros comportamentos distintos. Mame reparava sempre 
nisso. Eu justificava: 
      -  o amor, mame! 
      Pouco antes de me casar, ela me chamou num canto para tentar ainda, uma ltima vez: 
      - Lucinha, voc ganha to bem, esse rapaz no ganha tanto quanto voc. Como vai ser isso?  
      E, para seu total desespero, respondi na lata: 
      - Sabe de uma coisa? Ele vai deitar numa rede e eu vou balanar e, ainda, costurar para fora. Vou sustent-lo e pronto. Se vocs no pararem de me perturbar, 
 isso mesmo o que vou fazer! 
      Nessa famlia, e no comecinho da dcada de 50, minha deciso de manter um relacionamento mais ntimo com Joo antes do casamento me parecia uma atitude transgressora,
de vanguarda. Atitude difcil, que as mulheres da minha gerao certamente compreendem bem. Perder a virgindade antes do casamento arruinou muita harmonia familiar. 
Ningum em casa soube que eu j no era mais virgem ao subir ao altar, pois s revelei  minha me dez anos depois. Mesmo assim, ela se escandalizou. J quando resolvi 
contar essa faanha a meu filho adolescente, ele ficou decepcionado. Queria que eu tivesse me casado grvida. Teria sido mais excitante, dizia ele. 
      No ltimo ano de nosso namoro, o casamento se transformou em meta a alcanar. 
      S vim a saber que a famlia Araujo fazia restries ao nosso casamento pouco antes da cerimnia. Joo foi praticamente criado por sua irm mais velha, que 
se casou aos 17 anos, quando Joo tinha ainda 4. Ela perguntou a Joo se ele tinha certeza mesmo de que era isso o que ele queria pois, segundo ela, casamento se
desmanchava at na porta da igreja. Soube, tambm, que ela implicava com meus palavres. Mulher, naquela famlia, nunca falou palavro. Mas Joo disse  irm que 
ele gostava de mim e estava se casando porque o amor era recproco. 
      Ao meio-dia de 16 de maro, 1957, assinamos o livro de registro de casamentos no apartamento de meus pais, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. A cerimnia
religiosa aconteceu na Igreja de Santa Margarida Maria, na Lagoa. Minha me queria promover uma festa de qualquer maneira. Mas logo sugeri a ela que no gastasse 
dinheiro em festa, que eu preferia us-lo para comprar coisas que faltavam para o primeiro apartamento que alugamos na Rua Henrique Oswald, Copacabana. Um conjugado. 
Ela me deu o dinheiro de presente -  efetivamente usado na compra de armrios de cozinha, mveis para a sala e um lindo tapete chenille. Mas a festa aconteceu mesmo 
assim. 
      Enfim, estava deixando para trs a vida de solteira. Daquele dia em diante, passei a assinar Maria Lcia da Silva Araujo. Ou, mais simplesmente, Lucinha Araujo.
      
      
     Captulo 4
     Filho nico, o destino anunciado
      
      "Amor demais no atrapalha.
      Um filho rejeitado nunca conserta a cabea.
      Um superprotegido t limpo."
      Cazuza
      
      A vida de casada praticamente comeou num quarto-e-sala na Rua Prudente de Morais, nmero 923, Ipanema, para onde nos mudamos depois de breves quatro meses 
no conjugado de Copacabana. Por doze anos habitamos o apartamento 101 desse edifcio, onde tambm morava minha cunhada Lcia, no quarto andar. O nosso ficava no 
andar trreo e tinha quintal! 
      Nesse incio de vida a dois Joo relutou muito antes de aceitar a idia de que eu precisava trabalhar. Queria que vivssemos apenas com o seu ordenado na gravadora 
Odeon - na poca, ele ganhava 8 contos de ris, como divulgador de rdio. Percebi logo que seu salrio no era suficiente mas, com o tempo, ele se acostumou e minha 
contribuio ao oramento familiar foi, enfim, fundamental. Passei, ento, a dividir meus novos afazeres domsticos com o ofcio de costureira, como se dizia ento, 
profisso com que algumas jovens recm-casadas garantiam o bem-estar da casa. Na verdade, eu era uma estilista, como se diria hoje, pois criava os modelos, alm 
de torn-los uma realidade por minhas prprias mos. A clientela era enorme. Contrariando as expectativas familiares - dos dois lados -, Joo encontrou sua verdadeira 
vocao na indstria do disco e at hoje no h mais quem diga que ele no goste de trabalhar. Seu primeiro emprego, aos 17 anos, foi como divulgador de rdio na
gravadora Copacabana, de propriedade de nosso cunhado, Jos Mller, mas j trabalhava na Odeon quando nos casamos. 
      Abandonei a faculdade depois do primeiro ano e toda a minha dedicao e anseio em ser a melhor nas salas de aula explodiu dentro de casa. Nesse pequeno e novo 
territrio, eu lutava pela perfeio. No comeo, segui a linha de comportamento de minhas cunhadas para agradar Joo - tudo o que elas achavam de bom gosto, de correto, 
de direito, eu tambm achava. Tudo em minha casa tinha que ser igualzinho ao que se fazia na casa da me de Joo e na de suas irms. E melhor! No meu ponto de vista, 
meu marido era um deus, um dolo por quem estava febrilmente apaixonada. No me importava, ento, quanto tempo esse casamento poderia durar, mas a verdade  que 
eu conseguira casar com o grande amor de minha vida. 
      Trs meses depois do casamento, engravidei. No comeo de 1958, minha barriga foi crescendo  medida que eu trabalhava nas costuras, noite e dia. No me dei
conta quando chegaram as primeiras contraes. Em minha desinformada imaginao, a hora do parto devia estar diretamente ligada a desmaios de dor e gritos alucinantes, 
como se via no cinema. Por isso, quando mame perguntou como me sentia naquela manh respondi: normal, sem novidades! Ela me disse que iria, ento, levar Vov Manduca 
at Vassouras, mas que no final da tarde estaria de volta. Lembro de ter comido uma fruta-do-conde gigantesca, antes de minha sogra tocar a campainha. Ao contrrio 
de mame, que sempre ficava nervosa, dona Maria fazia questo de estar presente na sala de parto e assistir ao nascimento do neto, como alis havia feito com todos 
os outros. Estava hospedada na casa da filha Lcia, quatro andares acima, desde que chegara de Vassouras. Perguntou se estava tudo bem, pois as previses mdicas 
apontavam o nascimento entre os dias 2 e 6 de abril. Respondi que sentia apenas um pouquinho de clica, mas que devia ser por causa da fruta-do-conde. Ela me fez 
sentar no sof, pegou seu relgio enorme - que usa at hoje e que pertenceu a meu sogro - e comeou a contar os minutos. De meia em meia hora, as contraes intensificaram. 
Passaram a ocorrer de quinze em quinze minutos. Dona Maria disse que ia ligar para o mdico, mas eu no queria. Achava que era alarme falso e temia passar por essa 
situao. Tinha vergonha. Minha sogra conseguiu localizar o doutor Frank Paranhos num churrasco e ele pediu que me levassem ao hospital. Tomei um banho e, quando 
olhei para minha barriga, ela parecia cair de to baixa. A mala j estava pronta e, por volta do meio-dia, eu, Joo e minha sogra seguimos para a Casa de Sade So 
Jos, no Humait, numa caminhonete DKV Vemag verde-clara, emprstimo de Tereza, irm de Joo. 
      Foi uma longa espera. Eu no sentia as dores da expulso e tinha pouca dilatao, o que me levou a ficar em trabalho de parto at as nove e quinze da noite. 
Seria o caso de optar por uma cesariana hoje em dia, mas essa prtica no era comum naquele ano de 1958, uma sexta-feira santa, 4 de abril, comecinho de outono quente
no Rio de Janeiro, quando meu filho veio ao mundo. Um menino, assim como sonhamos e pressentimos. As primeiras flores chegaram ao quarto do hospital: 
      "Para a me do Cazuza, com um beijo do pai do mesmo". 
      Cazuza. Foi essa a maneira encontrada por Joo para tentar corrigir um erro que ainda sequer havia cometido. Durante toda a gravidez, minha sogra insistiu 
inmeras vezes no assunto: nenhum dos seus catorze netos - Cazuza foi o dcimo quinto - tinha o mesmo nome de seu marido, Agenor. E eu, para agrad-la, disse tudo
bem dona Maria, eu coloco esse nome no meu filho, na esperana de que eu ainda teria muitos outros filhos e poderia colocar os nomes de minha preferncia nos que 
ainda estavam por nascer. Joo tambm se sentiu pressionado a homenagear o pai, mas se arrependeu no meio do caminho, como ele mesmo conta: 
      "Agenor era um nome curto, com um significado histrico, mas era feio. E nessa poca, na campanha do Jnio Quadros ele usava o slogan: o Jnio vem a, o Jnio 
vem a. E no sei por que um certo dia acordei pensando assim: o Cazuza vem a, o Cazuza vem a! No Nordeste, Cazuza significa moleque, mas esse no era um nome 
que se usava comumente em minha casa. Lembro de um tio, que tinha esse apelido. Comecei a brincar com o nome, antecipando uma alternativa para o garoto que ma nascer 
. 
      Registrado Agenor de Miranda Araujo Neto, meu filho sempre foi Cazuza, desde a maternidade. No Aurlio, significa vespdeo, uma vespa solitria, cuja ferroada 
 bastante dolorosa. Ele s se deu conta de que seu nome era Agenor aos 3 anos de idade, quando foi para a escola, o Colgio Chapeuzinho Vermelho, na Rua Prudente 
de Morais, Ipanema. Perguntava a mim mesma onde estava com a cabea quando resolvi batiz-lo com esse nome. At mesmo um irmo de Joo, registrado como Agenor, passou 
a vida sendo conhecido pelo apelido de Baby. Cazuza s assumiu seu nome de batismo quando descobriu que o grande Cartola tambm se chamava Agenor. 
      Aos meus olhos, Cazuza era um recm-nascido lindo. J aos do pai, uma decepo de to feio, enrugadinho, uma mancha vermelha na bochecha, as orelhinhas de 
abano. Mas para os dois, um filho amado e desejado. Tanto eu quanto Joo sonhvamos com uma famlia grande, com a mesa cheia nas horas de refeies e aquela movimentao 
constante na casa. Embora Cazuza tenha nascido perfeito, sem problema algum, o parto deixou seqelas para sempre. A fora usada na expulso de meu filho acabou lesando 
o canal cervical, impedindo que eu pudesse engravidar novamente. Passei dezoito anos de minha vida em sofridos tratamentos que resultaram inteis e que determinaram 
o nosso futuro. Sem mesa cheia, sem a agitao da famlia grande - um casal destinado a criar um filho nico.
      Eu ainda no sabia que no engravidaria nenhuma outra vez, quando voltei para casa e enfrentei o pesadelo de uma me de primeira viagem. Mal cheguei em casa 
com Cazuza nos braos e o ajeitei no carrinho e ele comeou a chorar. Chorou sem parar por trs horas seguidas. Entrei em parafuso, porque eu queria fazer tudo pessoalmente, 
ficar com ele at tarde, acordar cedo. Cazuza passou a chorar ininterruptamente e eu no sabia o que fazer. Foi o doutor Rinaldo de Lamare quem descobriu a rinite 
alrgica que impedia Cazuza de dormir e entupia suas narinas a cada mamada. Eu o alimentei nica e exclusivamente com meu leite por seis meses, e, nos seis seguintes, 
alternando as mamadas com sopas e comidinhas. Nunca fiz uma mamadeira, nem mesmo quando ele comeou a se alimentar com papinhas e frutas, pois ainda o amamentava 
duas vezes ao dia. 
      A carreira de Joo na indstria fonogrfica o obrigava a passar muito tempo fora de casa e Cazuza foi crescendo sob a minha tutela. E como eu era rgida! Meu 
marido acreditava que a educao de nosso filho deveria ser exatamente igual  que ele recebeu de sua me. Para minha sogra, crianas deveriam ser obrigadas a comer 
verduras. Era preciso esconder fgado dentro do feijo para que a criana o comesse sem perceber. E outras torturas mais, como dormir cedo e acordar na hora certa. 
J com minha me, a histria sempre foi diferente. Se eu e minhas irms no quisssemos comer o cardpio do dia, ela improvisava um sanduche. O importante era se 
alimentar. Mas eu optei pela cartilha dos Araujo. No sei por qual demnio eu era possuda quando batia em meu filho para que Cazuza comesse. Belisces, tapas, chineladas, 
gritaria. O inferno se mostrava todo em casa, nas horas das refeies, pois ele era bastante rebelde na questo comida e eu, uma perfeccionista obstinada em seguir 
as regras de conduta, que acreditava piamente serem as melhores, as certas, as corretas. Depois de tudo, ainda ameaava Cazuza: 
      - Se voc contar para o seu pai, apanha dobrado!!! 
      Num desses ataques de fria, apertei seu brao com fora - minhas unhas deixaram marcas. No jantar daquela noite, Cazuza no disse nada. Mas olhou insistentemente 
para o pai, enquanto passava a mo em cima da marca em seu brao. Acintosamente, at Joo lhe perguntar: 
      - O que foi, Cazuza? O que houve? 
      - Nada, nada. 
      Joo pediu para olhar e quando viu as marcas de minhas unhas no brao do menino ficou louco, indignado. Meus argumentos eram reais: Joo ficava pouco em casa 
e quem tinha que dominar o garoto era eu, portanto segui fazendo o que minha cabea me ditava, na certeza absoluta de estar no caminho certo. Anos depois, meu filho 
declarou: 
      - Mame me entende s com o olhar. J com papai tenho que explicar tudo. 
      
      Cazuza foi um garotinho tmido, mas arteiro. Sua atrao por brincadeiras perigosas desafiava os limites. Quando estava muito quieto, no dava outra - o esprito 
incendirio se manifestara na certa. Sua aventura preferida era jogar lcool dentro do vaso sanitrio e tocar fogo. Ou, ainda, promover batidas de automveis, para 
depois incendi-los. Justamente os carrinhos Match Box, importados e carssimos, que eu fazia questo de comprar e que ele colecionava. Brincar com fogo virou mania 
porque, quando ele cresceu, continuou a fazer as mesmas coisas. S que, infelizmente, quando se deu conta do tamanho do incndio, no era mais possvel apag-lo. 
      Minhas reaes diante dos absurdos infantis de Cazuza eram em geral bastante descontroladas. Certa vez, passei pimenta em sua boca para que ele no dissesse 
mais palavres. Justo eu, que sempre fui uma grande desbocada! Bem pequenininho ainda, ele costumava se referir a meu respeito de uma maneira que resume bem a me 
que enxergava em mim. 
      - Quando eu desobedeo e minha me fica zangada, sai fogo pelo nariz dela e cresce rabo. 
      Quem nos salvou desse hospcio familiar foi Cedlia, que veio trabalhar conosco em 1961, quando Cazuza tinha 3 anos. Foi a sua salvao. Era atrs dela que 
meu filho se escondia quando eu o perseguia apartamento adentro, chinelo na mo. Cedlia o protegia e ele a adorava, numa relao que se conservou assim no s nos 
treze anos em que ela me ajudou nos servios domsticos, mas at o fim. Ela pediu a Cazuza que batizasse o seu primeiro filho, Mrio, em 1974. 
      Cazuza entrou na Escola Brasileira da Criana aos 2 anos e meio e, ao completar os 3 anos exigidos, o transferimos para o Colgio Chapeuzinho Vermelho. Ao 
peg-lo na sada da primeira aula, a professora comeou a chamar por Agenor e no apareceu ningum. Ento lhe sugeri que experimentasse o nome Cazuza e, claro, ele 
chegou correndo com aquele sorriso encantador e os olhinhos muito vivos, espertos. Apesar de meu temperamento explosivo e das regras que segui no passado, passamos 
bons momentos juntos nessa fase da infncia de meu filho. No vero, amos  praia duas vezes ao dia - de manh e  tardinha. Controlava suas idas e vindas da gua 
enquanto alinhavava as costuras, debaixo da barraca. Nossos programas nos finais de semana tambm eram sagrados. Depois do almoo, enquanto Joo tirava uma soneca, 
saamos os dois para atividades que variavam do cinema ao teatro, caminhar at a pracinha, tomar um sorvete. Desde que desandou a falar, Cazuza desenvolveu uma habilidade 
bastante criativa para inventar histrias. Talvez pelo fato de que, apesar do controle formal que exercia sobre ele, eu jamais tenha freado ou desestimulado sua 
prdiga imaginao. Ao contrrio, me encantava com as longas conversas que nos entretinham nessas ocasies. Por outro lado, Cazuza desenvolveu uma sinceridade to 
escancarada que, muitas vezes, nos colocou em situaes constrangedoras. Alm do fato bvio de, em todo aniversrio, ganhar vrios exemplares do livro Cazuza, de 
Viriato Correia, havia tambm o costume, na dcada de 50, de se presentear crianas com meias. Uma senhora l do prdio, que gostava muito dele, apareceu em casa
com um embrulhinho na mo - seu presente de aniversrio. Cazuza no pensou, antes de disparar: 
      - Qui f meia, num quero!!! 
      E era!!! 
      Essa tendncia a falar o que lhe passava pela cabea sem medir as palavras e de dizer frases chocantes o acompanhou at o fim da vida. Com o tempo, na verdade, 
foi se aperfeioando. Observando a personalidade de seus pais, Cazuza tinha dois exemplos distintos em casa a escolher como modelo. Joo sempre foi um sedutor, agindo
com calma, pensando antes de se manifestar, falando devagar. Esse  o seu temperamento. J eu sou o oposto, digo tudo o que me vier  cabea em momentos de raiva.
Depois me arrependo, peo desculpas. Mas no tempo em que Cazuza deu seus primeiros passos, no pensava em lhe pedir desculpas. Afinal, no havia maldade premeditada 
em minhas atitudes. 
      Eu pecava por am-lo demais. 



     Captulo 5
     A me perfeita

      "Mame, t certo, eu me dei mal na escola/...
      Pode parar o jogo/...
      Voc  a dona da bola..."
      Subproduto do rock


      Talvez o auge de minha obsesso por fazer de meu filho um gnio da raa tenha sido a idia fixa que me levou a procurar o Colgio Santo Incio, de padres jesutas,
em 1963, quando Cazuza tinha 5 anos. Se aquela era a melhor escola do Rio de Janeiro, era ali que meu filho iria estudar. Mas para que meu sonho se realizasse era
preciso que ele passasse no exame de admisso, cuja exigncia mnima era a de que o novo aluno soubesse ler e escrever. Nos preparamos para este exame como se ele
fosse fatal para que eu continuasse viva. Estava to nervosa no dia da prova que protagonizei uma cena inesquecvel. De p, debaixo da janela da sala onde ele fazia
o exame, anotei uma a uma as vinte palavras do ditado nas costas de um envelope, que guardo comigo at hoje. No txi, de volta para casa, perguntei a Cazuza como
havia se sado:
      - No sei, mame!!!
      Tirei ento o envelope da bolsa e fiz com que ele escrevesse tudo novamente. Cazuza s errou uma palavra: escreveu verdejante com a letra g. Fiquei bastante
apreensiva at o dia em que o resultado foi divulgado. Cazuza havia conseguido! Entre mais de mil candidatos, classificou-se em 50 lugar, com nota 9,5. Qualquer
me ficaria orgulhosa, mas no eu. Um 9,5 era pouco para mim, uma ex-estudante de colgio de freiras cujo rendimento escolar havia sido exemplar. No podia imaginar
quanto meu filho ainda iria se rebelar no futuro, contra a rigidez e os mtodos do Santo Incio.
      A nossa rotina, a partir de ento, era controlada. Cazuza chegava da escola, eu pegava o dirio de classe na mala e organizava a sua vida de acordo com os
deveres. No fim da tarde, enquanto no terminasse os deveres escritos, no podia sair para brincar. Na manh seguinte, ele se dedicava s lies orais. Depois, eu
lhe tomava os deveres. E como eu era chata nesse papel!!! Joo, embora ausente, no concordava com meus mtodos, mesmo porque, para ele, ser um bom aluno na escola
no significava muita coisa. Citava exemplos de homens brilhantes que nunca haviam conseguido um 10 no boletim. Cazuza corria para ele nessa fase para se proteger
de mim.
      Felizmente meu filho encontrou duas grandes vlvulas de escape para suportar meu temperamento autoritrio enquanto era criana. Suas duas avs. Minha me,
Alice, representava para meu filho a liberdade desfrutada longe de casa. Tudo o que era proibido conosco era permitido na casa de Vov Lice. Para acompanhar meu 
marido em seus incontveis trabalhos noturnos, em sua trajetria como homem da indstria fonogrfica, muitas vezes deixei Cazuza com minha me. A seu lado, Cazuza 
conheceu o reino dos cus. Tomava banho se quisesse, comia todas as guloseimas desejadas e, pior ainda, assistia televiso, hbito proibido por Joo. As vezes, na 
volta para casa, ele comentava o filme da Sesso Coruja, o que deixava o pai muito bravo. Mas a paixo de Cazuza por minha me no tinha limites. Primeiro neto homem 
numa famlia de mulheres, Cazuza era o preferido mesmo e se orgulhava disso. Adorava ouvir as histrias que minha me lhe contava e, principalmente, retribua a 
compreenso com que ela o tratava em todas as circunstncias. Depois que se tornou famoso, Cazuza confessou numa entrevista que era com Vov Lice que discutia as 
suas poesias, as rimas dos versos que nunca me mostrou. Mesmo assim, muitas vezes, o temperamento brincalho e quase mrbido dessa fase de Cazuza no poupava nem 
mesmo a querida Vov Lice. Uma de suas brincadeiras assustadoras preferidas era simular um desmaio no banheiro. Para dramatizar, ele colava aquele fiozinho vermelho 
que encapava os maos de cigarro grudado no canto da boca, para simular sangue escorrendo. Ele gritava, minha me corria para o banheiro e levava um susto imenso. 
Invariavelmente, ela apelava aos santos: 
      -Valha-me minha Santa Rita! 
      Cazuza gargalhava. Ele repetia a encenao com alguma freqncia e Vov Lice no aprendia. Sempre se assustava. 
      A segunda vlvula de escape de Cazuza era dona Maria, sua av paterna, em cuja casa de Vassouras ele passou as frias dos 3 aos 15 anos. Tambm ali, era tratado 
como um prncipe, cercado de todos os mimos que uma av sabe fazer, incluindo tirar as sementes de uva por uva para que ele no engasgasse, alm de outras mordomias. 
Muitas vezes eu e Joo voltvamos tarde para casa depois de um baile de carnaval, ou outra festa, e Cazuza acordava antes do que ns. Gritava l de sua cama: 
      - Vov Maria, meu amor, vem me buscar! E os dois passavam toda a manh se divertindo juntos. Mas nem ela escapava de seu apurado senso de humor. Quando falava 
ao telefone com Vov Maria e ela comeava a se queixar e reclamar de dormncia nas mos, Cazuza tambm no se continha:.
      - , vov, mas tambm, o que voc quer? Voc j est bem velhinha e no quer ter nada? Faz o seguinte vov: corta as mos!!!
      Em 2 de maio de 1997, Vov Maria completou 99 anos.
      A paixo de Cazuza pelos animais comeou com um periquito perdido que apareceu no nosso quarto-e-sala. O apartamento trreo tinha um pequeno quintal ao ar
livre e ali ele colecionava seus animaizinhos de estimao. Tempos depois comprei uma fmea e um viveiro e os periquitos se multiplicaram em 33 e acabaram todos 
na casa de minha me em Vassouras, para onde foram tambm um coelho e um aqurio bastante habitado. Aos 5 anos, ganhou seu primeiro cachorro, uma cadela que batizou 
de Sunny. Tinha o plo dourado que brilhava ao sol, mas seis meses depois foi atropelada, para total desespero de Cazuza. Enquanto o veterinrio tentava, em vo, 
salv-la, Cazuza, bastante nervoso, rasgou com as mos as pernas da bermuda jeans que estava usando. Como presente de uma vizinha, a jornalista Sandra Moreyra, na 
poca uma menina, ganhou outra cadela logo depois. Infelizmente, ela tambm ficou doente e morreu em uma semana. 
      Mas meu filho no desistiu. Depois de um fim de semana em Friburgo, com tia Maryse, Paulinho e Mrcia Mller, ele voltou para casa com outra cadela que, embora 
preta e feia, cismou em tambm lhe chamar de Sunny. A Sunny II, que sobreviveu e ficou oito anos em casa - dos treze que viveu -, at mudarmos para o Leblon, quando 
o seu destino foi o mesmo dos outros - a casa de Vov Lice em Vassouras. Cazuza escolheu o mais bonito filhote da ltima ninhada de Sunny II. Seu nome era Wanderley 
Cardoso, em homenagem aos olhos verdes, parecidos aos do cantor. Cazuza carregava Wanderley para toda .parte, principalmente  praia, onde meu filho ficou conhecido 
como o dono de Wanderley, que se parecia a um rusky siberiano, embora fosse um vira-lata de primeira. Certo dia, num carnaval, Cazuza saiu com Wanderley para brincar 
na Banda de Ipanema. L pelas oito da noite, meu filho chegou em casa sem o cachorro. Mas cad o Wanderley: 
      - No sei, me, ele sumiu. Procurei, procurei e no acho. 
      - Cazuza, voc  um irresponsvel! 
      
      Zeca Neves guardou na memria outra histria de Wanderley na Praia do Arpoador. Cazuza, com dentista marcado para as trs da tarde, ficou furioso quando Wanderley 
se engatou com uma cadela e no havia meio de separ-los. As duas horas, cansado e apressado, gritava com seu co: 
      - Logo agora voc faz isso comigo!!! 
      
      Nossa cozinheira, Cida, que era louca pelo cachorro, j organizara uma expedio de resgate quando o programa Fantstico comeou a exibir uma reportagem sobre 
a Banda. E l estava ele, todo fantasiado, tranando entre as pernas dos folies. Embora a matria tenha sido gravada de tarde, samos, Cida e eu,  procura de Wanderley, 
seguindo o itinerrio da Banda. Finalmente o encontramos na Praa da Paz, todo fantasiado, andando de um lado para o outro,  procura de seu dono. Cazuza nem deu 
bola. Nos seus dois ltimos anos de vida, meu filho ganhou outro cachorro, o Man, um waimaraner. Um co sem a menor identidade. Conviveu muito pouco com seu dono. 
      Cazuza viveu outras vrias fases de interesses quando menino. Em sua prodigiosa imaginao para criar histrias, ele preencheu vrios cadernos com suas histrias: 
criava famlias inteiras e um destino para cada um de seus personagens - desquites, traies, mortes, bigamias. Quase ao mesmo tempo surgiu o interesse por geografia. 
Desde os 7 anos, Cazuza saciava a curiosidade, consultando com sofreguido a Enciclopdia Barsa. Alguns amigos de Joo do futebol se reuniam todos os sbados depois 
do jogo em So Conrado, s pelo prazer de sabatin-lo. 
      - Cazuza, qual a cpital do Zaire? E a renda per cpita? 
      Ele acertava todas. Impressionante. 
      Cazuza acabou realmente se tornando um expert no assunto, a ponto de seus colegas de escola - e outros amigos - ligarem l para casa para tirar suas dvidas 
sobre geografia, populaes, cpitais, cultura dos pases. Ele deitava-se no cho de seu quarto com o mapa-mndi aberto e se concentrava inteiramente. Passava grande 
parte de seu tempo trancado no quarto, no seu mundinho particular. Joo, nessa fase, brincava com ele: 
      - Voc vai ser o qu? Professor de geografia? Isso no d dinheiro. 
      Mais tarde, costumava ler romances com o atlas ao lado, para entender direitinho onde se passava a trama. Ele devia ter uns 8 anos quando recebemos em casa, 
para um jantar quase cerimonioso, o venezuelano Manoel Guevara, casado com uma prima minha e que naquele momento exercia o cargo de Ministro dos Transportes em seu 
pas. o apartamento estava perfeito, e ns trs muito bem vestidos. Cazuza usou um de seus modelos da Beb Conforto, a ltima palavra em roupas infantis no Rio de 
Janeiro dos anos 60. Antes da chegada das visitas, preocupado com a irreverncia latente do filho, Joo chamou Cazuza num canto com recomendaes: 
      - Olha, meu filho, eu sei que voc no tem a menor cerimnia com as pessoas. Mas hoje, por favor, no faa perguntas, no diga bobagens. 
      Durante o jantar, duas ou trs vezes, Joo cutucou Cazuza por debaixo da mesa. Como se no estivesse entendendo nada e exibindo um ar inocente, denunciou Joo: 
      - O que foi, pai? 
      At que o ministro comeou a contar sobre um tnel que havia construdo em sua terra, um tnel de trem subterrneo. E afirmava que aquele tnel que tinha uma 
determinada extenso era o maior da Amrica Latina. Cazuza retrucou no ato:
      - No , no! 
      Levantou da mesa e saiu correndo para o quarto. Quando voltou, trazia um livro nas mos provando no s que a extenso do tnel alardeada pelo ministro estava 
errada como tambm que aquele no era, definitivamente, o maior da Amrica Latina. O ministro ficou encantado. No dia seguinte mandou de presente para Cazuza um 
sofisticado atlas ingls. 
      Tempos depois, Cazuza se apaixonou por arquitetura e urbanismo. Criava cidades com madeiras e caixas de fsforos e tambm todo o seu funcionamento. Na casa 
de minha me em Vassouras - que nessa poca havia se mudado definitivamente com papai, j aposentado, para a cidade -, Cazuza passava horas no quintal armando suas 
metrpoles imaginrias, todas elas com populao definida, alm de renda per cpita e seu cotidiano. Sempre pensei que meu filho acabaria se tornando um engenheiro, 
um arquiteto, um urbanista, tal a dedicao e empenho com que mergulhava compenetrado nesses assuntos. Apesar disso, o rendimento escolar de Cazuza era pssimo. 
Suas notas, eu pensava, eram inadmissveis para um garoto inteligente e esperto como ele. E, invariavelmente, eram motivo de castigo para meu filho. J com os esportes, 
Cazuza foi uma tragdia, para desespero do pai. Todos os sbados, meu marido freqentava um clube de futebol formado por 30 homens com mais de 30 anos, com uma exceo 
aberta a Joo, que foi admitido aos 24. Era o chamado Clube dos 30, em So Conrado. Joo sempre teve amigos mais velhos e ali conviveu com Paulo Mendes Campos, Lus 
Carlos Barreto, Thiago de Mello, Armando Nogueira, que tambm levavam seus filhos ao futebol de todos os sbados. Alm disso, em toda a sua vida, meu marido foi 
um esportista que praticou tnis, vlei e futebol. Ele queria muito que o filho seguisse seu exemplo, como conta: 
      "Sempre desejei que Cazuza se interessasse por esportes, mas quando eu o levava ao Clube dos 30, Cazuza no demonstrava a menor vontade de jogar futebol. As 
vezes at brincava com a bola, mas rapidamente se desinteressava. O que o empolgava mesmo era pegar meu carro e dirigir em volta do loteamento". 
      A frustrao de Joo com o total desinteresse do filho por seu esporte favorito foi motivo de uma crnica do jornalista Armando Nogueira, publicada no Jornal 
do Brasil em sua coluna A Grande rea, em 1968: 
      "Cazuza, 10 anos, chegou da escola, participando ao pai uma novidade: 
      - Papai, estou jogando futebol, l no colgio. 
      O pai, que sempre bateu sua bolinha razoavelmente, ficou na maior alegria: nunca tinha confessado, mas o desinteresse do filho por futebol era uma das pequenas 
tristezas de sua vida. H alguns anos ele andou tentando despertar no garoto o gosto pela pelada: no clube em que joga um racha semanal, chegou mesmo a levar Cazuza 
para o campo, ficava no gol e s para estimular papava frangos tremendos nos chutes de Cazuza. 
      Nos ltimos tempos, porm, Cazuza abandonou na garagem a bola e as chuteiras e nunca mais falava de futebol. Da a felicidade do pai ao ouvir do menino que 
estava jogando bola, agora oficialmente! no time do colgio. 
      -  no time do colgio, Cazuza? 
      - , sim senhor. 
      - No primeiro time, Cazuza? 
      - No. 
      - Ah,  no segundo time, meu filho? 
      - Tambm no, papai. 
      - No vai me dizer que te puseram no terceiro time. Terceiro time nem deve existir l no colgio. 
      - Existe, sim, mas eu no jogo no terceiro time tambm, no. Sou do Fusa. 
      - Fusa? Que diabo  isso, Cazuza? 
      - Fusa  o seguinte, papai: tem o primeiro time, o segundo e o terceiro times. A eles pegaram a turma que sobrou e misturaram todo mundo. Isso  que  Fusa. 
      - E voc joga de qu, nesse tal de Fusa? - perguntou o pai, j inteiramente desanimado com o herdeiro de suas virtudes futebolsticas... 
      - Eu sou reserva do Fusa, papai." 
      Em sua carreira, Joo fez de tudo na indstria do disco. Comeou na gravadora Copacabana e, depois, passou pela Odeon, Mocambo, Festa e Sinter, que foi comprada 
pela Philips. Naquela gravadora, Joo produziu discos de Elis Regina, Jair Rodrigues, Gilberto Gil, Jorge Ben. Praticamente lanou Caetano Veloso e Gal Costa no 
disco Domingo, o primeiro da carreira de ambos. Lanou, tambm, o primeiro LP dos Novos Baianos. Considero Joo o homem de disco mais importante do Brasil, pois 
conheceu a fundo o seu ofcio ao trabalhar em todos os cargos dentro da indstria - foi divulgador de rdio, de imprensa, produtor de estdio, at fundar a Som Livre, 
em dezembro de 1969. 
      Por isso, desde pequenininho, meu filho teve sua ateno naturalmente desperta para o mundo da msica. Eu e Joo gostvamos de msica, desde o namoro. Na poca, 
eu estudava violo e, em nossos encontros, nos distraamos em tocar e cantar. Para Cazuza, aconteceu ainda de conhecer de perto os artistas que freqentavam nossa 
casa. Desde garoto, a paixo de Cazuza por Rita Lee era avassaladora. No perdia nenhum de seus shows. Silvinha Teles foi minha colega de colgio e acompanhou Cazuza 
desde o seu nascimento. Elis Regina o viu crescer, assim como Jair Rodrigues, os Novos Baianos, Caetano, Gil, Gal. Meu filho dizia que no tinha mitos, pois conviveu 
com todos eles. 
      Nos tempos do Santo lncio, Cazuza tinha dois grandes amigos: Ricardo Quintana e Pedro Bial, hoje jornalista e poeta. Com Pedro, alis, ele j havia repartido 
a sala de aula no Colgio Chapeuzinho Vermelho. Com meu filho, Pedro freqentou o Clube dos 30, fez viagens em excurso do colgio e entrevistou o poeta Vincius 
de Morais para um trabalho escolar sobre diplomatas que abandonaram a carreira. As recordaes de Pedro Bial sobre a infncia e adolescncia de ambos: 
      "Cazuza no era nada esportivo, no gostava de esportes. Era tmido e fechado. No se socializava com o resto da turma. Nunca teve muita pacincia para o social. 
Era inteligente e desenhava muito bem. Fazia desenhos de mapas e cidades, superorganizado. O resultado era muito bem-feito e, para cada um dos lugares, ele inventava 
nomes de fantasia. Na poca do Santo lncio, ele teve uma relao forte com Ricardo Quintana e, juntos, inventavam histrias, um espao meio mitolgico, um mundo 
s deles. Minha grande luta era a de ser aceito na brincadeira. A grande sensao da escola eram as mulheres nuas que Cazuza desenhava: todos os alunos pagariam 
uma nota para ter um desenho dele - mulheres erticas, sexies, vamps, lindas, personagens marcantes. Cazuza no era do tipo popular e nem de ficar desafiando professores. 
Quieto, ficava no seu canto conversando com o Ricardo ou comigo. Aos 13 anos - tnhamos a mesma idade -, o pai de Cazuza conseguiu marcar uma entrevista nossa com 
o Vincius de Morais. Ficamos encantados com aquele lquido amarelinho que ele tomava. Achamos muito bacana aquele negcio do usque". 
      A vida escolar de Cazuza, na verdade, nunca me deixou tranqila. Ele passou a desafiar minha autoridade  medida que crescia: passou a esconder o dirio de 
classe e a rasgar boletins com notas baixas. A primeira vez em que ficou de recuperao na escola, no final do primeiro ano ginasial, em trs matrias, no teve 
coragem de voltar para casa. Da escola, rumou direto para o escritrio de Joo, na Som Livre, e s voltou debaixo das asas do pai. Quando entraram, Joo me chamou 
no quarto e alertou: 
      - Cazuza ficou de recuperao e est apavorado com voc. Veja l o que vai fazer. Esses escndalos no resolvem nada!!! 
      
      Mas, no dia seguinte, quando meu marido saiu para o trabalho tive um duplo acesso de loucura. Primeiro, porque no me conformava com a traio de Cazuza. Como 
eu, que me julgava a dona do pedao, tinha sido a ltima a saber? Meu cime era doentio. E depois, veio a bronca monumental pela recuperao no Santo Incio. Os 
14 anos de Cazuza foram como uma marca de luta cega pela liberdade. Suas reaes diante de minha autoridade j no eram mais de choro e quarto fechado. Ele me enfrentava, 
respondia e desafiava. Cada vez com mais intensidade. E eu comecei a lutar contra a dura realidade que, dali em diante, seria obrigada a enfrentar: conviver e perdoar 
as atitudes extremas de meu filho, at entender que ele no era mais o meu garotinho. 
      
      
     Captulo 6
     Cazuza rebelde, a era da mentira
      
      "Nadando contra a corrente/S para exercitar..."
      Pro dia nascer feliz
       
      A pior constatao de minha vida foi descobrir que meu filho viveria apesar de mim. Era tamanha a responsabilidade que sentia em relao a ele que, de repente, 
quando ele se transformou numa pessoa pensante - e, de modo geral, com uma cabea muito diferente da minha -, me percebi totalmente impotente. Os conflitos em casa 
comearam a se intensificar a partir dos 12 anos de Cazuza. Meu descontrole data do incio da era da mentira. 
      - Cazuza, voc foi bem na prova? 
      - No sei. 
      - Como no sabe, cad a prova? 
      Ele j a havia rasgado e jogado no lixo, longe de meu alcance. No sei como, porque eu vasculhava todo o seu material, remexia em tudo, sem constrangimento 
algum. Ao mesmo tempo, Cazuza fazia coisas mais perigosas, mais desafiadoras, como cabular as aulas e voltar para casa no horrio certinho, para que eu sequer desconfiasse. 
S me dava conta disso quando conseguia, procurando muito, encontrar seu boletim. As brigas aconteciam na certa: uma gritaria dos dois lados. Tomei um susto enorme 
quando percebi que Cazuza havia herdado meu temperamento explosivo e um pouco mais. 
      Anos depois, j famoso, costumava dizer nas entrevistas que havia sido expulso do Santo lncio. No  verdade. O fato  que ele ficou em recuperao em quatro 
matrias no quarto ano ginasial, caso de repetncia. Como no Santo lncio no era permitido repetir de ano, foi preciso mudar de escola. A partir da, nunca mais 
Cazuza se deu bem nos estudos. Trocava de colgio a cada ano. Freqentou o Anglo-Americano, o Peixoto, o Brasileiro de Almeida, o Rio de Janeiro. Fazia a matrcula, 
comeava o curso e se desinteressava em seguida. Sumia da escola, perdia o ano por faltas. Quando tinha 20 anos o convenci a fazer um supletivo, o Curso Pinheiro 
Guimares, para, pelo menos, conseguir o diploma do segundo grau, o cientfico. Pedro Bial tambm trocou o Santo Incio pelo Colgio Rio de Janeiro. E, nessa fase, 
reencontrou Cazuza, como relembra: 
      "Nos divertimos muito nessa fase, fizemos muita farra. Vrias vezes, no fim de noite, aparecia um violozinho e ficvamos cantando blues at as cinco da manh. 
Lembro que, numa dessas noites, cantando no meio da rua, nos atiravam ovos na cabea. Eram os moradores dos apartamentos, indignados com o barulho. Desde garotos, 
do tempo do Santo Incio, quando lamos Fernando Pessoa, Cazuza sempre compactuou com seu conceito: 'Prefiro me arder inteiro na vida, viver. Prefiro viver 30 anos
a morrer velho!', essa idia de viver at as ltimas conseqncias. Cazuza foi muito coerente com a vida dele".
      Meu desespero com Cazuza nessa fase era incontrolvel. Em 1970, deixamos o apartamento onde ele nasceu, que, curiosamente, pertence hoje  artista plstica 
Magda Collares, mulher do jornalista e apresentador Fausto Silva. Nos mudamos para a Rua Rita Rudolf, esquina com Ataulfo de Paiva, em cima da Drogaria Piau, exatamente 
a uma quadra do que viria a ser conhecido como Baixo Leblon e que inclua os restaurantes Real Astria, a Pizzaria Guanabara e o Bar Diagonal. Para Cazuza, o ponto 
no podia ser mais estratgico. Saa todas as noites sem me dizer aonde ia e sem hora para voltar. Na primeira noite em que acordei e me deparei com sua cama arrumada, 
entrei em parafuso. Onde estava Cazuza? Ele no dormiu em casa! Fiquei na janela do apartamento chorando. A madrugada virou companheira de meu filho. Quando ia me 
deitar, os olhos no pregavam at que pudesse ouvir o barulho da porta se abrindo. Joo me recriminava: 
      - Voc no vai ficar a. V se deitar. Isso  um absurdo!!! 
      E, se calhasse de Cazuza me pegar acordada, a o fuzu era certo. As brigas acordavam os vizinhos. M-criao em alto nvel. Eu no sabia ainda, ou no queria 
mesmo admitir que Cazuza j havia cado na vida, por sua prpria conta e risco. E sequer imaginava, tambm, que os sobressaltos em meu corao de me atingiriam 
ainda uma intensidade alucinante com o passar dos anos. Parecia que Cazuza queria recuperar o tempo perdido em que foi um bom menino, o preferido da(s) vov(s). 
O temperamento endiabrado e rebelde, no entanto, convivia com o personagem engraado e essa era a sua maior contradio. Cazuza no tinha papas na lngua e no perdia 
uma piada. Seu raciocnio, nesses momentos, se exercia em busca de um nico objetivo: gargalhar. Quando queria muito alguma coisa, tornava-se to encantador e bem-humorado 
que era impossvel resistir aos seus apelos. Acontecia isso, por exemplo, quando o assunto era automvel. Aprendeu a dirigir cedo, aos 12 anos, e eu deixava que 
ele pegasse o meu carro, mesmo antes de tirar a carteira de motorista. Quanta irresponsabilidade! Eu imaginava que seria melhor que ele fosse ao colgio de carro 
do que correr o risco de ser assaltado no nibus. Fora isso, eu no resistia a seu jogo de seduo. Perdi as contas de quantas batidas meus carros sofreram nas mos 
de Cazuza. Ele batia de frente, de lado, de trs. De fato, eu emprestava os carros a meu filho, escondida de Joo, pois ele sempre foi radicalmente contra. Com Joo, 
a histria de Cazuza com carros era inteiramente outra. Cazuza gostava mesmo de automveis. Ele gostava de mostrar ao pai seus conhecimentos sobre a indstria automobilstica. 
E, praticamente, comandou toda a frota de carros que Joo compraria por um longo perodo, como ele mesmo conta: 
      "Quando me casei, muito jovem, no tinha dinheiro e meu primeiro carro foi um Dauphine, muito fraquinho. E Cazuza sempre me dizia: poxa, papai, esse carro 
 muito ruim, voc tem que comprar um Gordini. Mais adiante, com a situao melhor, quando comprei o tal Gordini, meu filho me sai com essa: esse carro no est 
com nada, no! Voc deve comprar  um Fusca, da Volkswagen. A histria se repetiu em seguida com a Variant, o Opala e outros. Nesse tempo, meu irmo mais velho Baby, 
que j era um homem bem-sucedido, tinha uma importadora de carros. E, sabendo do interesse de Cazuza por automveis, cada vez que chegava um novo, ele o levava em 
casa para o sobrinho conhecer. Isso para mim foi um inferno, pois Cazuza vivia dizendo que nosso carro era pssimo e que eu deveria ter um igual ao do tio Baby. 
Alis, quando algum da famlia comprava um carro, era um ritual lev-lo para Cazuza conhecer. At que um amigo, o Jos Luiz Ferraz, apareceu com uma Mercedes querendo 
me vender. Disse a ele que estava maluco, que eu no tinha dinheiro para ter uma Mercedes. Mas ele insistiu e dividiu o preo em 30 prestaes. Nesse dia, acreditei 
que meu filho enfim fosse aprovar a minha compra e lhe disse: agora voc no vai ter mais do que reclamar, porque papai comprou uma Mercedes! No  que duas ou trs 
semanas depois acordo num domingo de manh e encontro Cazuza na sala lendo o Jornal do Brasil. Ele levantou a cabea, me olhou e disse: vou te contar um negcio, 
Mercedes no est com nada. Bom mesmo  o Bentley, um carro ingls. No agentei: olha aqui, voc vai tomar banho. Se voc voltar a me falar de carro, te cubro de 
porrada. No  possvel, Cazuza!" 
      
      Foi com essa Mercedes, alis, que Cazuza aprontou mais uma das suas. Joo estava fora, viajando. Minha me e eu conversvamos na janela do apartamento do Leblon, 
quando vimos a Mercedes branca saindo da garagem. Ningum havia percebido que Cazuza e uma amiga j haviam sado do quarto dele, onde passaram algum tempo, batendo 
papo e fumando maconha. No preguei o olho at as quatro da manh. Eles no haviam apenas desfilado com o carro pela zona sul como tambm se esbaldado na churrascaria 
Carreta - Cazuza s se referia a esse restaurante como Careta - sem um tosto no bolso. No final, ele assinou a conta para o Joo pagar depois. Cobrir os buracos 
das contas que meu filho espalhava pelo Rio de Janeiro transformou-se em hbito para Joo e eu. Quando voltou do passeio com a Mercedes, o repreendi em vo, pois 
ele virou a situao contra mim: 
      - Voc  mesquinha e dedo-duro! 
      
      Nessa fase, Cazuza andava com uma turma da pesada, um pessoal do Leblon. E viajou, com essa turma, para um fim de semana em Itaipava com o meu consentimento. 
No domingo, as horas foram passando e nada de Cazuza voltar. Nenhuma notcia. Telefonei para a me de um garoto que tinha viajado junto e ela me disse que no havia 
nenhum motivo para preocupao. Liguei duas ou trs vezes ainda para ela naquela madrugada e a resposta era sempre a mesma: no esquente a cabea! Passei a noite 
em claro e, na manh seguinte, Cazuza entrou em casa com a cabea toda enfaixada, remendado com vrios pontos no rosto. A aliana de casamento de Joo, com a qual 
gostava de desfilar, estava toda arranhada, faltando um pedao. Foi um acidente grave. Na volta de Itaipava, o carro em que viajavam se desgovernou, indo parar  
beira de uma ribanceira. Lembro que ele viajou com Caco Perdigo e Paulinho Soledade Filho, que, em conseqncia do acidente, passou um certo tempo desmemoriado. 
Fiquei louca da vida com aquela me, que me escondeu um assunto dessa gravidade, a pedido de meu filho. Talvez ela tambm no tenha resistido ao jogo de seduo 
de Cazuza. Mas pensei: onde est a solidariedade materna? E que responsabilidade ela chamou para si, me ocultando um acidente daquelas propores? 
      No s nas atitudes a mudana praticamente radical de meu filho era notada. Para quem cresceu se vestindo com elegncia, a opo pelo estilo hippie me parecia 
inacreditvel. O uniforme constava de cala jeans desbotada, rasgada e o mais suja possvel. Camiseta Hering surrada, sandlias japonesas deixando de fora os ps 
sujos e cabelos compridos. Naquela poca, ele os usava crespos, que, ao crescer, assumiam o aspecto de uma touca horrenda. Muitas, quantas mais melhor, fitinhas 
do Senhor do Bonfim amarradas no pulso compunham a figura de Cazuza nos anos 70. 
      O pior ainda estava por vir. Certo dia, em 1973, quando Cazuza estava com 15 anos, Cedlia falou de suas desconfianas. Algo devia estar acontecendo, porque 
ela sentia um cheiro de colcho queimado no quarto de Cazuza e achava que aquilo no podia ser boa coisa. Ento, aproveitamos uma manh em que ele estava no colgio 
e fomos ns duas investigar. Encontramos um embrulho, alguma coisa envolta em uma folha de jornal amassada. Abri, cheirei e no tive dvidas: era maconha! Na verdade, 
nunca tinha visto maconha em toda a minha vida, mas tinha aquele cheiro, aquele aspecto. S podia ser maconha. Tomada pela cegueira momentnea que vem do dio da 
impotncia e da decepo, corri para o banheiro e joguei o embrulho inteirinho no vaso sanitrio, apertando com fora e prazer a descarga at que a gua fizesse 
tudo desaparecer da minha vista. 
      Quando Cazuza voltou para casa, eu no disse nada. Fiquei quieta com minhas costuras, s esperando. Ele entrou no quarto e saiu de l aos berros. 
      - Cad o embrulho que estava no meu quarto? Voc pegou, me ? Cedlia...- gritava. 
      Ele ficou realmente furioso. E berrava, destemperado: 
      - Aquilo no era s meu, era de um monte de amigos tambm. Voc jogou na privada? Voc tem idia do que fez? Era maconha de primeira qualidade. Voc no d 
valor s coisas. Jogou dinheiro fora!!!! 
      No me intimidei nem um pouco. Tambm soltei a voz com autoridade: 
      - Vou jogar fora todas as vezes em que encontrar isso aqui em casa. 
      E desandei a chorar pelos cantos. "Meu filho est fumando maconha.  um viciado", dramatizava ao extremo. Liguei para minha me e ela tambm chorou do outro 
lado da linha. Armei uma confuso de enormes propores. Mas Cazuza no deu a menor importncia. Ento percebi que era preciso tomar uma providncia sria: contar 
tudo a seu pai. 
      Foram inmeras as vezes em que escondi de meu marido as transgresses cada vez mais freqentes de Cazuza. Nem quando ele assaltava o guarda-roupa de Joo, 
nem mesmo quando sumiu o valioso relgio Vacheron Constantin. H algum tempo, eu no via com bons olhos os amigos de meu filho. Ele levava todos para casa e ai de 
mim se dissesse qualquer coisa, que enxergasse algum defeito em qualquer um deles. Depois dessas reunies, invariavelmente, eu sentia a falta de algum objeto da 
casa. No contava nada a Joo e tambm no deixava Cazuza perceber essa atitude. Realmente, eu no sabia por qual dos dois meu corao balanava mais. Desde pequeno, 
meu filho gostava de perguntar, repetidamente: 
      - Mame, se a gente estivesse num barco afundando, qual dos dois voc salvaria: eu ou o papai? 
      
      Nunca pude lhe responder. Terminava a conversa dizendo que eu preferia morrer junto s para no ter que escolher. Nesse jogo de esconde-esconde, por certo 
no agi corretamente. Meu desejo sincero era apenas evitar que a relao entre pai e filho se complicasse. Mas a questo da maconha no era possvel deixar para 
l. A meus olhos, aquilo era grave demais para que eu tentasse resolver o problema sozinha. Com toda coragem, espanto e preocupao, me armei para contar tudo a 
Joo. E ele, finalmente, conversou com o filho: o alertou para o perigo de uma droga levar a outra, que fumar no era bom para ele, tudo o que um pai preocupado 
poderia dizer numa ocasio como aquela. Mas no adiantou. Cazuza continuou aprontando mais e mais. 
      Nesse tempo de turbulncia, perdi minha me. Morreu de infarto aos 67 anos, de repente. Ligou avisando que no passava bem e fomos para Vassouras. Cazuza tinha 
17 anos e dirigiu meu carro, uma Braslia. Levamos tambm minhas irms e, no caminho, conversamos sobre os planos para trazer mame ao Rio, para se tratar na cidade
e ficar mais perto da gente. Quando nos aproximamos da ladeira onde ela vivia no bairro vassourense do Madruga, o movimento era estranho. Ao avistarmos a casa, percebi
que algo srio havia acontecido, pois mais de cem pessoas se espalhavam pela varanda e jardim. Foi quando tivemos certeza de que ela estava morta. Cazuza foi o primeiro 
a descer do carro. Minha irm mais nova sentou na grama e ali ficou, sem coragem para entrar na casa. Clarinha, a mais velha, entrou e enfrentou a dor de ver nossa 
me morta. Eu no consegui sequer descer do carro. Devo ter permanecido ali por umas trs horas, at que minha sogra veio falar comigo e disse que precisavam de 
mim l dentro, para procurar os papis, as certides que ningum encontrava. Sempre fui eu a encarregada de cuidar desses assuntos. Me lembro de ter dito  minha 
sogra: 
      - Morreu a nica pessoa que gostava de mim do jeito que eu sou, sem cobranas ou censuras. 
      Ela retrucou: 
      - Mas o que  isso, minha filha, eu posso ficar no lugar de sua me. 
      - Dona Maria, a senhora tem trs filhas. A senhora acha que eu acredito que vai gostar de mim tanto como minha me gostava? De jeito nenhum. 
      - Pode no ser igual, mas prometo que vou caprichar. Voc pode at falar palavro que eu aceito, no vou nem ligar! 
      Considero esse gesto uma grande prova de amor de minha sogra. 
      Para Cazuza, a morte de Vov Lice representou uma perda irreparvel. Logo nos primeiros tempos, ele acordava  noite e corria para minha cama. Chorvamos os 
dois juntos. Ele dizia: 
      - Mame, como  que a gente vai viver sem a Vov Lice, sem aquele brao gordinho dela?  uma injustia. 
      Toda a tristeza de Cazuza com a perda da av querida se manifestou atravs de um lindo poema, o primeiro dele que li, a primeira vez que percebi que a sensibilidade 
de meu filho tinha encontrado algum canal para se manifestar. Os versos de Cazuza esto gravados no tmulo de minha me em Vassouras, fio Cemitrio da Conceio: 
      
      Voc foi embora 
      deixou vazia a casa 
      o riso num lbum de fotografias 
      e aquela imagem de Santa Rita... 
      e eu fiquei l fora 
      brincando de cidade deserta 
      chupando manga 
      pedindo um beijo... 
      e agora  a velha histria 
      voc virou saudade 
      daqueles tempos de carochinha 
      daquela vida que eu inventei 
      daquela reza que decorei... 
      agora eu vou vivendo 
      no mundo sem sonho ou lenda 
      e s de noite, quando me lembro 
      eu sinto um troo no meu peito 
      e durmo... 
      Seu neto 
      
      
     
     Captulo 7
     O incontrolvel
      
      "Eu vou pra Bahia/ Talvez volte qualquer dia/...
      Como pode algum ser to demente, porra-louca,
      Inconseqente e ainda amar..."
      Bilhetinho azul
      
      
      Sensvel e rebelde. Carinhoso e desafiador uma personalidade sedutora e controvertida se delineou no adolescente Cazuza. O apogeu dessa primeira fase de grandes 
problemas aconteceu certa noite, quando ele entrou em casa e nos comunicou que iria viajar para a Bahia. Sempre to controlado, Joo perdeu as estribeiras e reagiu 
com fria: 
      - Enquanto voc viver nesta casa e com o meu dinheiro, vai ter que obedecer s regras. No pode chegar aqui e simplesmente comunicar as coisas. Voc tem que 
me pedir autorizao. 
      
      Nem mesmo o espanto de ter provocado um ataque de nervos no pai impediu Cazuza de responder, imediatamente:
      -Pois eu vou para a Bahia, quer voc queira ou no! 
      Joo voou para cima dele, aos tapas. Cazuza revidou, ele tinha topete. E eu, no meio, na mira de ambos os lados, pois eles pareciam cegos de tanta raiva. A 
sesso de pancadaria terminou dentro do boxe, debaixo do chuveiro comigo no meio. Apanhei dos dois. 
      Quando se acalmaram, Cazuza foi para a porta de casa e j saa, quando Joo decretou: 
      - Se voc for, no volta. 
      Para minha total desgraa, meu filho pronunciou ento as palavras que Jamais pensei ouvir: 
      - Pois ento, no volto! 
      
      Saiu com a roupa do corpo. Corri atrs dele com um dinheiro escondido. Sabia que ele era orgulhoso demais para voltar atrs naquele momento. Dois dias depois, 
sem qualquer notcia, entrei em pnico. Telefonei para Ricardo Quintana, seu amigo do Santo Incio, e pedi que descobrisse o paradeiro de meu filho. Ricardo contou 
que Cazuza estava vivendo na casa de um amigo em comum, um pintor que morava em Copacabana. Uma semana depois da briga, Cazuza telefonou e apareceu em casa para 
pegar roupas, mas nada do que eu lhe disse foi capaz de aplacar a revolta e modificar sua deciso: 
      - No adianta tentar me convencer. Eu no volto pra casa! 
      
      Com o corao partido, dei mais dinheiro a ele, antes que sasse. O impasse s se resolveria com a interveno de nosso cunhado Jos Mller (falecido h mais 
de dez anos), casado com Therese, irm de Joo. Padrinho de meu filho, ele o procurou para uma conversa. Jamais soubemos como e com que argumentos Jos Mller convenceu 
Cazuza a voltar para casa, mas o fato  que meu filho concordou e fez a vontade desse tio to querido, uma das pessoas mais sensatas que conheci e um dos poucos 
que compreenderam e respeitaram a personalidade de Cazuza na famlia. 
      Essa volta ao lar tinha, segundo ele, uma condio temporria pois, nesse tempo, ele j pensava em arranjar emprego e ganhar a independncia to desejada. 
Sete anos depois da morte de Cazuza, Joo relembrou esses tempos de grande conflito entre os dois: 
      "Minha gerao sempre foi etlica, no mximo experimentvamos lana-perfume no carnaval e, portanto, era difcil para mim compreender como meu filho agia sob 
a ao das drogas. Eu no sabia, mas nessa poca ele j deveria estar cheirando cocana tambm. Talvez minha atitude de represso tenha sido um erro. Eu forcei o 
enfrentamento, disse que ele tinha de acabar com aquilo e pronto. Talvez devesse ter encaminhado Cazuza para um tratamento, ter dialogado mais com ele sobre o assunto. 
Tentei lhe explicar vrias vezes que seu comportamento transgressor no era novidade para mim. Como homem de disco convivi com muitas personalidades transgressoras 
e complicadas. Tentei lhe explicar que poderamos conviver com aquilo. Mas, ao mesmo tempo, tinha o dever de pai de alertar sobre o perigo que ele corria. O problema 
foi que, at chegar a essa fase, demorou muito". 
      
      Aparentemente, Cazuza no se abalou com o trauma da briga com o pai e a sada de casa. Viajou  Bahia apesar disso. Em 1976, ano em que cheguei aos 40 e Cazuza 
aos 18, compramos nosso primeiro apartamento prprio, uma cobertura na ladeira Tabatingera, na Lagoa. Ali vivemos durante seis anos; na verdade, a fase mais conturbada 
da juventude de meu filho e onde descobri mais uma faceta desconhecida de Cazuza. Daquela vez, mais do que o choque em saber que usava drogas, fui obrigada a me 
revirar inteira para tentar entend-lo e aceit-lo. Convivi com um punhal fincado no peito e nada, nem ningum, conseguia arranc-lo para aliviar a tenso. H algum 
tempo vinha notando um comportamento mais estranho ainda em Cazuza. Andava com uns amigos bastante esquisitos. E eu, cada vez mais desconfiada. O hbito invasivo 
de remexer em suas coisas me levou ento a encontrar uma carta de meu filho escrita para um amigo. Uma carta excessivamente carinhosa. Todas as vezes em que comentei 
o assunto com Joo, a resposta era a mesma: 
      - Voc est louca! S pensa besteira! 
      
      O pensamento me dominava dia e noite e o pavor rondava meus minutos. Corao de me pressente, sempre sabe a verdade, mesmo que batesse esperanoso como o 
meu, rezando para que tudo no passasse de um mal-entendido, um temor sem fundamento. J havia sido difcil de engolir a questo das drogas. Na verdade, jamais engoli. 
Talvez eu seja uma das pessoas mais caretas que eu mesma conhea, mesmo tendo convivido com pessoas inacreditveis e maravilhosas que nunca esconderam sua opo 
sexual e o uso de drogas. Ento, quando li a tal da carta amorosa de meu filho endereada a um homem no me contive. O enfrentei com a pergunta curta e grossa, sem 
rodeios, diretamente ao assunto: 
      - Meu filho, voc  homossexual? 
      
      A resposta veio clara e equilibrada, mas no tranqilizadora: 
      - Olha, mame, eu no sou nem uma coisa, nem outra, porque nada  definitivo na vida. Voc pode dizer que eu seja bissexual, porque no fiz minha escolha ainda. 
Um dia posso gostar de um homem como, no outro, gostar de uma mulher. Ento, no fique preocupada com isso. 
      
      Como se isso fosse possvel!!! Minha resposta denunciou a preocupao de me e o preconceito enraizado em mim naquela poca: 
      - Meu filho, vou te dizer uma coisa, eu no tenho nada a ver com sua vida particular. A vida  sua e no tenho nada a ver com isso. Agora, eu quero lhe proteger, 
porque sei que toda pessoa que opta por uma minoria sofre. E eu no gostaria que voc sofresse. Eu sei que voc vai sofrer! 
      Nunca troquei experincias e informaes com outras mes na mesma situao e, portanto, no sei como a maioria delas reage a essa constatao, mas o fato  
que, no meu caso, a revelao foi devastadora. Pensava no porqu, na razo daquilo tudo, como se tudo que acontece nesse mundo tivesse uma razo bvia e absoluta. 
No podia ver os acontecimentos com a clareza de hoje, to absurdamente envolvida nas artimanhas de meu filho. Eu temia pela reao de Joo, mas como Cazuza nunca 
comentou comigo seus romances - tinha realmente um certo pudor com seus assuntos -, eu imaginava que ele se abrisse mais com o pai. Mas no era o que acontecia, 
como conta Joo: 
      "Meu filho no se abria comigo nos assuntos de sexo, era bastante reservado. Fiquei absolutamente surpreso com a revelao, mas no revoltado nem desiludido. 
Sempre acreditei que a opo sexual de cada um no diz respeito a ningum. Ento, em nenhum momento deixei de ter carinho e respeito - principalmente respeito - 
por ele. No tive sentimentos de revolta, tristeza ou perplexidade. O que me incomodou foi a surpresa, da mesma forma como me surpreendi com a questo das drogas. 
Voc nunca imagina que um filho seu esteja tomando LSD. Em geral, o pai tem aquela postura de macho, mas eu sinceramente no me incomodei. Para a Lucinha foi mais 
difcil, ela era bem mais severa nesse assunto. Eu e meu filho nos entendamos quase por gestos, havia certos cdigos. Nos respeitvamos. Uma vez, ele quis tirar 
aprova: 
      - Papai, voc cheira cocana, no ? 
      - Eu j cheirei uma, duas vezes e tambm fumei maconha, para experimentar. No so as minhas drogas. Sou da gerao do lcool. 
      - Com certeza voc deve cheirar cocana, porque todo executivo faz isso. 
      - Mas de onde voc tirou essa bobagem, Cazuza? 
      - Estou certo de que todo executivo tem que cheirar cocana. Seno ele no consegue viver, no sobrevive, no vence. 
      - Meu filho, meu negcio  usque e cigarro, outras drogas." 
      
      Embora Cazuza no comentasse suas relaes amorosas em casa, guardamos registro de alguns de seus romances. Acabei descobrindo por vias tortas a primeira paixo 
de meu filho por uma garota do bairro. Ele tinha 17 anos e ela tambm. Certo dia, ele pediu dinheiro para pagar um raio X que o mdico havia indicado e, tempos depois,
recebo um telefonema do consultrio cobrando o mesmo raio X. Nunca gostei de mentiras e apertei Cazuza contra a parede at ele confessar: o dinheiro foi usado para 
um aborto na namorada. No momento fiquei bastante aliviada, pois os dois eram muito jovens. Mas, muitos anos depois, quando reencontrei essa moa j adulta, casada 
e com dois filhos, lamentei amargamente que essa criana no tivesse nascido. 
      Na verdade, assim como seu pai, Cazuza adorava usque. Testemunhei porres homricos de meu filho, inclusive com Joo. Quando bebia com o pai, ele ficava bastante 
carinhoso, abraando e beijando Joo, como uma criana. Mas a mistura drogas e lcool era fatal para Cazuza. Nesses momentos, ele se transformava na encarnao perfeita 
do exagerado. Escndalos nos bares, dirigir bbado e ser barrado pela polcia. Percorremos, eu e Joo, muitas delegacias do Rio de Janeiro para livrar nosso filho 
da cadeia, na base da propina bem-intencionada, embora corrupta, dos pais. Ora ele era pego com maconha no carro, ora com comprimidos de Mandrix. Joo ficava furioso 
e quando o carro era meu tinha que resolver sozinha a questo. Havia uma agravante nessas prises todas, que era o fato de ele no ter carteira de motorista. Para 
tirar seus documentos, montei uma verdadeira estratgia. Eu saa cedo e ficava na fila at que restassem trs pessoas na minha frente. Ento, ligava para Cazuza 
e dizia: pode vir! No dia em que marcamos o exame de motorista, ele chegou em casa com o sol nascendo, embriagado. Foi direto para um chuveiro gelado e samos para 
o teste. 
      O episdio mais marcante dessa fase aconteceu uma noite em que Joo e eu estvamos saindo para uma festa, na companhia de amigos. s onze horas tocou o telefone. 
Era Cazuza, de uma delegacia. Havia batido o carro e pedia socorro. Samos de casa vestidos para a festa, abordo da Mercedes de Joo. Quando entramos na delegacia, 
Cazuza estava sentado num canto, pois j haviam dividido os garotos em duas filas, imagino que pela aparncia - a dos ricos e a dos pobres. Joo negociou com os 
policiais e, na hora em que chamamos Cazuza para ir embora, ele disse: 
      - S saio daqui se todos sarem tambm. 
      A histria, como ela se passou, na memria de Joo: 
      "Quando perguntei ao policial o que havia acontecido, ele relatou: os meninos bateram em dois carros e ainda achamos maconha com eles. Disse a ele que era 
preciso fazer alguma coisa pois, no dia seguinte, Cazuza deveria se apresentar ao Exrcito. O policial falou que ento eu decidisse quanto poderia dar. Acertei. 
Mas quando Cazuza decretou que s iria sair quando todos fossem soltos, achei a negociao muito justa, fiz at de bom grado. No fundo, eu admirava esse lado meio 
Robin Hood de meu filho. O que valeu para mim naquele episdio foi a inteno dele, seu esprito solidrio". 
      Ao sair da delegacia ao lado dos outros, Cazuza era s alegria. Comemoravam como meninos travessos aquela pequena transgresso vitoriosa contra o "sistema" 
gritando e pulando. Cazuza, posando de heri, foi saudado por toda a turma. Pouco depois, pediu ao pai que lhe desse de presente uma viagem de trs meses a Londres: 
queria estudar arte dramtica. Em janeiro de 1976, aos 18 anos, ele embarcou junto com seu primo Paulinho Mller, hoje cirurgio plstico e dois anos mais velho 
do que ele, e com Mrcia Senra, uma amiga comum. No dia do embarque, Cazuza tomou um porre, com a desculpa de que morria de medo de andar de avio. E foi assim a 
viagem inteira. Na chegada, Paulinho e Mrcia tiveram bastante trabalho para acord-lo e tir-lo de dentro do avio. Mais do que me de Cazuza nessa fase, era tambm 
sua bab. Completamente desorganizado, ele perdia tudo. Arrumei a mala e uma bolsa com dinheiro e documentos, no deixando jamais de alert-lo para ter cuidado, 
para que no largasse a bolsa em algum lugar, principalmente por causa do passaporte. Dito e feito. Sua primeira providncia no aeroporto de Londres foi esquecer 
a bolsa num canto, antes de rumar para o hotel. Quando se deu conta, voltou ao aeroporto com os dois amigos e, por sorte, a bolsa ainda estava l, no mesmo lugar 
em que havia deixado. Foi realmente uma chegada triunfal. Cazuza fez de tudo em Londres, menos o curso de arte dramtica. Visitou museus, assistiu a todos os filmes, 
peas e shows em cartaz e freqentou muitos pubs, evidentemente. Tomava um porre a cada dia. 
      Na volta da viagem, sentimos a necessidade de tomar uma atitude sria com relao ao futuro de Cazuza. Quando seu pai lhe prometeu um carro caso entrasse na 
faculdade, ele prestou vestibular no Centro de Comunicaes, em Jacarepagu, e foi aprovado. Entrou na faculdade e trancou a matrcula em seguida. Joo lhe perguntou 
o porqu daquela atitude e Cazuza saiu com essa: 
      - Voc disse que me daria um carro se eu entrasse na faculdade, no falou nada sobre cursar a faculdade. 
      
      Dois anos depois, ele fez outro vestibular, tambm para Comunicaes, na Faculdade Hlio Alonso. Novamente conseguiu se classificar, mas seu esforo, que alis 
era mnimo, chegava s at a. Fugiu da escola. Ento, a sada foi o trabalho. Em 1978, Joo lhe arranjou uma vaga na Som Livre, no departamento de imprensa, para 
trabalhar com Scarlet Moon. Sua misso era escrever releases de artistas. Ele se saiu muito bem naquela funo. Tinha uma excelente redao e boas idias. Como pagamento 
pelos servios, Joo inventou um salrio-mesada, que tirava do prprio bolso. Cazuza jamais soube disso. 
      Como um refgio de prazer em meio s turbulncias, nessa fase consegui desviar minha ateno de Cazuza para satisfazer um velho desejo e me entreguei a um 
projeto de satisfao pessoal. Sempre gostei de cantar e, nas festas, j tinha uma platia cativa, que sempre me pedia para interpretar alguma cano. Jamais, no 
entanto, tinha pensado na possibilidade de seguir uma carreira, Joo jamais permitiria, sendo ele um profissional da rea fonogrfica. Mas aconteceu numa dessas 
festas em casa em que estava presente o argentino Adolpho Pino, na poca presidente da RCA Victor. Ele me ouviu cantar e me perguntou: 
      - Voc canta muito bem, nunca pensou em ser cantora? 
      E, ao mesmo tempo, criticava Joo. Dizia que era um absurdo ele ter uma cantora dentro de casa e no enxergar. Cazuza incentivou, com seus exageros: 
      - Minha me  a maior cantora do Brasil! 
      
      E eu o advertia: - Mas voc no disse que a maior cantora do Brasil  a Dalva de Oliveira? 
      - Voc  a maior cantora viva da MPB, no estava falando das mortas. 
      
      Adolpho Pino, naquela noite, disse que seu diretor artstico iria me procurar. De fato, na semana seguinte, Durval Ferreira telefonou e acabei assinando um 
contrato para a gravao de dois discos na RCA. Sinto enorme pena de Durval Ferreira e espero que ele um dia me perdoe as loucuras da poca de gravao. Pouco familiarizada 
com o processo, queria gravar de primeira. E, se acaso ele me pedisse para regravar alguma voz, entrava em desespero e dizia: 
      - Eu no sou cantora mesmo, no dou para isso. Era muito melhor quando eu cantava s na roda de amigos. 
      
      Cazuza foi o meu maior entusiasta. Ele acreditava que o disco iria estourar at no Nordeste. O primeiro disco foi um compacto simpIes: de um lado, Neste Mesmo 
Lugar, de Klecius Caldas e Armando Cavalcante, e, do outro, Como Se Fosse, de Ftima Nogueira e Solange Beke. Essa cano fez parte da trilha sonora da novela A 
Sucessora, da Rede Globo. Em 1979 saiu o primeiro LP, Tal Qual Eu Sou. Walter Clark assinava a contracapa. Do Mesmo Vero, o segundo disco, foi lanado no final 
de 1981. 
      Fui a primeira cantora a gravar uma msica de Joanna, que na poca era conhecida como Ftima Nogueira, seu nome de batismo. Uma das poucas canes que a escritora 
e novelista Maria Carmem Barbosa comps na vida (em parceria com Igncio Coqueiro), Bom Dia, Eu, foi gravada por mim. Tambm dividi uma faixa com Cauby Peixoto, 
grande dolo. De qualquer maneira, nunca fiz um show para divulgar esse disco e logo me convenci de que no teria a menor pacincia para trabalhar uma carreira de 
cantora. Joo dizia que isso era para gente bem jovem, disposta a cair na estrada e levar seu canto para todo o pas. No era o meu caso, mas mesmo assim jamais 
deixei de cantar para os ntimos. 
      Quando lancei o primeiro LP, Cazuza trabalhava na Som Livre e, orgulhoso com seu primeiro salrio, nos comunicou, mais uma vez, que ia sair de casa. Foi dividir 
um apartamento trreo, de fundos, no Jquei, com um casal de viciados em herona. Meu filho no tinha o menor pudor em me contar as histrias de seus amigos drogados, 
s quais eu reagia sempre apavorada. Comprava comida para ele, mandava dinheiro, tentava ajudar. Nesse apartamento, certa noite, Cazuza nos ofereceu um jantar. Era 
um quarto-e-sala dividido ao meio. A mesa foi armada com madeira e tijolos, a cama indescritvel, um catre, na verdade. Mas ele adorava aquele lugar e eu no conseguia
entender: o que ser que fiz para meu filho gostar de viver nessa pocilga? A noite foi agradvel. Cazuza preparou uma massa com presunto realmente deliciosa. Eu 
sequer desconfiava que meu filho sabia cozinhar. No meio da conversa, nos contou a novidade: 
      - Estou pensando em viajar para os Estados Unidos. Quero estudar fotografia em So Francisco, porque sei que l existem cursos timos. Pai, voc me d a passagem 
e me financia? 
      
      Em todas as tentativas de Cazuza para encontrar um objetivo de vida, meu marido sempre esteve a seu lado. Joo disse que no havia nenhum problema, que faria 
isso por ele, sim. Esse pedido tambm significava abandonar o emprego na Som Livre. Na segunda vez em que trabalhou l, tambm no departamento de imprensa, Cazuza 
foi contemporneo do jornalista e produtor Ezequiel Neves - que teria uma importncia fundamental em sua vida - e de Lulu Santos (Lus Maurcio), antes de comear 
sua carreira de cantor. Ao decidir abandonar o emprego, conversou seriamente com Joo, que relembra: 
      "Cazuza, mais uma vez, queria desistir do trabalho na Som Livre e, quando me comunicou, disse: Olha, pai, eu no estou infeliz aqui, no, mas no estou confortvel. 
Quando entro na empresa de manh e digo bom dia, no sei se me respondem por felicidade, porque gostam de mim ou se  porque sou o filho do presidente. Isso est 
embaralhando muito a minha cabea. Alm do mais, acho o seguinte: voc, em matria de disco, j fez tudo o que uma pessoa pode fazer. J atingiu todos os nveis. 
Eu nunca serei como voc. Preciso encontrar o meu caminho". 
      Morrendo de medo de que Cazuza sasse do pas e no voltasse nunca mais, perguntei quanto tempo ele ficaria fora. 
      - No mnimo cinco anos e, no mximo, para o resto da vida!!! 
      Diante da resposta, pensei no pior: meu fIlho no volta nunca mais. 
      Tempos depois lemos em uma de suas entrevistas como ele realmente se sentiu ao embarcar, em abril de 1979, para So Francisco, Califrnia: 
      "Quando trabalhava na Som Livre e o Guto Graa Mello disse que queria me dar um novo cargo, no acreditei. Afinal, filho de diretor tem que subir na vida, 
disse ele. Foi meu primeiro parafuso. Me vi fechado num escritrio para o resto da vida, feito meu pai. Disse que preferia at ser um mendigo de rua, mas nunca um 
executivo. Pedi uma passagem para os Estados Unidos, uma mesada e me mandei. Seno, me jogaria pela janela". 
      
      
     Captulo 8
     Paixo e aventura
      
      "At nas coisas mais banais/
      Pra mim  tudo ou nunca mais..."
      Exagerado
      
      No incio de abril de 1979, com um visto de turista, Cazuza embarcou para So Francisco, Califrnia, j matriculado no curso de fotografia e artes plsticas 
da Universidade de Berkeley, em Oakland, pequena cidade a poucos quilmetros do centro de So Francisco. Ao chegar, hospedou-se num hotel, mas no agentou a solido 
e, pouco depois, foi morar numa casa de famlia onde, pelo trabalho de cuidar do cachorro dos donos, ganhava 10O dlares por ms, devidamente descontados do aluguel. 
Tambm ligava todos os dias para nossa casa no Rio. Depois de fechado o comrcio, ia para um orelho e fazia ligaes dando um nmero de um estabelecimento qualquer. 
Ele pensava que ningum desconfiaria disso, mas, tempos depois, Joo recebeu um comunicado da Telerj avisando que um tal de Agenor estava fazendo ligaes irregulares 
para o Brasil e ele foi obrigado a pagar uma respeitvel conta. Joo no gostava nada desse hbito de nosso filho, mas Cazuza no dava bola. Se entusiasmava feito 
um moleque ao cometer qualquer transgresso. Para que Joo no percebesse, passou a ligar de madrugada, quando podamos conversar longamente. 
      Muito curiosa a respeito da vida que meu filho estava levando sozinho num pas estrangeiro, trs meses depois de sua partida resolvi lhe fazer uma visita. 
Foi nas frias de julho e viajei com uma amiga, Isabel Ferreira, sua filha Viviane e minha sobrinha, Adriana. Nossa primeira parada foi em Nova York, de onde liguei 
para Cazuza pedindo que alugasse um carro e nos pegasse no aeroporto. De fato, ele estava l, segurando um belo poodle pela coleira, mas terrivelmente abatido. Diante 
de nossa surpresa, ele nos contou o motivo de sua pssima aparncia. Para aproveitar o carro alugado na vspera, circulou pela cidade e foi parado pela polcia. 
Seu teste no bafmetro acusou uma quantidade de lcool alm do permitido para motoristas. Por isso recebeu ordem de priso e passou a noite na cadeia. Estava se 
sentindo quase um heri: 
      - O breakfast que eles serviram era maravilhoso. Vou querer provar de novo! 
      Perplexas, nos dirigimos para a casa onde ele estava morando e nosso primeiro dia em So Francisco acabou dedicado  faxina e arrumao. Seu quarto estava 
uma baguna digna de Cazuza. Mas o resultado compensou e nas duas semanas seguintes aproveitamos para ficar juntos e passear pela cidade, depois que ele voltava 
da faculdade na hora do almoo. Antes de marcarmos a passagem de volta, Cazuza quis nos mostrar a cidade de Sausalito, pois Guto Graa Mello havia lhe contado que 
o lugar era maravilhoso, como realmente . Nos perdemos no caminho de volta e ento tivemos que parar no acostamento para consultar melhor o mapa. De repente, surge 
um outro carro e, no sei como, ele bateu na nossa traseira. Com a violncia do golpe bati a cabea no pra-brisa. Um corte fundo abriu minha testa. Quando desci 
do carro, o motorista do outro veculo estava deitado no cho, nos deu at a impresso de estar morto. Cazuza ento ficou no local esperando a percia e fui levada 
para um hospital em San Rafael, a cidade mais prxima. Foram necessrios dezoito pontos para fechar o machucado que deixou, em conseqncia, um hematoma enorme. 
Quando Cazuza chegou ao hospital j havia liberado o carro. E o motorista? Sabendo que estava errado, simulou um ataque para nos assustar, mas logo o desmascararam. 
      Como tinha ainda dois dias para aproveitar a companhia de meu filho, continuei o passeio, saindo abraada com ele pelas ruas. Usava um leno vermelho amarrado 
na testa para disfarar o machucado. Cazuza dizia: 
      - Mame, as pessoas no esto entendendo nada. Devem pensar: o que esse garoto est fazendo com essa hippie velha? Que falta de gosto!!! 
      
      Antes de retomar ao Brasil, eu e minhas companheiras de viagem passamos ainda por Los Angeles. Depois que partimos, Cazuza se mudou para um apartamento, que 
passou a dividir com um chins. Comecei a lhe telefonar todos os dias e, numa dessas ligaes, no consegui encontrar Cazuza, por uma semana. Desesperada, pedi ajuda 
a Rute Almeida Prado, uma amiga que, por sua vez, pediu um favor a um amigo que era diretor do Banco da Califrnia. Assim, como um detetive, consegui descobrir o 
paradeiro de meu filho. Ele havia largado a bicicleta no prdio e sado para uma viagem a Los Angeles, com uma moa loirinha de olhos azuis. Viajou sem avisar. Quando 
voltou, ficou bravo comigo: 
      - Mame, voc  uma ridcula. Est querendo espionar a minha vida!!! 
      
      A loirinha com a qual viajou era velha conhecida, Rossana Camero, filha do Manolo Camero, amigo de Joo. Em 16 de agosto deste mesmo ano de 1979, Cazuza mandou 
uma carta para sua amiga Maria da Glria Pato Gonalves, que ele chamava de Goga, com notcias sobre sua vida em So Francisco. 
      "Gogoia, piss, suss e tudo mais jogo num verso... Estou escutando a Gal cantar Fruta Gogoia no meu gravador,  uma tarde ensolarada em San Francisco e eu 
t levando um som no violo e t feliz e resolvi te escrever, porque normalmente  difcil eu ter saco e idia de pegar um papel para escrever. As vezes eu t de 
bobeira e me vem uma pessoa na cabea, a eu escrevo como agora. Agora a Gal t cantando Vapor Barato e essa msica me traz recordaes dos velhos carnavais. 'Eu 
t cansado/mas no pra dizer/que eu t indo embora/ talvez eu volte/um dia eu volto...' 
      Eu pra variar t superdesbundado, curtindo as mesmas loucuras do Rio, muito bar, muita birita, muito haxixe e, embora ainda no tenha uma tchurma, tenho conhecido 
gente e sado muito. San Francisco  a cidade americana que tem o maior nmero de gays em proporo aos habitantes, s vezes perde at a graa, eu nunca vi tanto 
gay junto em toda a minha vida. Outro dia teve uma passeata com mais de 10O.OOO, a rua principal da cidade (equivalente  avenida Rio Branco no Rio) foi fechada 
e era impossvel achar algum que no fosse 'entendido', uma loucura. E voc, gatinha, j se apaixonou de novo? Espero que sim, eu conheo esse coraozinho to 
bem... A notcia da morte do Dario foi um baixo-astral to grande que eu prefiro nem falar muito. Eu t mais vivo que nunca, planejando ir para Nova York dia 1 
de outubro. Eu vou de nibus e pretendo ficar uns quinze dias viajando pelo deserto e sul dos Estados Unidos, New Orleans, Nashville e tal. Vai ser um barato. San 
Francisco  um barato, mas  tipo Salvador: s no vero. Em Nova York  que rola tudo. Eu vou ficando por aqui! 
      beijos, beijos, beijos Cazuza 
      P.S. - v se me manda uma fita, de preferncia com a tchurma toda junta. Meu endereo at 1 de outubro  3250 Laguna, 201. San Francisco. CA 94123. 
      P.S. II - meu telefone  {415} 922.9472 em caso de trambique. 
      Mande uns baseados por carta {no mximo trs, bem passadinhos a ferro}. A maconha aqui  uma merda." 
      
      Os planos da viagem a Nova York e pelo deserto e sul dos Estados Unidos no deram certo. Na verdade, Cazuza deveria ir ao Mxico renovar seu visto de turista, 
mas resolveu arrumar suas coisas e partir. Numa de nossas ligaes noturnas, ele j havia me contado como a solido o estava perturbando. 
      - Mame, voc no sabe o que  viver num pas estrangeiro e no dominar a lngua. Ainda por cima sem amigos.
      Eu argumentava com ele para que mudasse a sua deciso, que viesse embora, que ningum o estava obrigando a ficar. Mas ele achava que a experincia era muito
importante para a sua vida e, desta vez, no queria desistir. 
      Sete meses depois de ter mudado de vida, e de pas, porm, Cazuza voltou ao Brasil, sem concluir o curso de fotografia. Chegou sem nos avisar dia nem hora
e por isso, naquele final de semana de 17 de outubro de 1979, estvamos em nossa casa da Fazenda Inglesa, em Petrpolis. Do aeroporto, ligou para a casa e, no nos
encontrando, telefonou para minha irm Clarinha, porque no tinha dinheiro nem para pegar um txi. Seus ltimos 30O dlares haviam sido gastos com peas de porcelana
que ele pretendia vender para minhas amigas. As porcelanas e tambm seu equipamento fotogrfico foram apreendidos na alfndega. Clarinha estava no hospital com a 
filha Cludia grvida, na hora do parto. Ento, meu cunhado Jos Fernandes foi peg-lo no aeroporto. Seguiram direto para a maternidade e ele assistiu ao nascimento 
de Clarice, sua prima em segundo grau. Um sentimento inesquecvel para ele, nos confessou. 
      Depois, pegou a estrada e foi nos encontrar em Petrpolis. A surpresa de ver Cazuza de volta ao nosso convvio teve o mesmo tamanho de visualizar a figura 
que surgiu em nossa frente. Ele vestia um macaco sem mangas, todo perfurado de balas, que lhe garantiram ter sido usado por um soldado na guerra do Vietn. Os cabelos, 
enormes, pareciam uma boina louca. Naquele final de semana estvamos com visitas de cerimnia em Petrpolis e quase morri de vergonha pela maneira como Cazuza se 
apresentou. Mas, assim que me dei conta da felicidade de ter aquele garoto de volta, me recuperei enquanto ele distribua os presentes e contava todas as suas excitantes 
novidades. 
      Passada a euforia, ao retomar seu cotidiano, Cazuza conseguiu emprego na gravadora RGE, que tambm pertence ao grupo Sigla, com ningum menos do que Durval 
Ferreira, na poca diretor da RGE, que no s penou nas minhas mos como tambm nas de meu filho. Em sua carteira profissional, est registrado: Cazuza entrou para 
a RGE em 2 de junho de 1980 e saiu em 15 de janeiro de 1981. Ali, Cazuza era fotgrafo free-lancer. Nas folgas, freqentava a Praia de Ipanema. Nessa poca, seu 
par constante foi Yara Neiva, uma amiga at o fim. Se comportavam como namorados, embora os amigos de meu filho se beijassem e se abraassem tanto que a gente nunca 
podia saber! Ela foi sua companheira nas loucuras que costumava aprontar em restaurantes. Comiam e bebiam  vontade para, depois, fazer funcionar a estratgia e 
fugir sem pagar a conta. Yara saa antes, estacionava com o carro ligado na porta do restaurante, e Cazuza saa da mesa correndo em disparada, gargalhando, direto 
para o carro. 
      Foi Yara Neiva, alis, quem apresentou Cazuza a Ney Matogrosso, na Praia de Ipanema. Ney contou, anos depois, o que se passou em seu relacionamento com meu 
filho: 
      "Vi Cazuza pela primeira vez na praia. Pouco depois, ele apareceu na minha casa com uma amiga em comum. Era um apartamento de trs andares e ela subiu para 
conversar comigo no quarto. Ficamos ali tomando Mandrix. Quando resolvi acender um baseado, ela perguntou se podia chamar o Cazuza. Eu nem sabia que ele estava em 
casa! Ento ele subiu, conversamos e depois disso vivemos uma histria durante meses. Foi um grande amor mesmo. Ele era encantador e apaixonante e, nessa fase, o 
extremo oposto do que o Brasil conheceu depois. No tinha absolutamente nenhuma agressividade, era um anjo cado do cu. E eu fiquei apaixonado de perder a direo. 
Passamos um fim de semana na casa de campo da famlia e, em seguida, Cazuza viajou para a Sua. Quando voltou, comecei a perceber que ele estava com muito medo. 
Achava que eu queria prend-lo dentro de casa. Imagine!!! Na verdade, acho que ele tinha muito medo do rumo que a nossa histria estava tomando e de que o relacionamento 
poderia exigir mais dedicao, mais compromisso. De repente, ele desapareceu por alguns dias e, quando voltou, apareceu em companhia de uma figura estranha. No 
gostei daquilo e tivemos uma discusso. Cazuza cuspiu em mim e o expulsei. Mas ficou para sempre uma relao muito bonita entre ns, para o resto da vida".

      O desaparecimento de Cazuza da vida de Ney Matogrosso, no final de 1979, coincide exatamente com uma viagem de frias que fizemos para a Frana, para a estao
de esqui em Megve e, depois, Paris e Nova York. Joo convidou Cazuza e ele disse que s iria se pudesse levar uma amiga, Patrcia Cas. Achamos timo, porque assim
ele teria companhia para seus programas, que nunca coincidiam com os nossos.
      Meu filho morou seis meses com Patrcia Cas. Eram amigos h algum tempo, freqentavam a mesma turma, mas sua relao mais prxima com meu filho aconteceu
no apartamento do Jquei, de onde ele saiu para a viagem de So Francisco. Ela contou, depois, como foi o tempo em que ficaram juntos:
      "Tinha acabado de me separar e, na dvida de voltar ou no para a casa de meus pais, fui morar com Cazuza. Mas naquele apartamento do Jquei, era difcil.
Vivia cheio de gente, enchamos a geladeira de manh e  noite no tinha mais nada. O embalo ia sempre at tarde e eu estranhei muito porque, na poca, eu representava
a gerao sade. Gostava de ginstica, de sair para caminhar. Cazuza me chamava de careta e chata. Ele gostava de estar rodeado de gente mas, quando dava os cinco
minutos, enlouquecia, mandava todo mundo embora. Nessa poca, ele ouvia muito a Billie Holiday e gostava de cantar. Quando bebia ficava mais solto e cantava mais
ainda. A nossa turma toda o incentivava, mas parecia que ele resistia a soltar o jorro de talento represado e, naquele apartamento, no tinha espao nem para meia
pessoa. Brigamos e ficamos trs meses sem nos falar. Um belo dia, ele telefona me convidando para ir  Europa trs dias depois. Eu me senti dentro de um programa
Boa Noite Cinderela, porque tiramos os documentos necessrios e tudo deu certo, rapidamente. Nos encontramos com sua famlia em Genve e dali seguimos de carro para
Megve. Foram dias maravilhosos. Lembro de Cazuza todo equipado com aquela roupa de nylon para esquiar. Depois fomos para Paris e l acredito que ele tenha atingido
o auge de sua loucura barra pesada. Era muito talento represado e muitos conflitos. Tenho a impresso de que essa viagem foi um divisor de guas em sua relao com
os pais. Ele adorava a famlia, mas ao mesmo tempo tinha dio de gostar de coisas caretas. Como convivia com gente muito dura, sem grana, tambm s vezes se sentia
incomodado com o fato de seu pai ter muito dinheiro, queria ser como todos da turma. Depois, quando relaxou e aceitou o fato inevitvel, foi muito bom porque ele
se transformou num Mecenas do lazer. Era bastante generoso e se sentia bem nesse papel. Quando nosso breve romance terminou, continuamos amigos. ramos 'espertos',
inteligentes e livres. E eu, romntica. Por algum tempo ainda alimentei uma ilusozinha l no fundo, porque Cazuza, quando estava bem e sbrio, era uma pessoa muito
querida, muito doce. Tnhamos um histrico familiar um pouco parecido, sados da classe mdia, ele estudando no Santo lncio, e eu, no Sacr Coeur de Marie. Ele
adorava ir l em casa, onde as mulheres imperavam. Minha me o adorava. Com minha madrinha, ele gostava de ler Rimbaud. Ao encerrar nossa relao, Cazuza escreveu:
'No posso continuar, porque voc me ama ao cubo e eu te amo ao quadrado. No posso te dar menos do que voc merece".
      Assim que voltou de So Francisco, Cazuza alugou um apartamento de dois quartos na Rua Montenegro (hoje Vincius de Morais}, em lpanema, que pagava com o salrio 
da RGE. Joo assinou como fiador. No quarto de empregada, ele instalou o laboratrio fotogrfico que ganhou de presente do pai e o segundo quarto passou a ser ocupado
por Valesca, uma amiga que ficou morando com ele quase um ano. Continuei praticamente administrando o bsico do novo lar de Cazuza - compras de supermercado, roupa 
para lavar e passar. Como eu j era bastante conhecida no edifcio, certo dia o porteiro me chamou num canto. 
      - Dona Lucinha, estamos com um problema. Esto traficando drogas no apartamento de seu filho.  melhor a senhora tomar alguma providncia, porque o sndico 
 militar e est querendo fazer uma denncia. 
      Em menos de 24 horas, tiramos Cazuza daquele apartamento, um covil, antro de trfico de drogas. Cazuza no se deu conta da gravidade de sua atitude, pois, 
alm de ganhar dinheiro ilegal com venda de cocana, poderia ter envolvido o nome de Joo na histria. Ao mesmo tempo ns tambm estvamos de mudana para o apartamento 
em que vivemos at hoje, na Rua Prudente de Morais. Lembrei a Cazuza que ele havia nos dito, no passado, que, se mudssemos para lpanema, ele voltaria a viver conosco. 
E foi o que aconteceu. Desta vez, ele ficou quase um ano. 
      A volta de meu filho s trouxe alegria para nossa casa. Seu esprito brincalho contaminava a todos, at as empregadas, que no se importavam com a baguna 
que ele promovia por todos os lugares por onde ficasse mais do que cinco minutos. Nessa fase, a fotografia j estava perdendo espao nos interesses de Cazuza. Em 
novembro de 1980, ele procurou o astrlogo Antnio Carlos Siqueira Harres, o Bola, um gacho bastante conhecido no Rio de Janeiro e no meio astrolgico, pela seriedade 
com que sempre conduziu o seu trabalho. Na fita que Cazuza guardou at morrer, e que encontrei entre seus pertences, Bola fez algumas anlises de sua personalidade 
e apontou caminhos para o futuro. Alguns trechos da consulta: 
      "Bola: O Sol em Aries te d um ideal de afirmao e de crescimento da personalidade, um ideal de independncia e luta para alcanar o reconhecimento do teu 
prprio eu. O ariano tem, basicamente, uma capacidade mental de estimular, de orientar, de impulsionar, de encorajar as pessoas. Ento a tua funo na vida  essa: 
estimular e levar os outros - e a voc mesmo - a um crescimento. O Sol est na quinta casa do horscopo e isso representa uma capacidade criadora dentro do campo 
artstico e dentro do campo educacional, pedaggico, tudo o que estiver ligado com as novas geraes, com as crianas, com filhos. Nesse aspecto, voc encontra alegria 
de viver,  onde est atua capacidade criadora vital. Seu destino  o de abrir novos caminhos, de ser ponta-de-lana, de procurar as novas solues, novas possibilidades. 
Por isso, tua natureza  meio revoltada contra tudo o que  demasiadamente estabelecido e preso a valores do passado. Voc deve aprender a considerar o direito do 
outro, a se harmonizar com o grupo, com a sociedade, com o conjunto e no enfrentar todas as situaes sozinho. Com isso, voc deixa para os outros o que devia fazer 
por si mesmo. 
      A tua famlia deve ter uma tendncia bem comunitria e bem social. Uma famlia muito colaboradora, as pessoas so unidas, cooperam umas com as outras. Voc 
gosta muito desse lado, mas tem um outro lado seu que quer ser independente de todo esse envolvimento familiar. 
      Voc tem a necessidade de realizar as coisas de uma forma muito elevada, e de querer atingir, em suas realizaes, um amplo raio de ao. Tome o cuidado de 
no querer subir alto demais, de no ambicionar demais, de no criar estruturas maiores do que voc pode sustentar. E, especialmente, voc deve evitar a impacincia 
de crescer. Voc gostaria de crescer j e de realizar tudo agora, porque tem um lado muito imediatista. 
      Cazuza:  importantssimo isso. O negcio que mais me angustia atualmente  isso. 
      Bola: Voc tambm  do tipo mo-aberta, aquele que se preocupa em cumprir com as responsabilidades, mas ao mesmo tempo  um gastador. Ento  preciso voc 
no se deixar levar, porque  capaz de dormir em cima de uma tbua. Se necessrio, voc fica no banco de uma praa... 
      Cazuza: J fiquei muitas vezes. 
      Bola: Na parte afetiva voc deve tomar o mesmo cuidado, porque, seno, vai entrar em situaes onde voc mesmo se aprisiona. Existe uma necessidade de controlar 
os impulsos e de no se deixar levar tanto pelas coisas do momento. 
      Em termos de sade, voc tem que ter um certo cuidado com a rea respiratria e o sistema gstrico e intestinal, e ainda como ltimo grau, um grau mais fraco,
menos intenso, a parte dos rins, aparte renal, por causa da Lua na Balana. Pelo aspecto da Lua em Vnus, voc consegue muitas amizades dentro da arte, onde  importante 
sempre uma ligao e uma afinidade femininas. Inclusive nos seus assuntos de trabalho. Sempre em sua vida haver uma figura feminina que ser importante, para te 
dar oportunidades, para te criar situaes. Profissionalmente, voc ainda vai passar por uma transformao. Tua definio profissional vai brotar, vir de uma forma 
quase inconsciente."

      Exatamente nessa fase, Cazuza estabeleceu uma relao profunda com o ator Srgio Dias, o Serginho. Ficaram quatro anos juntos. Esse menino gostava sinceramente
de Cazuza e somos gratos a ele por sua dedicao ao meu filho. Serginho, Cazuza e Caetano Veloso, alis, protagonizaram uma cena inesquecvel no Baixo Leblon. Caetano 
 quem conta: 
      "Serginho era um menino lindo, adorvel. E eu mexia com ele, fazia um pouco a corte. Mas no foi por cime que aconteceu uma casual agresso fsica, porque, 
na verdade, o Serginho reagia com mais antipatia a essas minhas investidas do que Cazuza  minha tentativa de fazer amizade. Ele fechava a cara quando eu o elogiava. 
Aquela noite encontrei Serginho sentado numa mesa com outras pessoas, do lado de fora da Pizzaria Guanabara. Cazuza estava sentado sozinho em outra mesa. Pediu macarro 
e, quando o matre lhe serviu; Cazuza emborcou o prato na mesa, pegou a mochila e saiu, deixando atrs de si a mesa coalhada de macarronada. Seguiu pela Ataulfo 
de Paiva e, de repente, voltou. Eu estava conversando com o Serginho e o vi se aproximando pela rua. Quando chegou bem perto, levantou a mochila, em cujo interior 
havia uma garrafa de usque, e levantou a mochila para bater com ela na cabea de Serginho, que no percebeu o movimento. Puxei o Serginho pelo ombro e a mochila 
acabou batendo com tudo no meu dedo mindinho. O dedo inchou na hora, morri de dor, chorei de dor. Cazuza foi embora sem olhar para trs. Depois, conversamos sobre 
o episdio vrias vezes e rimos bastante daquilo tudo. Ele dizia: esse dedo  uma merda, mesmo! No serve pra nada! Voc toca violo mal pra caralho, para que precisa 
desse dedo?" 
      
      
      
     Captulo 9
     Baro Vermelho, enfim um caminho possvel


      "No foi Neruda quem disse:
      Feche os livros e v viver? Pois fui!"
      Cazuza

      Quando meu filho completou 20 anos, foi como se um raio de lucidez se apoderasse de mim. Como se, cansada de tanta luta em vo, me encontrasse, finalmente,
com as portas da compreenso abertas  minha frente. At ento eu havia tentado, de todas as maneiras possveis e impossveis, transformar Cazuza no modelo de ser
humano que eu acreditava ser o mais certo, o mais adequado. Fiquei convencida de que no era necessrio dominar ningum para ser feliz. Minha tentativa de dominar 
meu marido havia revertido de tal maneira que seria correto dizer que era ele quem me dominava. Tambm tentei dominar meu filho e no consegui. Havia chegado o momento 
de relaxar, de aceitar o fluxo da vida tal qual ela me fulminava no rosto a cada manh. Minha nova atitude trouxe benefcios gerais. Foi melhor para mim, melhor 
para o Joo e muito, muito melhor para Cazuza. Paramos de brigar diariamente por motivos fteis, por besteiras. Acho que, naquele momento, eu buscava atingir a maturidade, 
depois dos 40. Meu filho havia me ensinado que, se no tivesse resistido com todas as suas foras, eu o teria esmagado. Nossa relao continuou quente como antes, 
mas muito mais amorosa e compreensiva. 
      Encontrei entre seus objetos pessoais uma carta escrita por mim em 21 de janeiro de 1980, antes de Cazuza iniciar sua carreira. A escrevi num momento de nostalgia 
passageira: 
      "Meu filho: 
       tudo que quero,  tudo o que queria ser e o mundo me impediu: alegre, inteligente, bonito e bom. 
       por isso que aprovo o vo de eu fruto, sangue de meu sangue. Voa, querido, a vida  s uma. Viva a vida sem medo, sem represso, mesmo que seja amando pouco. 
O amor, ao mesmo tempo que te beija, te morde; ao mesmo tempo que te acaricia, te maltrata;  duro e mole;  felicidade e infelicidade;  satisfao e insatisfao. 
      Viva a vida, vida da minha vida, seja feliz de qualquer forma..." 
      
      Foi nessa fase, e talvez estimulado pelas anlises de Bola, que, em 1981, num gesto que o salvaria do ostracismo para sempre, Cazuza se matriculou no curso 
de teatro que Perfeito Fortuna e o pessoal do Asdrbal Trouxe o Trombone montaram no Circo Voador, armado sob uma tenda, no Arpoador. Entrou para o grupo Nossa Senhora 
dos Navegantes. Cazuza e seus novos amigos costumavam ensaiar no nosso apartamento duplex, quando o segundo andar ainda estava em reformas. Convencida de que Cazuza, 
finalmente, tinha encontrado sua turma, incentivei da melhor maneira que pude. No comeo, vendia camisetas para ajud-los e, tambm, cedia a aparelhagem de som para 
os ensaios. 
      Bebel Gilberto, filha dos cantores Joo Gilberto e Micha, conheceu Cazuza na Praia de Ipanema e, tempos depois, o encontrou na primeira aula de teatro com 
Perfeito Fortuna. Ela conta: 
      "Com o Perfeito Fortuna, montamos a pea Pra-quedas do Corao. ramos muito animados e dedicados. Foi um sucesso a montagem e, depois dela, comeamos a nos 
mobilizar para conseguir um espao onde o Circo Voador pudesse ser instalado. Fomos conversar com dona Zo Chagas Freitas, na poca primeira-dama do Rio, que nos 
cedeu o Arpoador. Eu e Cazuza acreditvamos que o Circo seria nosso, do nosso grupo. Acho que foi ingenuidade nossa, pois depois o Circo passou a abrigar outros 
novos grupos e nos desencantamos". 
      
      Na mesma fase, Cazuza se envolveu com outro grupo, do qual tambm faziam parte Carla Camurati, Rosane Goffman, Bebel Gilberto, Serginho Dias, Alice Andrade, 
Ruiz Bellenda e Marcelo Arruda. Ensaiavam uma pea infantil - Parabns Pra Voc -, uma criao coletiva, sob a direo de Ariel Coelho, e um dos personagens usava 
culos escuros. Cazuza no pensou duas vezes antes de acabar com o estoque de culos l de casa. A pea estreou no Teatro Cndido Mendes e o prprio Cazuza confessou 
que, como ator, se considerava um tanto canastro. Mas, na concluso do curso no Circo Voador, ele subiu ao palco novamente para participar da montagem de uma pardia 
da histria de A Novia Rebelde, que estreou no Teatro Cacilda Becker. Desta vez, minha ajuda foi comprar um buqu de flores importadas para a personagem principal 
e emprestar um terno branco de linho do Joo, para que Cazuza o usasse no seu papel do Capito Von Trapp, e, de novo, a aparelhagem de som. Na platia vi, em desespero, 
o buqu sendo jogado longe pela Novia, que na montagem deles era um travesti, e o terno do Joo pisoteado no palco. 
      Meu marido estava viajando e no pde ir  estria, ento levei todos os empregados de casa. A surpresa foi geral quando Cazuza entrou em cena e cantou Odara, 
de Caetano Veloso. Fiquei perplexa: 
      - Meu Deus, esse menino canta bem e eu nem sabia!!! 
      Mal me segurando naquela mistura de surpresa e emoo, ainda vi meu filho interpretar Edelweiss: sua participao no espetculo no tinha uma fala sequer. 
S cantava. Sem refinamento ainda, mas com o estilo que o caracterizaria no futuro. Foi uma descoberta e tanto para mim, porque, embora criado num ambiente musical, 
Cazuza jamais havia demonstrado em casa seus dotes de cantor. Sempre gostou de msica,  verdade, e ouviu muita msica brasileira em casa. Eu era fanzoca de Dolores 
Duran, inclusive tendo assistido a seus shows, quando ela era crooner da orquestra que animava, aos domingos, o ch danante do FIuminense Futebol Clube. Tambm 
era apaixonada por Lupicnio Rodrigues. Cazuza era f dos Novos Baianos e de Gilberto Gil. Caetano Veloso, uma espcie de guru, contou Cazuza anos depois na imprensa, 
discursando sobre suas influncias. Disse que pautava suas opinies a partir dos discos de Caetano e Gil. E tambm houve Rita Lee. Adolescente, ele seguia Rita por 
todos os shows que ela fazia no Rio ou em So Paulo. Tambm ficou fascinado pela voz rascante de Janis Joplin e, sempre e sempre, pela densidade dos blues de Billie 
Holiday. 
      Eu ainda estava encantada com a novidade, quando Cazuza pediu a Joo uma mesada que o sustentasse por algum tempo, pois pretendia entrar para um grupo de rock 
como vocalista. Um grupo de rock? Foi o cantor Lo Jaime, amigo de Cazuza, quem teve a idia de apresent-lo para uns garotos que j haviam formado uma banda e estavam 
 procura de um cantor. Lo, convidado, no aceitou, como ele mesmo contou a Almir Chediak, no songbook de Cazuza: 
      "Uma noite, eu estava cantando num boteco de Botafogo e dois garotos me chamaram para um papo na casa deles no dia seguinte. Foram me pegar, me levaram para 
o Rio Comprido e contaram que estavam formando um grupo e precisavam de um cantor. A banda se chamaria Baro Vermelho e achei que era esporrenta demais. Fora que 
eu j tinha outras duas bandas. A falei que achava legal o lance deles, mas que tinha muito mais a cara de um amigo. Eles ficaram meio em dvida, mas como tinham 
um show programado para dali a alguns dias, acabaram topando. Liguei para o Caju, o apelido como os amigos o chamavam, contei a histria e dei o endereo e a hora 
do ensaio. Ele falou que eu tava pirado, que ele no conhecia os caras, que a dele no era essa e coisa e tal. Eu disse que, se fosse o caso, ia com ele, mas eu 
j tinha prometido aos garotos. No fui, mas ele foi". 
      Foi numa garagem na Praa DeI Vecchio, no Rio Comprido, que Cazuza conheceu o dono da casa, Maurcio Barros, 17 anos, tecladista e, ainda, Flvio Augusto Goffi
Marquesino, 19, o Guto, baterista - os dois eram colegas no Colgio Imaculada Conceio -, que j haviam recrutado Andr Palmeira Cunha, 16, o D, num festivai de
colgio e, indicado por um colega do curso de guitarra, Roberto Frejat, 19 anos. Cazuza era o mais velho deles, ento com 22 anos. Quando meu filho apareceu naquela 
garagem, o nome do grupo j estava decidido mesmo: Baro Vermelho. 
      O grupo nasceu com um objetivo: se apresentar na Feira da Providncia, nos dias 5, 6, 7 e 8 de novembro de 1981, no pavilho do Riocentro, entre a Barra da 
Tijuca e Jacarepagu. Infelizmente, na hora H, o sistema de som pifou, o P.A. no funcionou e o show no aconteceu. Mas os garotos, embora frustrados, resolveram 
continuar tentando. Cazuza estabeleceu uma empatia imediata com Frejat, numa relao sincera e intensa. Frejat relembra o comeo desta aventura: 
      "Estvamos ensaiando h trs ou quatro dias quando Cazuza apareceu. Lo Jaime tinha nos contado que ele era seu amigo e que gostava de gritar, certamente iria 
se dar bem com o nosso som pesado. Sabamos, tambm, que ele era filho do Joo Araujo, mas isso no significou nada para nenhum de ns. Ningum tinha a vaga idia 
de quem era Joo Araujo. Cazuza chegou, lhe mostramos as msicas, ele pegou o microfone e comeou a cantar. Soltou a voz. Nos entendemos na hora. Todos os dias, 
ele me pegava em casa, no Flamengo, e amos conversando no carro durante o trajeto at o Rio Comprido, onde continuamos a ensaiar. Descobrimos incontveis afinidades, 
milhares de interesses em comum: que gostvamos de Angela R R, de Lus Melodia, Novos Baianos, de msica brasileira, o que no era muito comum entre roqueiros. 
Durante certo tempo, nossa rotina era assim: eu acordava de manh, ia para a casa dele em Ipanema elevava um baseado enorme. A gente fumava e ia para a praia. As 
vezes passvamos o dia inteiro l. A noite, tinha sempre um programa. Cazuza gostava da noite, gostava de beber. Eu, no, mas estvamos nos tornando parceiros e 
queramos estar a maior parte do tempo juntos". 
      
      De fato, Frejat e Cazuza estabeleceram uma grande amizade. Passavam horas e horas trancados no quarto de meu filho, a ponto de eu at desconfiar. Quando toquei 
no assunto com Cazuza, ele se indignou: 
      - Mame, voc s pensa maldade mesmo. Voc no entende 'uma amizade entre homens. Isso  ridculo! 
      
      Com o tempo me dei conta de que era mesmo ridculo. Frejat e Cazuza eram como irmos, tanto que meu filho sempre o chamou de "Brou", uma adaptao carinhosa 
para o ingls "brother". Uma linda amizade, sem dvida uma das mais fundamentais para meu filho. 
      A esperada estria do Baro Vermelho, enfim, acabou acontecendo num condomnio na Barra da Tijuca, o Riviera Dei Fiori. O show foi montado no playground e 
durante a apresentao quase morri de vergonha. No palco, Cazuza, de porre, e com o zper da cala enguiado. Cantou com a braguilha aberta. Comecei a ouvir improprios 
do pblico ao meu lado e no pude me segurar. Revidei as gracinhas, respondi com fria, briguei com vrias pessoas. A verso de Frejat para a estria do Baro Vermelho: 
      "O show estava demorando muito a comear. Eu tinha levado uns baseados, a gente fumou e, alm disso, Cazuza bebeu. Nunca tnhamos visto como ele se comportava 
de porre. E estava completamente descabelado e bbado. Entrou no palco, abaixou as calas, colocou o microfone no pau. Foi aquela baixaria. Nada do que tnhamos 
combinado aconteceu. Naquele dia ele estava nervoso porque sua me tinha ido assistir ao show. Ele tinha medo de parecer careta, morria de medo". 
      
      Desde o dia em que assisti a meu filho cantar em cima de um palco, virei sua tiete nmero 1. Se o problema era que ele ficava nervoso com minha presena, eu 
procurava uma soluo, como me esconder atrs de uma pilastra ou sentar na ltima fila. Aos poucos, ele foi se acostumando. Depois de tantos anos de procura insana, 
de tentativas frustradas, aos meus olhos Cazuza, finalmente, havia encontrado seu caminho. S isso j me deixava muito feliz. Entusiasmada, consegui levar Joo para 
ver o show que o Baro fez em seguida na boate Caribe, em So Conrado. Era uma boate vagabunda, com uma luz horrenda, palco pequeno. As primeiras impresses de Joo 
sobre o filho artista: 
      "Ao voltar de uma viagem  Europa, Lucinha contou que Moraes Moreira iria passar l em casa, para irmos juntos assistir a um show de Cazuza com o Baro Vermelho. 
Levei um susto. Eu nunca tive a menor idia de que meu filho cantava ou fazia msica. Lembrei na hora dos tempos em que ele se trancava no quarto. Muitas vezes, 
quando eu chegava de madrugada, ele estava batucando e batucando na mquina de escrever. No dia seguinte, eu encontrava uma pilha de papis escritos, umas poesias. 
Mas nunca me atrevi a ler os papis sem o seu consentimento. Assisti ao show e o que vi foi um conjunto de garagem, muito ruim, mas notei que eles tinham possibilidades. 
Nada disso, na verdade, estava em jogo, pois eu tinha adorado a idia de Cazuza seguir em frente em qualquer coisa. Depois, quando pediu minha opinio, falei com 
sinceridade: 
      - Como vocs esto comeando, tudo  possvel! Vocs no tinham recursos, no pediram nada para ningum. Mas tm uma poro de defeitos. 
      - Ah, eu sei, papai, voc gosta mesmo daquelas coisas que fazem sucesso. Voc  muito comprometido com a tua profisso, porque voc quer vender e  muito exigente. 
Mas o meu mundo no  esse. No mundo que procuro, ainda no estou mirando a perfeio. 
      Retruquei: 
      - Mas, Cazuza, acho que nos prximos shows voc tem que corrigir algumas coisas. Para melhorar tua respirao, sei l, voc tem que ir a um fonoaudilogo, 
para melhorar teus finais de frase. Voc no pode chegar no palco e dizer que cantou a quarta msica do lado B do teu disco, porque isso  muito amador. 
      - Pai, voc tem mania de me criticar! 
      - Estou te dizendo coisas que talvez outros no te digam". 
      
      O Baro passou a se apresentar, ento, em quase todos os lugares disponveis do Rio de Janeiro e, quando s faltava chegar ao Morro da Urca, os meninos resolveram 
gravar uma fita demo, bastante amadora, l mesmo na garagem de Rio Comprido. Essa fita foi parar nas mos do empresrio Leonardo Netto, na poca scio de Nelson 
Motta no Noites Cariocas, como se chamou a programao e eventos dos finais de semana no Morro da Urca, um templo musical do que era "in" no comeo dos anos 80. 
Lo, como  conhecido no meio, encontrou Cazuza uma certa noite e lhe contou sobre os novos projetos do selo Hot Discos, que ele e Nelsinho haviam lanado, produzindo 
o disco Menino do Rio e artistas como Bebel Gilberto e Gang 90 e Absurdetes. A idia, naquele momento, era lanar um disco com todos os novos artistas que estavam 
aparecendo e em quem acreditavam. Cazuza se entusiasmou muito com esse disco, como Lo Netto relembra: 
      "Na conversa que tivemos naquela noite, Cazuza disse que queria muito gravar e que precisava me entregar a fita que havia gravado com o Baro Vermelho. Tudo 
bem, lhe disse, passe l em casa. E realmente ele foi alguns dias depois, durante a tarde. Lembro de me falar de cada uma das msicas e de pedir desculpas pela m 
qualidade da gravao."
      Naquela mesma noite, na casa de Leonardo, quatro amigos ouviram juntos a fita do Baro pela primeira vez: o tcnico de som e cengrafo Wagner Baldinato, a 
jornalista Regina Echeverria, o crtico musical e tambm jornalista e produtor musical Ezequiel Neves, o Zeca, alm de Leonardo Netto. Foi uma comoo. Todos se 
encantaram com os versos de Cazuza, com seu rock bluseiro, com o som sujo e visceral do Baro. Os olhos de Ezequiel brilharam mais do que nunca. Ele ficou to enlouquecido 
que, antes de sair, enfiou a fita no bolso e cometeu um verdadeiro furto. A sorte do Baro e a do prprio Ezequiel estariam unidas para sempre a partir daquele delito. 
Zeca relembra: 
      "Ficamos todos bastante impressionados com as letras das msicas do Baro. Tinha muita coisa escrita em portugus errado, mas uma linguagem totalmente moderna, 
atualssima, falando de garotada, de dor-de-corno. Lembro que liguei para a Lucinha e lhe disse: recebi uma fita de um grupo em que seu filho  vocalista. Quem  
que escreve as letras? E ela me respondeu:  o meu filho! Ento, eu disse: Lucinha, prepare-se porque seu filho  genial!" 
      
      Adorei ouvir isso e, bastante emocionada, procurei Cazuza por toda a parte para lhe contar a novidade. Ele ligou para Ezequiel, que confirmou tudo. Meu filho 
ficou quase em estado de choque. Passou um bom tempo sem conseguir articular uma palavra. Ligou para o Frejat e perguntou se j tinha ouvido falar em Ezequiel Neves. 
Frejat no acreditou. Disse que Ezequiel era um dolo para ele, que era seu f e lia tudo o que ele escrevia sobre rock. Todo orgulhoso, meu filho contou ento ao 
amigo que Ezequiel telefonou dizendo que eles eram geniais e prometendo mexer os pauzinhos para ajud-los. 
      Zeca havia conhecido Cazuza um pouco antes de ele deixar a Som Livre e embarcar para So Francisco. Tambm sequer desconfiou que o garoto tinha talento. Seu 
relato: 
      "Eu no conhecia os textos de Cazuza nos releases da Som Livre. E o vi pela primeira vez numa reunio na companhia, em que ele entrou de tamanco, bermuda, 
cabelo enorme e me esnobando. Naquele dia, tomamos um porre juntos. Escondemos uma garrafa de usque na sala do Guto e comeamos a beber, em xcaras de ch, usque 
puro. Cazuza me deu a seguinte dica: cowboy bate muito rpido, quando voc beber usque, tem sempre que colocar uma aginha. Ele estava embarcando para So Francisco 
e da Som Livre fomos para lima festa de despedida num apartamento mnimo, onde se espremiam umas seiscentas pessoas. A dona da casa toda hora saa para comprar cerveja. 
Nessa noite o Jlio Barrozo nos deu dois Mandrix, um para cada um. Tomamos um porre monumental e falamos de tudo: de Janis Joplin a literatura. Cazuza ficou com 
meus culos Ray-ban. Dias depois, Lucinha me ligou para devolver. Quando ele voltou de So Francisco, nos cruzamos algumas vezes e ele me pediu para ver as fotos 
que estava fazendo. Dei minha avaliao sincera: voc  muito amador, parece fotgrafo lambe-lambe. Tive notcias suas tempos depois, quando me telefonou para dizer
que estava vendendo cocana naquele apartamento da Montenegro. Em nenhuma dessas ocasies Cazuza me contou que era um cantor."

      Zeca, que havia sido demitido da Som Livre, reencontrou Guto Graa Mello na festa de nossas bodas de prata, em 16 de maro de 1982, que aconteceu no ltanhang
Golf Club. Cazuza vestiu um terno pela primeira vez e seu pai o ajudou a dar o lao na gravata. Durante a cerimnia, foi encarregado de ler em voz alta um trecho
da Bblia. Nessa noite, Guto convidou Ezequiel Neves para voltar a trabalhar na Som Livre e Zeca lhe contou, com o entusiasmo que lhe  caracterstico, sobre a fita 
do Baro Vermelho. Ao ouvi-la, a reao de Guto foi a mesma de todos - adorou. Zeca e Guto, ento, enfrentaram o primeiro problema para que os planos de lanar um 
disco com o novo grupo se concretizassem: convencer Joo Araujo, o presidente da companhia, a apostar no grupo e a permitir que eles gravassem um disco. No foi 
nada fcil. A resistncia de Joo era enorme. E ele explica o porqu: 
      "Quando Guto Graa Mello e Zeca Neves entraram em minha sala com a fita do grupo nas mos dizendo que queriam gravar de qualquer jeito, eu disse: no h hiptese, 
eu no vou gravar com o Cazuza e nem o Cazuza vai querer gravar comigo! Se no der certo, vo dizer que eu lancei s porque ele  meu filho. A situao  muito desconfortvel. 
No gosto de favoritismos. Mas se formou um rolo compressor em torno de mim, de uma maneira que no pude resistir. Acabamos encontrando uma soluo - o disco do 
Baro sairia pelo selo Opus, dirigido por Heleno de Oliveira". 
      Frejat, que participou como representante do grupo em todas as negociaes com a gravadora, contou como ele percebia a delicada relao de Cazuza com seu pai 
dentro da gravadora: 
      "Cazuza tinha uma viso muito clara sobre o assunto. Sempre dizia: se quiserem sacanear o meu pai a qualquer momento, eles vo me usar! E isso aconteceu, por 
exemplo, com a capa do primeiro disco do Baro. Quando faltava um dia para a arte seguir para o fotolito, ela amanheceu toda borrada. Na verdade, na poca, Joo 
Araujo fazia uma campanha muito forte contra o jab (propina com que algumas gravadoras foram a execuo de certas msicas), tanto nas rdios como na televiso. 
Nosso primeiro clipe, por exemplo, ficou inassistvel. O diretor parecia querer nos sacanear, tanto que usou uma lente grande-angular e deformou o rosto de Cazuza". 
      O primeiro LP do Baro Vermelho foi gravado em dois finais de semana nos estdios da Som Livre, nos dias 15, 16, 22 e 23 de maio de 1982. De l, Cazuza ligava 
para me pedir que mandasse lanche para a turma toda e,  claro, uma garrafa de usque, que ele se encarregava de esvaziar, junto com Zeca. Os meninos do Baro estavam
comeando a conhecer o temperamento de meu filho. Frejat:
      "Nossas horas no estdio foram ao mesmo tempo um tormento e uma oportunidade de conhecer os amigos de Cazuza, inclusive Ezequiel, com quem ele se entendeu
de imediato e ns tambm. Cazuza s queria colocar a voz com a banda toda tocando, no gostava de fazer remendos ou de corrigir uma passagem ou outra, no tinha
pacincia".


     Captulo 10
     Na estrada do rock

      "Sou feliz em Ipanema
      Encho a cara no Leblon"
      Completamente blue

      Finalmente, com o nome de Baro Vermelho, o disco foi lanado em 27 de novembro daquele ano, um dia depois de As Aventuras da Blitz chegar ao mercado. A crtica
vibrou. Todos os grandes jornalistas musicais da poca saudaram a chegada do Baro Vermelho como um sopro de vida inteligente dentro do rock brasileiro. Cazuza foi
apontado como o novo poeta de sua gerao. Nas palavras escritas pela jornalista Ana Maria Bahiana, uma sntese de como o disco foi recebido pela mdia: "A partir
daqui esto dinamitadas as fronteiras que separam o elementar do profissional. O Baro prova isso".
      Caetano Veloso chegou a comentar comigo que havia escutado a fita do Baro numa viagem de carro a So Paulo com Patrcia Cas. Tinha adorado especialmente
a msica Bilhetinho Azul Confessou at que chorou ao ouvi-la pela primeira vez. No podia acreditar que aquele menino que ele encontrava de porre no Baixo Leblon
fosse o autor de versos to profundos:
      "Conheci Cazuza ainda adolescente porque entrei na Polygram pelas mos de Joo Araujo. Mas ele nunca falava comigo direito. Era muito antiptico. Tentei vrias
aproximaes, pensei em desistir at, mas fui assistir a uma pea promovida pelo pessoal do Asdrbal com estudantes e vi Cazuza em cena. Era to bom, ele cantando
e atuando, todo mundo adorou e eu tambm. E fiquei surpreso que ele fosse talentoso. Queria lhe dizer isso, mas ele no era receptivo. E em So Paulo, passeando
de carro com a Patrcia Cas, escutei Bilhetinho Azul e chorei. Chorei dentro do carro. Fiquei apaixonado, maravilhado. Depois ouvi o resto do disco do Baro e,
at hoje,  um dos meus favoritos. Fiquei to entusiasmado que a no dava para ele no aceitar minha aproximao. Ele nunca me deu explicao alguma para esse tipo
de comportamento. Eu mesmo dei uma explicao. Acredito que ele j tinha todo esse talento e, como eu era famoso, ele acompanhava minha carreira e possivelmente
me admirava, no interesse de um dilogo real, Cazuza estaria conversando comigo sem ser ele e eu, j sendo eu aos seus olhos. Quando aquele talento todo veio para
fora, ele conseguiu se comunicar. Mas sempre brincava comigo dizendo que preferia a Ded a mim".

      Chovia torrencialmente no Rio de Janeiro na noite de 4 de dezembro de 1982, quando o Baro Vermelho fez o show de lanamento do disco no Circo Voador. At
eu tinha entrado no esquema de divulgao, convidando vrias personalidades, e elas estavam todas l, sentadas  beira do palco, aguardando impacientes o incio 
do espetculo, que comeou com meia hora de atraso: Caetano Veloso e Paula Lavigne, Angela R R, Emlio Santiago, Joanna, Hildegard Angel, Mrio Gomes, Guilherme 
Arajo. Em 12 de dezembro, uma semana depois da estria, Hildegard Angel publicou em sua coluna sobre televiso no jornal O Globo: 
      "Agora, Joo, voc pode se soltar numa boa, pra curtir o sucesso do Cazuza, que s vai fazer crescer" 
      
      Em junho de 1983, quando Caetano Veloso subiu ao palco do Caneco para o lanamento de seu disco Uns, eu estava na platia, ao lado de Joo. Para minha surpresa, 
ele comeou a cantar Todo Amor Que Houver Nessa Vida. Cutuquei o Joo e lhe disse: 
      - Essa msica  de Cazuza! 
      Joo me olhou como se eu fosse um ser de outro planeta e encerrou o assunto: 
      - Voc est louca? 
      No final da cano, Caetano elogiou Cazuza e o elevou  condio de "o melhor poeta de sua gerao". Tinha dois motivos de orgulho: o fato de Caetano ter elogiado 
meu filho e por Joo no ter acreditado em mim e sendo obrigado a reconhecer que eu estava certa. Embora j houvesse escutado o disco, no havia reconhecido a msica. 
Caetano Veloso passou a ser um freqentador assduo dos shows do Baro. Era um entusiasta do grupo. Ele conta: 
      "Paulinha (Lavigne) era minha companheira para assistir aos shows do Baro. Saamos muito juntos e, nessa poca, comeamos a namorar. A msica Todo Amor Que 
Houver Nessa Vida  uma obra-prima. Cazuza era um romntico autntico. Isso foi o que deu  poesia dele um poder de comoo muito grande, porque ele era cem por 
cento autntico e isso a gente sentia. Ele entrou na msica popular brasileira com uma marca enormemente original e seu trabalho com o Baro, e posteriormente sozinho, 
representa uma coisa grande, com um papel importante no desenvolvimento da histria da msica brasileira". 
      O Baro Vermelho passou a existir, mas a vendagem foi bastante tmida, apenas 8 mil cpias. Mas os garotos conseguiram muitos adeptos, entre eles Abelardo 
Barbosa, o Velho Guerreiro, que sempre os convidava para cantar em seu programa. Chacrinha chegou at a escrever em sua coluna na revista Amiga, dois anos depois, 
em 19 de dezembro de 1984: 
      "Modstia  parte, quem deu a primeira fora ao conjunto Baro Vermelho - e o Cazuza t de prova - foi o Chacrinha aqui. Quando a turma ainda no era sucesso, 
nem vendia discos, o Velho Guerreiro lanou-o no Cassino. Verdade ou mentira, dona Jandira????" 
      A primeira empresria do novo grupo Baro Vermelho foi Marilda Vieira, a Marildinha, num esquema ainda bastante amador. Com ela, os meninos fizeram shows em 
So Paulo, tanto no Vitria Pub como numa boate gay. Mas o que marcou realmente esse curto perodo de trabalho com Marildinha foi um show em Santos, do qual Frejat 
jamais se esquecer: 
      "Nos hospedamos num hotel estranho e, quando sentamos para almoar, a batata frita demorou mais do que todos os pedidos. Foi a que Cazuza ficou furioso. Nunca 
o tinha visto to bravo assim. Nos apresentamos num cinema antigo e, na hora do show, algum comeou a jogar copos no palco. Pensei: mas que loucura, esto jogando 
copos na gente! Era o Ezequiel. No sei se ele tinha brigado com o Cazuza, se estava amando ou odiando o show. Era inacreditvel. E Cazuza, mais louco ainda, tirou
a bota e passou a andar em cima dos cacos de vidro. Ele cortou o p, mas nada grave, pois seu santo era forte. Aos 19 anos, eu nunca havia visto uma cena de loucura
to grande! O palco ficou coalhado de cacos de vidro". 
      Na verdade, Zeca estava era amando o show e no controlou sua loucura naquele momento. De qualquer maneira, Marildinha logo deixou o trabalho com o grupo e, 
pouco depois, o Baro foi convidado para se apresentar no projeto Fim de Praia, organizado por Scarlet Moon na ex-boate Papagaio, na Lagoa. Assistindo a esse show 
estava na platia um casal de empresrios, Rosa e Mrio Almeida, que se interessaram pelo grupo. Em janeiro de 1983 assinaram contrato e, finalmente, o Baro Vermelho 
comearia a entrar num esquema regular de apresentaes. No comeo faziam at show de play-back no subrbio e ganhavam o suficiente para "o usque de Cazuza", como 
gostavam de brincar. Abriram um show para o grupo A Cor do Som, se apresentaram no Morro da Urca mas, em sua primeira viagem, conheceram o fracasso de perto: 14 
pagantes na platia do Clube Leopoldina Juvenil, em Porto Alegre. No show de Braslia, em seguida, foi uma consagrao. Eles se apresentaram num evento de motocross 
e, depois do show, Cazuza deu seu primeiro autgrafo na carreira. 
      Nem mesmo com todo o apoio da mdia, o disco do Baro conseguiu emplacar e, para incompreenso de todos, no tocava nas rdios. Foi quando eles comearam a 
se preparar para o novo disco. Foram todos para nossa casa de Petrpolis e l ficaram por uma semana. E todos pareciam felizes com esse tempo em que puderam se conhecer 
melhor e Cazuza gostou muito daquele ambiente de sua nova turma. Brincaram e se permitiram fazer msica num momento de esperana no futuro e vontade de produzir. 
Entre abril e junho de 1983, os rapazes entraram novamente no estdio, para o segundo LP. Ao lado de Ezequiel Neves, na produo do disco estava Andy P. Mills, um 
americano que chegou ao Brasil com a trupe de Alice Cooper. Era responsvel pela cobra que o cantor exibia no espetculo. Zeca conta como eles se comportaram no 
estdio: 
      "O Mills praticamente queria ensinar os meninos a tocar. Pedia ;para repetir a guitarra umas cem vezes. O Cazuza no agentava tanto perfeccionismo. E, quando 
foi a sua vez de colocar a voz, ele no conseguia. Na quarta tentativa, me chamou e disse: no vou gravar merda nenhuma! Est tudo muito perfeito e eu no tenho 
nada a ver com a perfeio. Chamei o Frejat e o avisei que Cazuza estava querendo desistir. Ele no pegava o ritmo da msica, no cantava. Liguei para o Guto Graa 
Mello. Eram dez e meia da noite e pedi socorro. Quando ele chegou e disse ao Cazuza: voc no sabe cantar? Cazuza respondeu rpido: sei. Ento canta!!, disse simplesmente 
o Guto. Nessa noite, Cazuza gravou umas quatro vozes". 
      Entre as faixas do segundo disco do Baro Vermelho estava Pro Dia Nascer Feliz, parceria de meu filho com Frejat. Uma manh, toca a campainha na casa de Cazuza 
na Rua Engenheiro Cortes Sigaud, no Leblon. Era Ney Matogrosso. Cazuza estava dormindo, mas Ney no se intimidou. Foi entrando quarto adentro, ouvindo os improprios 
de meu filho mal-humorado ao acordar, e falou sem rodeios: 
      - Cazuza, acorda pra ganhar dinheiro! 
      Ele queria gravar Pro Dia Nascer Feliz de qualquer maneira. Cazuza argumentou que aquela msica no dava, que havia sido a escolhida para trabalhar o disco 
do Baro e que lhe daria outra, enfim. Mas no houve argumentos para Ney, que saiu dali decidido, entrou no estdio e gravou a cano em seu disco Pois , de 1983. 
A msica estourou na voz de Ney Matogrosso e os meninos do Baro ficaram novamente frustrados, pois o disco ainda no conseguia emplacar nas rdios. Mas, a uma semana 
do Natal de 1983, a Rdio Cidade trocou a gravao de Ney pela do Baro Vermelho. Um presento para todos, pois a partir da estava rompida a barreira das rdios 
e o Baro Vermelho j no era mais uma banda maldita. Tanto que o show de lanamento do segundo disco, Baro Vermelho 2, no Teatro Ipanema, em abril de 1983, reuniu 
uma platia de estrelas. Costumvamos reservar as primeiras filas para os convidados especiais, que foram muitos, entre eles Bruna Lombardi, Carlos Alberto Riccelli, 
as cantoras Marina e Olvia Byington e outros. Sem saber o que usar como figurino do show, Cazuza abriu meu closet e pegou vrias camisas e blusas que poderiam servir, 
se decidindo,  claro, pela importada mais cara que eu tinha. Era uma camiseta de malha branca com uma girafa bordada em preto. Cazuza cortou as mangas a tesouradas 
e subiu com ela no palco do Teatro Ipanema. Na cabea, usou pela primeira vez uma bandana - era japonesa, presente de seu amigo Tavinho Paes. 
      Jamais me esquecerei da vspera desse show, Cazuza caiu de cama, com um febro de 40 graus. Ele suava frio. Chamei o mdico, que tratou dos sintomas como se 
fossem de uma gripe comum e receitou alguma coisa. Na poca, no dei nenhuma importncia a isso, mas pensando nesse episdio, depois que tudo aconteceu, suspeito 
que algum sintoma de sua doena comeara a se manifestar. 
      Depois da temporada, Cazuza foi procurado por Liane Mlihlemberg, responsvel pela produo musical do filme que Tizuka Yamasaki estava produzindo e Lael Rodrigues 
comeando a rodar. Tizuka contou a Cazuza a histria do filme e, em parceria com Frejat, ele comps Bete Balano e Amor, Amor, parceria com Jorge Israel. Alm de 
cantar a msica tema, Cazuza fazia uma ponta no filme como Tininho, um compositor de rock. Tambm, ao lado do Baro, entrou no filme com um show gravado em 22 de 
dezembro, no Circo Voador. Bete Balano estourou de Norte a Sul. O sucesso batia na porta do Baro Vermelho e Cazuza, na falta de uma musa naquele ano, foi eleito 
pelo Jornal do Brasil em fevereiro de 1984 o "Muso do Vero".
      Em maio desse mesmo ano fui a So Paulo para um show dos meninos na discoteca Radar Tant, da qual Ded Veloso era scia. Foi a primeira vez em que ouvi a 
cano Maior Abandonado. Estava ao lado de Caetano Veloso na platia. No palco, os primeiros versos: "Eu t perdido/Sem pai nem me/Bem na porta da tua casa". No 
me contive: 
      - Caetano, isso  mentira! Ele tem pai e me e  muito querido! 
      E Caetano, rindo, respondeu: 
      - Lucinha, isso  uma imagem potica. No leva as coisas assim, to ao p da letra! 
      Voltei para o Rio no dia seguinte e dali para um fim de semana com Joo em Salvador. Portanto, no presenciei a confuso que aconteceu logo em seguida. O jornal 
Folha de S. Paulo havia publicado uma matria com a ficha tcnica de cada menino do Baro. Entre as perguntas, qual  o seu vcio? Meu filho respondeu: todos!!!! 
No sei se isso alertou os policiais do Deic ou se foi uma denncia. Mas o fato  que policiais  paisana bateram na porta do quarto de Ezequiel Neves, no Hotel 
Hilton,  procura de drogas. Seu relato: 
      "Eu e o pessoal do Baro tnhamos descido naquela tarde, enquanto Cazuza dormia. Nessas viagens, nosso maior tormento era acordar Cazuza, porque ele ficava 
irado se perturbassem seu sono. Dei uma volta pelo centro e voltamos para assistir ao programa do Chacrinha que ia apresentar o Baro e depois sair para fazer dois 
shows: um com outras bandas, no Ibirapuera, e outro, no Radar Tant. Na volta, bateram na porta de meu quarto de hotel. Me deparei com duas camareiras acompahadas 
de cinco garotes vestidos com casaco de couro. Eles entraram perguntando onde estava a droga e dizendo que estavam  procura do filho do homem. 'Onde est o filho 
do homem?' Revistaram o quarto e no acharam nada. Mas tive que acompanh-los at os quartos de Frejat, Guto e D. E sempre entravam comigo na frente. Quando batemos 
no quarto de Cazuza, ele no entendeu nada. Quando viu aquele monte de garotes, eu tive que lhe explicar que eles estavam ali para nos prender. O quarto era uma 
baguna s, com roupas empilhadas umas por cima das outras. Quando levantaram o colcho, a carteira de Cazuza pulou fora. Ele no agentou: obrigado, pessoal, eu 
estava desesperado atrs dessa carteira!!! Ficou na maior alegria. Mas nada foi encontrado. E os homens estavam ficando bravos, no acreditando que ali no havia 
nada. Foi quando Guto resolveu dizer: eu tenho essas duas pedrinhas de maconha. Fomos todos para o Deic prestar depoimento. Como no encontraram nada em seu quarto, 
Cazuza foi dispensado, mas no se conformou. Como ele, o mais louco de todos, no foi preso junto com a banda? Nos acompanhou e, de vez em quando, ele saa para 
comprar sanduche na rua, porque a porta estava coalhada de reprteres. Quando voltou, me disse que sua popularidade estava a zero, pois no foi reconhecido. Pagamos 
a fiana e samos para o primeiro show". 
      A notcia j tinha sido divulgada pelo Jornal Nacional da Globo, quando o Baro entrou no palco do Ibirapuera naquela noite. A platia foi ao delrio e, no 
final da apresentao, o palco estava repleto de cigarros de maconha, atirados em protesto pelos fs indignados com a ao da polcia. S fiquei sabendo da aventura 
no domingo, avisada por uma amiga, a jornalista Maria Lcia Rangel. 
      Mas as aventuras daquela srie de shows em So Paulo ainda reservariam ao Baro novas e densas emoes. Antes da matin do domingo, Frejat percebeu quando 
um garoto entrou no camarim para conversar reservadamente com Cazuza. Ele conhecia a figura e j imaginava a razo daquele encontro. Os dois entraram no banheiro, 
fecharam a porta e no saam. Faltavam cinco minutos para o show comear quando Frejat comeou a bater na porta do banheiro, cada vez com mais fora: 
      "Cazuza, abre a porta!!! Abre a porta seno eu arrebento. Eu queria tir-lo de l de qualquer maneira porque sabia que eles estavam cheirando p e Cazuza j 
havia bebido. Se ficasse mais louco ainda, iria arrebentar a voz na primeira msica e fim de show. Comecei a dar porradas e pontaps na porta. E, justamente no momento 
em que ele percebeu que eu iria mesmo arrombar, ele abriu e a porta bateu no seu rosto com toda a fora de minha fria. Abriu o superclio e o lbio. Foi um escndalo. 
Era tudo o que ele precisava para me arrasar. Gritava dramtico: minha cara  tudo o que tenho, voc acabou comigo. Meu Deus, voc me odeia. Eu te odeio! Desabei 
e chorei feito uma criana, em posio fetal, porque a ltima coisa que eu queria era machucar o Cazuza. Lembro da Ded Veloso me consolando, mas foi duro porque 
Cazuza teve que ir para o hospital, levar pontos e ainda voltar para fazer o show" . 
      Durante a apresentao, Cazuza arrancou os curativos e cantou at o final com uma energia extra. Como sempre, mais uma vez, fui a ltima a saber. Quando Cazuza 
voltou ao Rio, tive que lev-lo a um cirurgio plstico, seu primo Paulinho Mller, que refez todo o trabalho do pronto-socorro. Restou mais uma cicatriz para sua 
coleo. A notcia da priso em So Paulo saiu na primeira pgina do jornal o Dia. Desde o comeo da carreira de meu filho passei a colecionar tudo o que fosse publicado, 
tudo muito bem organizadinho. Mas quando comprei O Dia com a notcia da priso por drogas mostrei ao Joo e, em seguida, rasguei em mil pedacinhos. Depois da aventura, 
ele me pediu o jornal e lhe contei que havia jogado fora. Cazuza fez um escndalo, me xingou e saiu batendo o p numa atitude tpica de m-criao. Ele dizia que 
eu s guardava os recortes onde ele aparecia como um menino bonzinho. Furioso, mandou enquadrar a pgina do jornal para exibi-la na parede da sala. 
      No inverno de 1984, Cazuza estava na casa de Micha e Bebel Gilberto. As duas haviam sido convidadas por Joo Gilberto, para acompanh-lo em sua apresentao 
no show Viva Bahia, que aconteceu em Roma, Itlia, com cantores baianos. Ao ouvir os comentrios animados das duas com a viagem, Cazuza resolveu que tambm queria 
ir. Eu e Joo estvamos em Petrpolis, quando nosso filho ligou dizendo que queria embarcar naquele dia. No tinha dinheiro, passagem e nem sabia onde estava seu 
passaporte. Recorri a Claude Amaral Peixoto, que conseguiu uma reserva na primeira classe {onde todos iriam viajar, inclusive Joo Gilberto). Pedi, tambm,  minha 
irm Clarinha que lhe emprestasse 5 mil dlares. Quando chegou ao aeroporto, torrou os 5 mil dlares na passagem e embarcou sem dinheiro algum. Bebel Gilberto conta 
detalhes da viagem: 
      "Cazuza viajou com uma bolsinha Fiorucci com duas cuecas e uma camiseta, no tinha nem carto de crdito. Papai estava meio tenso, ia fazer show e o Cazuza 
falando muito, falando alto. No final da viagem estavam superamigos. Se entenderam muito bem. Na escala em Milo, a tripulao foi trocada. Cazuza se encantou perdidamente 
por uma aeromoa, que depois foi assistir ao show, e outro comissrio deu a ele de presente uma caixa de msica em forma de ma, que ele havia ganho da Liza Minnelli. 
Cazuza nunca mais se separou de sua ma. Em Roma, ele e mame saram muito para visita todos os pontos histricos, a ponto de eu morrer de cimes. Sempre fui sua 
irm mais nova. Certa noite, ele ficou preso dormindo num camarote na rua em Roma e quase no conseguimos acord-lo. Outra noite, dormiu na casa de Srgio Bardotti, 
o autor dos Saltimancos. Nem me viu cantar, foi embora para o Rio porque tinha um show com o Baro Vermelho". 
      Na volta ao Brasil, Cazuza se percebeu terrivelmente envolvido com a idia de seguir seu prprio caminho, longe do Baro. Nem mesmo a vendagem tmida de 15 
mil cpias do segundo LP impediu Som Livre de abrir novamente as portas do estdio para o grupo gravar seu terceiro trabalho, em julho de 1984. A caminho do novo 
disco, um s pensamento parecia martelar em sua cabea. A dor no peito denunciava os sinais de seu medo em tomar uma deciso importante. A convivncia de Cazuza 
com seus companheiros do Baro havia chegado  beira de um irremedivel ataque de nervos. 
      
      
      
     Captulo 11
     O primeiro susto
      
      "Canibais de ns mesmos/
      At que a vida nos coma/...
      Por que a gente  assim?"
      Por que a gente  assim
      
      Ao ganhar seus primeiros cachs com o Baro, meu filho se sentiu novamente seguro para sair de casa. Reformamos um apartamento nosso na Rua Engenheiro Cortes 
Sigaud, no Alto Leblon, e Cazuza passou a viver ali. Com o sucesso do grupo, ele comeou a ganhar mais dinheiro e percebi que sua incorrigvel desorganizao poderia 
prejudic-lo - e bastante - na questo financeira. Havia motivos para minha preocupao. Certa vez, me entregou ,um cheque de 250 cruzeiros para pagar uma conta 
de luz de 5. "Fique com o troco", disse. Eu no imaginava, por exemplo, como ele conseguia viajar e fazer shows sem nenhum documento. Tambm queria de qualquer maneira 
me dar de presente um carto de crdito para que eu gastasse  vontade  sua custa, o que no aceitei. 
      Ento, me ofereci para tomar conta de tudo: 
      - Meu filho, eu juro que no me meto na tua vida. Voc faa o que quiser, mas eu me prontifico a colocar suas finanas em ordem. 
      E assim foi feito at o fim. Providenciei carteira de trabalho, registro na Ordem dos Msicos, CPF, aplicaes e, at mesmo, controlei o canhoto de seus tales 
de cheque. Para meu descontrole, Cazuza tinha a peculiaridade de no preencher os canhotos dos cheques, s anotando aqueles que sabia que iriam me horrorizar: p! 
maconha! Mas eu agentava firme, no dizia nada como prometido. Queria cumprir a minha palavra e suas finanas controlava pelos extratos do banco. Cazuza no queria 
saber de nada, s de gastar. Mesmo assim, no primeiro ano do Baro, ele conseguiu comprar seu primeiro apartamento: um quarto-e-sala em Copacabana onde mora at 
hoje Ezequiel Neves. 
      Um belo dia, acabou um de seus tales de cheque e ele aparece l em casa. Eu no estava. Revirou tudo, no encontrou o talo e ficou furioso. Quando ia saindo, 
Tereza, a nossa fiel secretria domstica, perguntou se ele no queria deixar nenhum recado para mim. Ele disse, sim: 
      - Manda ela tomar no cu!!! 
      Tereza jamais me escondeu nada sobre Cazuza. Todas as suas barbaridades, mesmo as mais cabeludas, ela me contava. Fiquei bastante magoada com meu filho por 
causa do episdio e no lhe telefonei mais. Semana depois, ele ligou de um orelho, como se nada tivesse acontecido: 
      - Me, quebra um galho para mim? Estou indo para Belo Horizonte e furou o pneu do carro no tnel Rebouas. Voc pode me ajudar? O que voc est fazendo? 
      - Estou fazendo o que voc me mandou fazer h uma semana, Cazuza. 
      - Me, no gosto desse tipo de brincadeira. O que  isso, est querendo me provocar? 
      - No, Cazuza, s estou fazendo o que voc mandou. 
      - Me, me perdoa, pelo amor de Deus. Me perdoa. Eu preciso ir para o Santos Dumont. Vem pegar meu carro, por favor? 
      
       claro que fui at l, reboquei e guardei o carro na garagem. O sucesso finalmente havia chegado para Cazuza e o Baro Vermelho. As duas apresentaes no
Rock'n'Rio, em janeiro de 1985, tiveram enorme repercusso. Na primeira, dia 15, dividiram a noite com Gilberto Gil, Blitz, Nina Hagen, Yes e B'52. E, no dia 20,
com Dusek, Kid Abelha, AC/DC e Scorpius. Durante essas duas apresentaes foi gravado o disco Baro Vermelho Ao Vivo. No palco do Rock'n'Rio, para comunicar ao pblico
que Tancredo Neves havia sido eleito o novo presidente do Brasil, pelo Congresso Nacional, Cazuza se enrolou na bandeira brasileira e, ao encerrar o show com Pro
Dia Nascer Feliz, se despediu de uma platia em delrio com o Baro e o novo presidente, desejando:
      - Que o dia nasa lindo para todo mundo amanh. Um Brasil novo. Uma rapaziada esperta!!!

      Cazuza e Baro Vermelho. Alis, assim mesmo, nessa ordem,  que a mdia passou a se referir ao grupo. Era evidente a aura prpria que meu filho exibia, mesmo
dividindo a cena com seus companheiros. Do seu ponto de vista, ele dizia se sentir cansado de seguir as regras da banda, de limitar seu trabalho de composio ao
estilo do grupo e, mais ainda, de suportar dividir. Acostumado, desde que nasceu, a ser o nico dono de seu territrio, Cazuza tinha uma enorme dificuldade em compartilhar. 
Alm disso, suas bebedeiras e loucuras passaram a incomodar e bastante os outros bares, at mesmo seu amigo Frejat. Numa apresentao em Curitiba, durante a turn 
de lanamento de Maior Abandonado, Frejat chegou ao seu limite, como conta: 
      "O Zeca andava dizendo, na frente do Cazuza: tem gente que no gosta de ser feliz! Porque quando comeamos a ganhar dinheiro, a fazer bons shows e tudo estava 
caminhando bem, ele encanava. Cazuza tinha a carncia do artista sofredor, do artista louco. Gostava de alimentar esse fetiche. No decorrer dessa turn, ele comeou 
a encrencar, ora com um, ora com outro. Zeca tambm fez um comentrio sobre o canho de luz. Foi a sentena de morte do operador. Cazuza passou a dizer improprios 
ao rapaz, fazia escndalos. E durante o show de Curitiba, ele saiu do palco, sentou no camarim e disse: com essa luz eu no fao o show. Ele no tinha realmente 
a menor noo da parte administrativa de uma turn, a burocracia do grupo sempre ficou sob minha responsabilidade. O Mrio, nosso empresrio, o convenceu ento a
voltar ao palco, mas logo adiante Cazuza jogou o pedestal do microfone em cima da minha guitarra. Fiquei muito bravo. Alis, todo o grupo estava com bronca dele
e eu ficava no meio dessa relao. No deixava ningum se aproximar do Cazuza para dizer qualquer coisa, preferia fazer a intermediao. Mas, quando o show terminou, 
perdi as estribeiras. Fui tirar satisfaes e disse: devia te dar uma porrada na cara! Ele me empurrou, levantou a cabea me desafiando e falou: ento vem!!! Eu 
no podia bater a cara dele, isso no se faz,  um cdigo entre irmos, que brigam, brigam, mas no se batem na cara. Ento, o empurrei e lhe dei um chute antes 
da turma do deixa disso nos apartar. Cazuza era muito ferino quando queria esculhambar algum. Ele destrua mesmo. Depois da briga, tnhamos ainda mais dois shows 
para fazer no Sul, Cazuza alegou ser um profissional e prometeu cumprir sua tarefa. Foram dois shows horrorosos, em Londrina e Maring. O clima ficou tenso, insuportvel. 
Ao voltar para o Rio no nos falamos mais, at o dia do meu aniversrio, quando Zeca perguntou se podia levar Cazuza  festa em minha casa. Quando abri a porta, 
ele estava ajoelhado e entrou escorregando pela sala at se abraar nas pernas e meu pai e dizer: Frejazo, meu sogro!!! Cazuza era uma figura! Na mesma hora, tudo 
passou. Nesse dia tivemos uma conversa, quando lhe perguntei se ainda queria ficar no grupo, porque do jeito que a situao estava, no era mais possvel. Mas Cazuza 
disse que no. Falou que no queria sair do Baro". 
      
      Certamente, quando disse isso a Frejat, Cazuza sofria com o tormento de j saber o fim dessa histria. Para suportar a idia de tomar uma deciso e abandonar 
o grupo com quem comeou a carreira, meu filho bebia e se drogava. s vezes, a situao ficava incontrolvel, como no show de Fortaleza, no comeo de 1985, para 
um ginsio lotado. No meio do show Cazuza foi atingido na testa por um cubo de gelo. Perdeu o controle e comeou a vociferar contra o pblico aos palavres. Debaixo 
de gritaria ele deixou o palco e jurou que no voltaria mais. Depois de uma negociao de Frejat com a segurana do ginsio, o show foi encerrado e o tumulto que 
se previa felizmente no aconteceu. Houve, tambm, o episdio da entrevista coletiva em So Paulo. O grupo todo deveria sair do Aeroporto Santos Dumont pela manh 
para embarcar na ponte-area. Cazuza no apareceu. Com pavor por avies e a enorme dificuldade para acordar, ele no apareceu mesmo. O Baro embarcou sem ele. Mas, 
diante da ausncia de Cazuza, a entrevista foi cancelada. Recebi um telefonema de Frejat, se queixando bastante de meu filho. Deixei que falasse tudo o que queria 
e lhe disse sem rodeios: 
      - Voc tem toda a razo. Por que no o expulsam do Baro? 
      - No, Lucinha, isso no queremos! 
      - Ento, Frejat, voc tem que entender que as pessoas no tm s o lado bom. Aprenda isso. As pessoas tm o lado bom e o ruim tambm. O lado ruim de meu filho 
 esse: ele no gosta de andar de avio,  irresponsvel e maluco. Mas, ao mesmo tempo,  a figura preeminente desse grupo. Voc acha que, se ele no conhecesse 
o Guto e o Ezequiel, vocs encontrariam as portas abertas para gravar?  claro que voc faz as msicas, mas e se no fosse ele que escrevesse as letras? No sei 
se vocs teriam chegado at aqui sem ele. Isso  o que eu penso. Ento, se Cazuza  indispensvel no Baro, agentem seus defeitos!!! 
      Soube depois, por Ezequiel, que Frejat achou que eu fui muito dura com ele. Talvez tenha sido, mas no menti. Fui absolutamente sincera. Era exatamente o que 
eu pensava e acredito que Frejat tenha compreendido isso mais tarde. O pressentimento de todos no inclua um final feliz para essa histria toda de Cazuza com o 
Baro Vermelho. Zeca se lembra de um show em Manaus, quando ele conversava anima e bebia usque com Cazuza no quarto. Ao serem surpreendidos pelo tilintar do telefone, 
se deram conta de que havia chegado a hora de descer e sair para o show. Cazuza, com toda a frustrao do mundo, resumiu a Zeca o seu sentimento naquela fase difcil: 
      - Zeca, por que voc inventou tudo isso? Agora eu sou cantor e vou ter que parar de beber, parar com esse papo gostoso e ir l. Por que voc foi inventar isso?
      
      A relao de Ezequiel Neves e meu filho no se limitava s loucuras e bebedeiras. Zeca o estimulava culturalmente, lhe apresentando livros e autores que ele 
ainda no conhecia, msicas que lhe passaram despercebidas e, mais do que tudo, os dois se afinavam por ter uma antena plugada no mundo e em seus movimentos, que 
vibrava no mesmo tom. A situao de Zeca, nos meses que antecederam ao rompimento final de Cazuza com o Baro, era difcil. Zeca no queria que a banda acabasse 
e, ao mesmo tempo, compreendia o lado de Cazuza e jamais o abandonaria, fosse qual fosse a sua deciso. Nessa gangorra de emoes, a verdade  que meu filho no 
sabia o que fazer e sua atitude s se manifestaria num momento de rompante. 
      A vendagem do disco Maior Abandonado superou no s as expectativas como tambm ofuscou o passado de ninharia nas vendas dos dois trabalhos anteriores. Foram 
10O mil exemplares que renderam ao Baro Vermelho o disco de ouro. Depois de receb-lo, Cazuza foi para casa com Zeca. Na garagem, jogou com toda sua fria o disco 
de ouro no cho, que se partiu. Zeca: 
      "Ele se deu conta que o disco de ouro no era s seu. Era tambm de Frejat, de Maurcio, Guto e D". 
      
      Talvez tenha sido este o gesto simblico de seu limite. No dia anterior  reunio para renovar o contrato do Baro e acertar as datas de estdio para a gravao 
do quarto disco do grupo, Cazuza confessou a Ezequiel que estava fora. Havia decidido se despedir do grupo, antes que sofresse mais uma vez no estdio e embarcasse 
num projeto que o iria deixar mais insatisfeito ainda. Zeca exigiu, ento, que ele fosse pessoalmente  reunio e comunicasse sua deciso a todos. s duas e meia, 
Zeca passou para pegar Cazuza em casa. Ele j estava acordado. 
      - Vamos l, Cazuza, falar para todos que voc saiu do grupo!!! 
      - Mas, Zeca, no sei, como  que os meninos vo ficar? O que ser deles? 
      Zeca, cansado de tudo aquilo, lhe falou com sinceridade: 
      - Eu no agento mais, Cazuza. Rock'n'roll, para mim, tem que ser uma vibrao de todo mundo junto. Est insuportvel, no d para continuar. Agora, tem o 
seguinte, Cazuza, no se esquea de que esse grupo de rock  muito bom e de que no  justo eu tomar partido e ficar s do seu lado para depois voc ficar me espezinhando!!! 
No posso largar um grupo bom como esse. 
      
      Cazuza entendeu e Ezequiel continuou o grande amigo de meu filho, que sempre foi e, at hoje,  produtor do Baro Vermelho. Saram juntos para a reunio da 
Som Livre e ali Cazuza disse a todos que estava pensando seriamente em seguir a carreira solo. Ali mesmo se decidiu dividir o repertrio e todos deixaram a reunio 
e saram contratados pela Som Livre - Cazuza de um lado e Baro Vermelho de outro. 
      Embora o desfecho fosse praticamente inevitvel, os meninos do Baro no gostaram nada da atitude de Cazuza. Especialmente Frejat, que se sentiu completamente 
trado por seu parceiro e amigo: 
      "Ele no me preparou para isso. J havamos decidido o repertrio do prximo disco e todos ficaram bastante decepcionados. Era como se tivssemos sido (maiores) 
abandonados no meio do caminho". 
      
      A deciso estava tomada e, por tudo o que aconteceu depois, acredito que foi a mais acertada. Desde os ltimos shows com o Baro, Cazuza no se sentia muito 
bem. Tinha febres dirias, todas as tardes, como uma malariazinha que vem e passa. Uma semana depois do rompimento com o Baro, Cazuza foi internado no Hospital 
So Lucas com 42 graus de febre. Tudo comeou dois dias antes, quando ele me ligou dizendo no estar nada bem, a febre havia aumentado e disse que, por isso, gostaria 
de passar uns dias l em casa. Na manh de 31 de julho de 1985, precisei sair, dar um pulo na delegacia para resolver um problema de um carro roubado recentemente 
e, quando voltei, o circo estava armado. Em minha ausncia, a febre de Cazuza passou dos 40. Ele sofreu convulses incontrolveis. Diante das empregadas aflitas, 
dava saltos na cama. Tereza ligou para o Joo, que veio correndo para casa j trazendo o mdico. Era preciso fazer uma srie de exames e o procedimento mais correto 
seria intern-lo. 
      Alugamos dois quartos no Hospital So Lucas, em Copacabana, e ali permanecemos por onze dias. O primeiro diagnstico revelou uma mononucleose. Mas depois foi 
retificado para infeco bacteriana causada pelo Streptococus viridans, um vrus vagabundo que se instala nos pulmes. 
      Cazuza pediu ao doutor Roberto Luzes, assistente do doutor Abdon Issa, mdico da famlia h anos, que lhe fizesse um teste de para detectar o vrus hiv. Essa 
sombra, certamente, j rondava sua cabea, mas no a minha. O resultado do teste foi negativo. Pela primeira vez, a palavra aids foi pronunciada entre ns. Com o 
resultado do teste nas mos afastei a terrvel, e at ento remota, possibilidade de Cazuza estar com um problema de sade mais srio do que eu queria acreditar. 
De qualquer maneira, um clima de euforia passou a reinar no ambiente. As festas eram dirias na sute do So Lucas. Amigos entrando e saindo. Zeca sempre ali, inclusive 
quando os beija-flores que voavam pelos jardins do hospital inspiraram meu filho a criar uma de suas mais delicadas e belas canes: Codinome Beija-Flor. Colocamos 
gua com acar nos recipientes prprios para que os passarinhos exibissem seu bailado encantador na janela. Zeca e Cazuza fizeram juntos a letra e deram para Ronaldo 
Arias musicar Codinome Beija-Flor. Nenhum de seus ex-companheiros de Baro Vermelho apareceu no hospital, embora Frejat tenha me telefonado para saber notcias. 
Meu filho ficou triste e magoado. 
      Embora no deixasse transparecer, Joo se abalou bastante com essa primeira intemao de Cazuza, aos 27 anos, como contou tempos depois: 
      "Foi a primeira vez na vida em que ouvi a palavra aids. Nessa poca saiu uma matria na Veja falando sobre o assunto, em que foi publicada uma foto de Cazuza 
no hospital (no sei como conseguiram). No sabia que doena era essa, mas o doutor Issa, que era mdico da famlia, estava viajando. E Cazuza foi atendido por seu 
assistente. Fiquei um pouco inseguro com o diagnstico e, por isso, chamei o doutor Clementino Fraga, que, muito gentil, fez uma visita a Cazuza no So Lucas. Depois 
de examin-lo, disse: seu filho teve uma infeco muito grave!! Mas no me explicou o que motivara a 'tamanha gravidade' de que falava. Mas o que fao, o que devo 
fazer? Ele no me disse nada concreto, apenas que era grave". 
      
      Com um aperto enorme no corao, meu marido acabou participando das celebraes no quarto do So Lucas. Quando recebeu alta, Cazuza quis ir direto para sua 
casa, no Jquei, em vez de passar alguns dias em nossa casa. No houve argumento que o convencesse. Estava decidido a tocar a vida adiante, com muitos planos para 
seu primeiro disco sem a companhia do Baro Vermelho. Havia chegado o momento de investir na carreira. 
      
      No entanto, Joo no conseguia esquecer a advertncia do doutor Clementino Fraga e, no querendo - talvez no podendo - dividir comigo seus temores, marcou 
um encontro com seu grande amigo Jos Luiz Ferraz, dono do restaurante People, no Leblon, onde aconteceu o episdio, que Joo relembra: 
      "Sou uma pessoa bastante contida, fechada, mas depois dessa internao de meu filho, algo me incomodou profundamente. Refleti depois que isso s tinha algum 
fundamento porque a relao de sangue entre pai e filho  realmente muito forte. Sentia um pressentimento qualquer quando liguei para Jos Luiz Ferraz em busca de 
conversa. Foi um dos amigos mais queridos que j tive, um pouco mais velho do que eu, mais irmo do que meus prprios irmos, um homem que tinha o mesmo olhar para 
o carnaval, para um enterro ou um batizado. Falava pouco, mas as duas ou trs palavras que pronunciava o transformavam num guru. Ele reuniu mais quatro amigos e 
naquela noite chorei feito criana. Uma crise que deixou todos perplexos. At hoje no consegui chorar a morte de meu filho, mas naquela ocasio, talvez por me sentir 
impotente diante do desconhecido da falta de explicaes para a gravidade do estado de meu filho, no pude me controlar". 
      
      Nas semanas seguintes  sua internao, Cazuza chegou a dizer a Ezequiel que pressentia saber que ainda iria morrer de aids. Mas o amigo lhe respondeu ao seu 
estilo rascante e peculiar: 
      - Voc  muito pretensioso, Cazuza. Voc no est com aids porque no  promscuo!!! 
      A eterna briga entre o bem e o mal. Meu filho viveu nessa balana por toda a sua vida. Certamente, pela coragem e f que demonstrou em todo o perodo de seu 
martrio, Cazuza no queria ficar doente, mas viver  beira do abismo era uma terrvel tentao. Embora Ezequiel estivesse notando que sua resistncia  bebida e 
s drogas j no era a mesma de antes, a cada noite, um turbilho de sentimentos rondava o compotamento de Cazuza. 
      O repertrio que havia sido preparado para o quarto disco do Baro foi repartido quando se deu a separao. Cazuza e Zeca resolveram chamar, ento, Nico Resende 
para ajudar na produo do disco. As canes eram timas, a principal delas e que identificaria seu primeiro solo, Exagerado, parceria com Leoni e Zeca. Cazuza confessou 
depois que fez a letra pensando em Ezequiel Neves, mas no fundo servia direitinho para defini-lo. O disco foi lanado em novembro de 1985. 
      Depois de sua foto publicada na revista Veja e mesmo negando a doena, as especulaes sobre o verdadeiro estado de sade de Cazuza se intensificaram. Em janeiro 
de 1986, em entrevista  jornalista Mnica Figueiredo, ele negou e ainda filosofou sobre a doena, que j se desconfiava t-lo atingido: 
      "Em primeiro lugar, no agento mais ouvir falar nesse assunto. Uma chatice! Eu acho o seguinte: todo mundo, hoje em dia, que tem febre ou dor de cabea, j 
acha que est com aids. O bombardeio de informaes  enorme, ok, tem que falar,  claro. Mas a a parania  enorme tambm. Voc quer saber mesmo o que eu acho? 
Eu tive uma 'baronite' aguda. A aids  um compl contra sacanagem e eu no admito abandonar a sacanagem, em hiptese alguma. Isso  coisa do Papa e do Reagan contra 
a sacanagem. Mas passarinho que come pedra sabe, no ? Eu no vou ter aids". 
      
      
      
     Captulo 12
     A revelao: choque e pavor
      
      "No posso causar mal nenhum,
      a no ser a mim mesmo"
      Mal nenhum
      
      
      No sei se pela conscincia da solido, ou pela dor de poeta que carregava em seu peito, a verdade  que meu filho nunca desejou servir de exemplo para ningum. 
Tinha verdadeiro pavor em ser reconhecido como um "guru" e, tambm, de aglutinar seguidores quando se discutia o seu modo de vida. Em entrevistas declarou, vrias 
vezes, que no aconselhava ningum a segui-lo, nem mesmo um cachorro de rua. Jamais me esqueci de sua inflamada preleo, numa conversa incidental sobre drogas: 
      - Me, nunca se aproxime de droga nenhuma! Voc  muito compulsiva, vai gostar e cair de boca no vcio. 
      
      Tambm manifestava suas cenas de cimes com total veemncia. Tinha por hbito reclamar que, toda vez que levava seus amigos em casa, Joo se trancava no quarto 
e no aparecia nunca. 
      - Papai, voc acha que meus amigos tm lepra? 
      
      Uma dessas noites, Joo resolveu ficar: 
      "Cazuza apresentou seus amigos e, depois, passei a conversar com uma moa. Ele encostou perto e disse: est metido a jovenzinho agora? Ficou muito bravo. Em 
outra ocasio, numa boate, encontrei outra moa, que havia trabalhado na produo de uma capa de disco para a Som Livre. Estvamos conversando quando Cazuza chegou 
perto, ficou olhando e soltou: menina, circulando, circulando! Ele era ciumento demais!!!" 
      
      Meu filho nunca escondeu seus sentimentos de posse e controle, em relao a mim e a Joo. Numa de suas apresentaes em So Paulo, fui com ele a uma boate 
da moda, nos anos 80, Madame Sat, um lugar que atraa um pblico extico e liberado. Depois da estranheza inicial, comecei a me enturmar e at a ficar mais animada, 
Cazuza teve um ataque repentino: 
      - Mame, vou te levar para o hotel. Aqui no  lugar para voc!!! 
      
      Em 1986, aos 28 anos, ele se comportava como um homem na noite, experiente. Com sua simpatia atvica por todos os marginalizados, continuava considerando o 
mximo o comportamento de todos os transgressores, mas no permitia que sua me e nem seu pai se misturassem a eles. A capacidade de perdoar e esquecer de Cazuza 
se manifestava na mesma intensidade de seus dios momentneos. Nesse ponto, acho que puxou a mim. Um exemplo foi seu reencontro com os meninos do Baro Vermelho, 
alguns meses depois do rompimento. Cazuza e Baro foram convidados para gravar um Globo de Ouro, na Rede Globo. Cazuza e Frejat, desde a sada de meu filho do grupo, 
tambm haviam interrompido a parceria. O auditrio do Teatro Fnix estava vazio, alguns funcionrios montavam a luz, o ambiente era calmo, e quando Cazuza, Frejat, 
Maurcio, Guto e D se viram frente a frente, tudo passou. Frejat fonta como foi: 
      "Nos abraamos com fora, confessamos a saudade mtua e no trocamos uma palavra sequer sobre a sua sada do Baro. Tambm no falamos nada do fato de nenhum 
de ns ter ido visit-lo no hospital. Acho que o resto do grupo nem o procurou para saber notcias - eu  que informava a eles sobre o estado do Cazuza e o Ezequiel 
tambm. Depois desse reencontro, tudo ficou melhor entre ns e nossos encontros passaram a representar s diverso, sem a presso do trabalho em grupo. As vezes, 
quando coincidia de irmos  mesma festa, ficvamos juntos o tempo todo, deixando at as pessoas intrigadas. U, eles no esto brigados? Tenho a impresso, tambm, 
que nossa parceria melhorou. No s ele como eu estvamos compondo com outros parceiros, mas fizemos muitas msicas boas nesse perodo, como Ideologia e Blues da 
Piedade". 
      Tambm  de parceria com Frejat a msica S as Mes So Felizes, que ouvi pela primeira vez, antes de ter sido gravada, durante uma apresentao de meu filho, 
no projeto Alternativa Nativa, que aconteceu no Caneco. Estava numa mesa com Ney Matogrosso e alguns amigos quando, mais uma vez, levei um susto imenso. Pelo ttulo 
da cano, eu imaginei ter sido composta em homenagem a todas as mes e tambm em minha homenagem. Mas cada verso era como uma bofetada. Com os olhos arregalados, 
eu olhava para o Ney, apertava a sua mo lhe mostrando em meu semblante no estar entendendo nada: 
      
      "Voc nunca sonhou /
      Ser currada por animais / 
      Nem transou com cadveres?  /
      Nunca traiu seu melhor amigo /
      Nem quis comer a sua me? 
      S as mes so felizes..." 
      
      Parecia que todos os olhos de todo o Caneco estavam voltados para mim. Ney Matogrosso disse para eu no ficar nervosa, que a letra era uma imagem, que nada 
tinha a ver comigo, enquanto eu tentava lhe explicar que Cazuza era muito querido, no era um maior abandonado. Que ingenuidade a minha! Perguntei ao Ezequiel o 
real significado daqueles versos. Ele explicou e me acalmei. Nunca toquei nesse assunto com Cazuza porque, diante de algumas perguntas minhas, ele costumava me chamar 
de burra e eu no queria dar a ele esse gostinho. Em fevereiro de 1986, o prprio Cazuza explicou, numa entrevista ao Jornal da Bahia, o que tratava a letra da cano: 
      "Essa msica foi feita a partir de um verso de Jack Kerouac, uma frase de um poema dele que me deixou muito intrigado. A frase  muito radical: 'S as mes 
so felizes'. Dita desse modo parece que ningum mais . Eu usei a frase como brincadeira, porque na verdade a msica  uma homenagem a todos os poetas malditos. 
As pessoas que, de certa forma, vivem o lado escuro da vida, o outro lado da meia-noite. Eu quis fazer uma homenagem a esse tipo de poeta, de cantor, aos loucos 
da vida. Gente que barbariza, que  santo e demnio ao mesmo tempo. Ento ficou como uma homenagem a esses caras. Minha citao de Kerouac  igual como quando cito 
Allen Ginsberg, Melodia, Lou Reed e outros, que no lembro agora. O Kerouac est presente apenas nessa frase - s as mes so felizes -, que nem est na msica. 
Canto apenas no final, como uma brincadeira, para dar razo ao ttulo. Mostrar esses poetas  sofisticado, o grande pblico talvez nem entenda, mas quem curte esse 
tipo de poesia vai sacar". 
      
      Eu entendi o recado. Quando estreou a novela Mandala, de Dias Gomes, em outubro de 1987 (no ar at maio de 1988), o Jornal do Brasil fez uma matria na primeira 
pgina do Caderno B sobre Jocastas e dipos. Os entrevistados eram Tnia Carrero e seu filho Cecil Thir, eu e Cazuza. A reprter perguntou se eu me sentia uma Jocasta. 
Respondi  pergunta com a maior seriedade. "Claro que no me sinto uma Jocasta. Meu relacionamento com Cazuza  muito saudvel." Qual no foi minha surpresa ao ler 
a matria publicada, com as inacreditveis declaraes de meu filho sobre o assunto. "Eu gostaria de transar com minha me e com meu pai tambm. Eles so muito gostosos. 
Mas eu gosto mesmo  de broto, eles esto passados", declarava, entre outros improprios. 
      - Cazuza, voc no regula bem. Como foi dizer esses absurdos no jornal? 
      Ele me respondeu, na maior calma e simplicidade, que eu  que errada. Que, diante de uma pergunta ridcula como aquela, eu jamais poderia ter respondido com 
uma frase sria. 
      - Voc tem que horrorizar. Deveria ter respondido: sim, quero roer meu filho, de garfo e faca!!! 
      
      De qualquer maneira, o apelido pegou. Alguns amigos, como o escritor e novelista Gilberto Braga, passaram a me chamar de Jocasta sempre que nos encontrvamos 
e a imprensa vrias vezes se referiu a mim agregando o novo apelido ao nome.  
      
      O primeiro show solo de Cazuza aconteceu no Morro da Urca, m 17 de janeiro de 1986. Pouco tempo depois do lanamento de Exagerado, a Som Livre mudou sua filosofia
e encerrou o cast de artistas. Era chegado o momento de Cazuza mudar de gravadora. Pediu ajuda ao pai para orient-lo na deciso - escolher a melhor alternativa, 
entre as propostas recebidas. Gostava de dizer que estava "em leilo", queria ver quem dava melhores condies para o seu trabalho e seu pai  quem deveria decidir. 
Finalmente, a Polygram foi escolhida e, por esta gravadora, saiu o segundo disco solo de Cazuza, S Se For a Dois. A fita j estava pronta, a Polygram s prensou 
e distribuiu. O disco foi produzido por Ezequiel Neves e Jorge Guimares. 
      Cazuza queria arrasar no show de lanamento de S Se For a Dois e, por isso, acabou selando um pacto com os empresrios Rosa e Mrio Almeida. O custo da produo 
era alto e a pequena platia do Teatro Ipanema certamente no garantiria a eles o retorno do investimento. Mas Cazuza no queria saber de economizar. Ento, acertou 
com os empresrios que, no caso de um possvel prejuzo, ele deveria ser dividido ao meio. 
      O show, realmente, era muito bom. Mas, como se temia, ao final da temporada de duas semanas, se Rosa e Mrio tivessem que ar sua parte do prejuzo, seriam 
obrigados a vender o carro. Cazuza no permitiu que isso acontecesse, de maneira alguma. Acreditava que s empresrios haviam sido muito corretos com ele em todo 
o tempo de trabalho e que no seria justo venderem o carro para pagar parte do prejuzo. Utilizou o dinheiro que havia recebido no contrato com a Polygram para assumir 
a dvida sozinho. Sequer aceitou cumprir o pacto que havia feito com Rosa e Mrio Almeida. O resultado do disco e do show para a carreira de Cazuza foi bastante 
positivo. A partir desses dois trabalhos ele viveria o momento de maior sucesso e prestgio na vida. Seu corao estava cheio de esperana e vontade de produzir. 
Inspirado, escrevia furiosamente e, ao mesmo tempo, levava a vida de bomia de sempre. 
      Um ms antes da estria do show S Se For a Dois, Cazuza me alertou para sua sade - reclamou no estar se sentindo muito bem. Por isso, fez uma consulta com 
o doutor Abdon Issa, que o examinou e lhe pediu um exame especfico. Perguntei quais haviam sido as recomendaes mdicas, mas meu filho disse apenas: maneirar. 
Eu sabia que ele jamais faria isso, como confirmou com suas prprias palavras em seguida: 
      - No vou maneirar nada. Isso  uma virose boba. Vou me curar logo! 
      
      s vsperas da estria no Teatro Ipanema, recebemos um telefonema do doutor Abdon Issa, dizendo que precisava conversar comigo e com Joo. O resultado do exame 
que fez em Cazuza estava pronto. Ele pediu que fssemos ao seu consultrio na Clnica So Vicente, pois o assunto era srio e grave. Nem mesmo diante de nossa aflio 
doutor Issa nos adiantou nada, nenhuma pista. J se haviam passado dois anos desde que meu filho fora internado pela primeira vez no So Lucas. O fantasma da doena 
havia se dissipado quase que por completo da minha cabea, embora os amigos de Cazuza notassem que ele andava debilitado nos ltimos tempos. 
      No dia seguinte ao telefonema, fomos, eu e Joo, ao consultrio do doutor Issa com o corao apertado. O encontro foi marcado para as onze da manh do dia 
26 de abril de 1987 e Joo imaginava que o doutor Issa iria repetir o mesmo discurso feito pelo mdico Clementino Fraga. Cazuza tinha alguma coisa grave, mas no 
se sabia o qu. Dessa vez, a histria seria diferente. Quando o doutor Issa pronunciou as palavras que mudariam nossas vidas para sempre, eu e meu marido sentimos 
o mesmo impacto, talvez compatvel  bala de um canho arrebentando nossas entranhas: 
      - Seu filho foi tocado pela aids! 
      
      Aturdida, com um zumbido nos ouvidos, no queria mesmo entender o real significado do que o mdico dissera. Enquanto Joo questionava o doutor Issa, meu estmago 
dava voltas como numa roda-gigante. Eu sabia muito bem o desfecho de todos os casos conhecidos da doena e imaginava o futuro de meu filho. Pensei que nenhum de 
ns teria foras para suportar. 
      Deixamos o consultrio como zumbis, a dor da angstia machucando o peito: aos trinta anos de casamento, um casal com um filho nico e especial, diante da possibilidade 
de perd-lo. Nunca aceitamos a idia da fatalidade e lutamos at o fim, na esperana de que nosso filho sobrevivesse. Pedimos ao doutor Issa que desse ele mesmo 
a notcia a Cazuza, pois meu filho no o perdoaria jamais por ter nos contado antes. Ezequiel soube por ns, e lhe pedimos para acompanhar Cazuza ao consultrio, 
para estar a seu lado no momento da revelao. 
      O drama de Ezequiel era duplo. Convivendo diariamente com Cazuza, ele no podia revelar o segredo, nem mesmo comentar com ningum, antes que meu filho tomasse 
a iniciativa de procurar o mdico. Numa das noites depois do ensaio, estava com Cazuza em casa a jantar e testemunhou uma cena com Joo. Meu filho se servia de a 
dose tripla de usque, quando o pai lhe perguntou, apavorado: 
      - Mas voc vai beber? 
      Embora consciente de que Cazuza ainda no sabia de nada, Joo quase se denunciou com a pergunta. Meu filho no entendeu nada, pois seu pai nunca havia implicado 
com sua bebida e muito menos e chamado a ateno. 
      - O que  isso, papai? 
      Tentamos voltar  normalidade. Ezequiel conta: 
      "Cazuza relutou muito em ir conversar com o mdico. Estava ensaiando o show e parecia ter um grave pressentimento. Tentei estimul-lo, argumentando que o resultado 
do teste seria negativo e que, a sim, ele faria o show tranqilo, longe das preocupaes". 
      
      Trs dias depois que enfrentamos a terrvel verdade, em 29 de abril de 1987, aos 29 anos, Cazuza finalmente resolveu ceder e foi ao consultrio do doutor Issa, 
ao lado de Ezequiel, que ficou na sala de espera. Cazuza no demorou muito. Saiu da sala dizendo ao doutor Issa: t bem, t bem, j sei! Ezequiel levantou correndo 
e foi ao encontro de meu filho, que j procurava a porta da sada. 
      - O que aconteceu, Cazuza? 
      - Estou doente! Vamos andar pela praia! 
      Eram seis e meia da tarde quando os dois sentaram num banco  beira-mar de Ipanema. Cazuza encostou a cabea no ombro de Zeca, comeou a chorar e disse apenas: 
      - Zeca, eu sei que todo homem que nasce morre um dia, mas eu no mereo isso! 
      Ezequiel, na poca com 51 anos, tinha um amor to grande por Cazuza que o tratava como a um neto: 
      - Meu netinho, o teste pode no estar certo. Temos que fazer outro. Temos que confirmar. 
      E, na tentativa de levantar seu moral e de lhe mostrar que a vida devia seguir em frente, Zeca props: 
      - Que tal a gente ir para o ensaio? Depois comemos alguma coisa l perto. 
      Mas Cazuza no quis. Pediu que Zeca avisasse Nico Resende, o produtor do disco, que ele no iria e depois falou: 
      - Zeca, eu vou para a casa dos meus pais, vou voltar para onde tudo comeou! 
      Como descrever aquele sentimento que nos envolveu os trs, pai, me e filho, na mais triste volta de Cazuza para nossa casa? Como se consola um filho que acaba 
de descobrir ser portador de uma doena fatal? Em que foras devemos nos agarrar em situaes de extrema carga emocional como aquela, quando olhei nos olhos de Cazuza 
e desejei trocar minha vida pela dele? Joo fez de tudo para que Cazuza no se entregasse  desesperana. 
      Estvamos no quarto quando ele chegou e nos abraou. E Joo, tocado por um sentimento de onipotncia que lhe surgiu na alma, fez um juramento to veemente 
ao filho que todos ns acabaramos nos agarrando a ele: 
      - Meu filho, voc no vai morrer porque eu no quero. No vou deixar voc morrer. Vou virar cus e terras, vou vender minha alma ao diabo, mas voc no morre. 
      Tentamos lhe explicar, didaticamente, que embora estivesse "tocado" pelo vrus hiv, ainda no havia desenvolvido a doena. E que contra as doenas ns poderamos 
lutar. Lembramos que o doutor Issa - que confessou o seu no conhecimento mdico sobre aids - nos havia indicado um centro mdico em Boston, onde as pesquisas sobre 
o vrus hiv estavam adiantadas. 
      No consegui controlar as lgrimas, um sacrifcio quase impossvel, mas pude dizer a meu filho qual seria, naquele momento, a maneira pela qual eu me oferecia 
para estar a seu lado em nossa dura caminhada daqui em diante: 
      
      - Cazuza, todas as vezes em que voc estiver sofrendo muito, pode descontar em mim do jeito que quiser. Pode jogar em cima de mim todo o dio que voc sentir 
do mundo. Eu seguro.  a nica coisa que posso fazer: dividir com voc esse sofrimento. 
      
      Realizei toda a catarse do choro convulsivo naquela noite em que Cazuza no voltou para sua casa e dormiu conosco, os trs na mesma cama. Mas jurei com todas 
as foras a mim mesma que essa cena jamais se repetiria. Eu nunca mais choraria por causa dessa doena na frente de meu filho. Disso, ao menos, eu poderia poup-lo. 
O lamento, no caso, no ajudaria em nada. Ao contrrio, faria com que ele se lembrasse a todo momento de que sua inteligncia no merecia ser aviltada com falsas 
esperanas. Todos ns conhecamos, naquela poca, o desfecho de um doente contaminado pelo vrus hiv, mas isso no queria dizer que o deixaramos entregue  prpria 
sorte. Havia sempre a possibilidade de a pesquisa cientfica se impor  indstria farmacutica e o mundo ser beneficiado com novas descobertas. No s eu como Joo
iramos at o fim do mundo se qualquer chance de cura viesse a surgir, fosse ela qual fosse. Da cincia de ponta  crendice popular.
      Cazuza encontrou a fora e o apoio necessrios para no parar a histria naquela encruzilhada em que a vida nos estacionou. O tempo no pra. E era urgente 
viver. Depois que a tum do show S Se For a Dois acabou, embarcamos para nossa primeira viagem a Boston, Estados Unidos. Ezequiel Neves foi conosco. 
      Estvamos no fim de maio de 1987. 
      
      

     Captulo 13
     Boston, estado crtico
      
      "Eu vi a cara da morte e ela estava viva"
      Boas novas
      
      Ainda aturdidos pelo soco no estmago que destino nos reservou e torcendo para que o primeiro mundo nos salvasse de um fatal diagnstico, embarcamos para Boston,
escala em Nova York. Duas pessoas no Brasil nos ajudaram nessa primeira viam, para que consegussemos ser atendidos pelo doutor Sheldon Wollff chefe da Clnica Mdica
do New England Medical Center e embro do Programa de Combate  Aids, institudo pelo governo dos Estados Unidos, e que nos fora indicado pelo doutor Abdon Issa.
Desembarcamos no vero americano de 1987, munidos de duas cartas de recomendao: uma, do jornalista Evandro Carlos de Andrade, que o conhecia, e outra, do doutor 
Ivo Pitanguy, amigo ntimo do doutor Wollff, que, muito atencioso, acompanhou de perto todas as internaes de Cazuza. 
      Nos hospedamos num hotel em Boston no mesmo dia da consulta. Ezequiel viajou conosco, mas na hora de sair para a consulta, Cazuza determinou: 
      - Voc e Zeca ficam no hotel. Vamos s eu e meu pai. No sou nenhuma criana! 
      Obedecemos e nos vimos diante de uma expectativa alucinante, uma mistura de medo e esperana. Minha sensao era a de ter chegado  beira de enfrentar uma
injustia inaceitvel. Por que meu filho? E, ainda por cima, num momento que poderia ser o melhor de toda a sua vida, o instante em que havia encontrado seu caminho
de sucesso. Quando ele e Joo voltaram do New England Medical Center e entraram no quarto, Cazuza parecia revoltado. Perguntei:
      - E a? 
      - E a o qu? O que voc queria? Que ele dissesse que eu no tenho aids? Tenho, sim, foi confirmado o diagnstico. 
      Novo soco no estmago. O doutor Sheldon Wollff no s atestou que Cazuza era portador do vrus hiv como fez as mesmas recomendaes de nosso mdico brasileiro. 
Era preciso se cuidar: boa alimentao, hbitos saudveis e um belo adeus  bebida e s drogas. Eu sabia muito bem que meu filho iria se rebelar contra isso. Joo, 
que conversou longamente com a equipe que examinou e fez os testes em Cazuza, relembra o que lhe disseram os mdicos americanos: 
      "Criamos uma expectativa muito grande quanto a esses primeiros exames em Boston. Mas o resultado no deixava porta aberta para a possibilidade de erro: os 
testes haviam passado por quinze laboratrios. Em 1987, nem mesmo nos Estados Unidos e nem mesmo a maior autoridade no assunto, o doutor Sheldon Wollff, tinham a 
menor idia do que era essa doena. S para se ter uma idia, as primeiras recomendaes foram no sentido de no se comer no mesmo prato que o doente, no usar as 
mesmas roupas, no beijar. Todos os seus objetos de uso pessoal deveriam ser esterilizados. Eles realmente no tinham conhecimento do assunto, ainda".
      
      Deixamos Boston com uma certeza apenas: o organismo de Cazuza estava debilitado, porque o vrus destrua suas defesas e ainda no existia medicao capaz de 
controlar seu avano. O perigo estava nas chamadas doenas oportunistas. Por isso, insistimos muito para que Cazuza , voltasse a morar conosco. Ele no aceitou a 
idia em hiptese alguma. Queria um apartamento, uma cobertura com vista e uma piscina. Depois de muita procura, lembrei que uma amiga, Giddie Vasconcelos, era dona 
de uma cobertura na Lagoa, ao lado daquela em que havamos morado, e que estava fechada. Era enorme, com vista para o Cristo Redentor e uma bela piscina. Visitei 
o apartamento num sbado e minha amiga e seu ex-marido disseram que fariam qualquer negcio conosco. Minha vontade era a de que Cazuza se mudasse imediatamente para 
l, para aproveitar aquela paisagem maravilhosa e todo o conforto do lugar. Eu sabia, embora no aceitasse, que seu tempo era curto. Uma dor fulminante me sugava 
para o epicentro de um tornado, quando imaginava ser me de um filho que iria morrer!!! 
      Muitas vezes, perdia o meu olhar nele, pedindo aos cus uma fora sobrenatural que pudesse gravar aquela imagem para a eternidade. Cazuza no gostava nada 
desses meus devaneios: 
      - Mame, quer parar de olhar pra mim? Voc fica me olhando de um jeito que me constrange! 
      
      Levei Cazuza para conhecer o apartamento da Lagoa, depois de um show, s onze e meia da noite daquele mesmo sbado. Ele entrou, sentou e ficou admirando a 
vista. Parecia estar a bordo de um navio - ele no comando e a lagoa no seu horizonte, de ponta a ponta. 
      - Voc gostou? 
      - Eu no mereo.  bom demais para mim!  bom demais pra mim!!! 
      - Meu filho, voc merece muito mais do que isso. Voc merece o triplo. 
      
      Liguei para minha amiga Giddie. Ela queria 250 mil dlares e Cazuza tinha 60. Conversei com o Joo, que completou o restante e nosso filho jamais soube o real 
custo daquele apartamento. No final de semana ele viajou para novo show, quando aproveitei para fazer a mudana de seu apartamento do Jquei e coloquei tudo no lugar. 
Quando ele chegou de viagem na segunda-feira, a cama j estava prontinha para ele dormir, a geladeira cheia, a casa abastecida. 
      A compra do novo apartamento aconteceu em julho de 1987, i dois meses depois que Cazuza descobriu ser portador do vrus hiv. Como eu previa, ele nem sequer 
levou em considerao as advertncias do doutor Sheldon Wollff. Ao contrrio, no deixava de fazer nada do que queria. Depois de uma apresentao do Baro Vermelho, 
Cazuza inaugurou o apartamento com uma festana para duzentos convidados. 
      Foi na casa nova que, em agosto desse mesmo ano de 1987, Cazuza reuniu os empresrios Rosa e Mrio Almeida, para um jantar de despedida. No sobravam mgoas 
daquele relacionamento de cinco anos. Eles sempre foram corretos com meu filho, que, naquele momento, antevia uma guinada em sua carreira e queria estar solto para 
novos vos. Nesse curto perodo, a vida de meu filho chegou perto do normal -  ele fazia shows, compunha e dava festas. 
      Mas no dia 6 de outubro de 1987 um novo pesadelo estava para comear. Mais uma vez um telefonema de Cazuza foi motivo de apreenso: uma gripe fortssima o 
estava incomodando bastante e ele queria ir para nossa casa. A febre subiu incontrolavelmente, o mdico foi chamado s pressas e Cazuza internado na Clnica So 
Vicente. O momento crtico foi contornado  base de fortes antibiticos, embora a febre prosseguisse firme, inabalvel. A equipe mdica no conseguia descobrir o 
que provocava a febre alta, de onde vinha a infeco. Foram absolutamente sinceros ao nos confessar sua ignorncia mdica sobre o vrus hiv. Nos dezoito dias de 
internao, Cazuza e Frejat trabalhavam todas as tardes numa nova cano. Sentavam-se na varanda, onde Cazuza gostava de tomar sol, banhos de mangueira e cantar. 
Talvez inspirado pelo incmodo que sentia a cada vez que um conhecido lhe abraava forte e sussurrava em seu ouvido: fora!, ou pelos olhares consternados que passou 
a detectar em vrias pessoas, Cazuza tenha escrito a letra de Blues da Piedade. Ele cantou a msica para mim e Zeca e tambm para sua vizinha de quarto, uma senhora 
bem velhinha que s apareceu no final, para aplaudir e confessar que havia adorado a cano. Seus versos falam de: 
      
      pessoas de alma bem pequena/ 
      gente que no muda quando  lua cheia/ 
      
      Pedem: 
      
      Piedade 
      Senhor, piedade pra essa gente careta e covarde/ 
      
      E propem: 
      
      cantar pras pessoas fracas/ 
      que esto no mundo e perderam a viagem/ 
      somos iguais em desgraa/ 
      piedade senhor pra esta gente/ 
      pra essa gente careta e covarde/ 
      lhes d grandeza e um pouco de coragem 
      
      Em 24 de outubro, uma segunda-feira pela manh, a equipe do doutor Issa esgotou todas as suas tentativas. A febre de Cazuza no baixava com nenhum dos antibiticos 
disponveis no Brasil. Foi quando nos aconselharam a lev-lo novamente aos Estados Unidos, onde talvez pudesse receber um tratamento mais adequado. Foi necessrio 
armar um esquema de emergncia. Todos os dias havia planto da imprensa na porta do hospital e, naquele momento, queramos evitar que Cazuza falasse abertamente 
sobre o assunto para proteg-lo de tudo, principalmente do preconceito. Fugimos, literalmente, da imprensa acampada na Clnica So Vicente. Deixamos o hospital s 
escondidas e com destinos diferentes: fui para casa fazer as malas, Joo para o escritrio providenciar a produo da viagem e Cazuza para a casa de minha irm Christina, 
no Leblon. Ali ficou at a hora do embarque, que aconteceu na noite do mesmo dia 24 de outubro. Fomos num grupo de Cazuza, Joo, eu, Ezequiel Neves e a doutora Teresa 
Calicchio, ente do doutor Abdon Issa. Na conexo em Nova York, Clara Davis, que vive nos Estados Unidos, se agregou ao grupo. Ao longo de toda a doena de Cazuza, 
Clara nos ajudou em tudo o que foi possvel, inclusive servindo como intrprete em nossas inmeras conversas com mdicos. Ali tambm, um episdio revelador me faria 
admirar a generosidade extrema e desinteressada de Cazuza. Espervamos a chamada para o embarque, quando um rabino passou mal e caiu no cho, ao lado da filha. Todos 
se afastaram, j que nos Estados Unidos as pessoas fogem desse tipo de situao, por temer o envolvimento com a justia. Cazuza correu para ajudar o velho rabino. 
Sentou-se no cho, colocou a cabea dele em suas pernas enquanto consolava a filha. O rabino j estava morto. Uma cena comovedora.
      Nos hospedamos no Hotel Copley Plaza, em Boston, e Cazuza voltou ao New England Medical Center. Vinte e quatro horas depois da internao identificaram um
fungo nos pulmes. Havia uma maneira de combat-lo atravs de um medicamento chamado Anfotericina, mas cujas reaes colaterais poderiam resultar terrveis, o que 
justificava o apelido do remdio entre os mdicos: anfoterrible. No havia o que discutir e as reaes foram mais do que terrveis. Cazuza tinha convulses violentas. 
Na cama, em desespero, se agarrava em meus braos e pedia em desespero: 
      - Mame, me ajuda. Pelo amor de Deus, me ajuda! 
      Ao presenciar sua primeira convulso, sa correndo pelo corredor pedindo ajuda. Esses estados alterados de meu filho duravam em mdia cinco minutos, que pareciam 
sculos extenuantes para todos os que lidavam com aquela situao de emergncia. Um dos mdicos j havia me alertado quanto  possibilidade de os pacientes em ps-convulso 
sofrerem uma perda temporria de memria. Numa das calmarias que se seguiram ao descontrole, Cazuza acordou com os olhos estranhos. Falou em tom dramtico: 
      - O que estou fazendo aqui? Que lugar e esse? Quem  voc? O que est fazendo no meu quarto? Diga! 
      Minhas lgrimas correram soltas e, definitivamente, entrei em desespero: 
      - Meu Deus, meu filho no me reconhece mais! Ele perdeu a memria!  
      Cazuza comeou a rir, numa gostosa gargalhada. Olhava para mim sem se conter: 
      - Mame, quer deixar de ser boba? Como no vou reconhecer a chata que pega no meu p todo dia? O minha passarinha, eu te amo! 
      "Passarinha" era o jeito como Joo me chamava e Cazuza adotou o apelido. Ambos sempre me chamaram assim. 
      Foi esse, certamente, o momento de maior descontrao dessa tensa temporada em Boston. Dez dias depois da internao, com Cazuza no CTI, dispensamos a assistente 
do doutor Issa que viera do Brasil nos acompanhando, pois ela praticamente no pde fazer nada por seu paciente. Joo sequer pestanejou para usar nosso patrimnio
no tratamento de Cazuza, cujos gastos foram monumentais. Mas o episdio com essa doutora nos magoou muito e pressentimos quantos outros mais teramos ainda que enfrentar
no futuro: ao apresentar a conta de seus vencimentos, ela recebeu mais do que todo o dinheiro gasto na internao de Cazuza no New England Medica! Center.

      No leito de seu quarto de hospital, Cazuza no conseguia suportar os efeitos colaterais da anfoterrible. Foi necessrio transferi-lo para o Centro de Terapia
Intensiva, o CTI. Passou ali onze dias, entre a vida e a morte. Em qualquer lugar do mundo  proibido aos acompanhantes permanecer no CTI. Mas essa regra no serviu 
para mim. Driblei um a um os impedimentos, a rigidez americana e seu intransigente respeito s regras. No sa do lado de meu filho: sentada numa cadeira ao lado 
de sua cama, dormindo no cho, eu sempre encontrava um jeito. Meu comportamento, aos olhos do hospital, se assemelhava ao de uma maluca, fora de controle. Eu os 
ameaava com improprios: podem chamar a polcia, podem trazer revlver, qualquer coisa, mas no saio daqui. s vezes ia descansar no corredor, mas os gritos desesperados 
de Cazuza me levavam de volta ao CTI: 
      - Mame, no me deixa sozinho!! 
      - No vou deixar, meu filho. Eu fico aqui de qualquer maneira! 
      As visitas permitidas duravam quinze minutos a cada hora. Era quando Joo e Zeca entravam para v-lo. Ezequiel no se rebelou contra nenhum dos procedimentos 
estabelecidos para visitantes do CTI - passava pela esterilizao e vestia as roupas apropriadas mas, quando ao chegar perto da cama, no conseguia dizer palavra. 
Numa das visitas, ajoelhou-se e beijou a mo de Cazuza, que reagiu enfurecido: 
      - Pra, porra. Sai fora daqui, seu velho. At parece uma ave de mau agouro!!! 
      Com Joo, o clima era sempre emocionante. Meu marido simplesmente no conseguia testemunhar o sofrimento do filho. Seu desabafo: 
      "Tive um nico momento de coragem dentro daquele CTI. Sou uma pessoa muito covarde para suportar o sofrimento, principalmente a dor das pessoas que amo. Alm 
disso, sofro de claustrofobia e no posso ser amarrado. Cazuza estava amarrado  cama do hospital e era difcil para mim v-lo naquele estado, todo preso, impedido 
de se movimentar. Ento eu desamarrava as fitas e ficava segurando seus braos com carinho, para que ele no soltasse os tubos em que estava ligado". 
      Certamente foi um ato de coragem de Joo, porque em geral suas visitas a Cazuza eram rapidssimas. Ele entrava, dava um beijo no filho e dizia que precisava 
sair para resolver alguma coisa ou para fumar. Meu filho percebia e brincava com o comportamento do pai: 
      - Papai parece a Xuxa,  beijinho, beijinho, tchau, tchau! 
      Nos corredores do New England Hospital, pela primeira e ltima vez, eu e Joo choramos pela sorte de nosso filho. Entre abraos e lgrimas, eu lamentei: 
      - No sei o que ser da minha vida sem Cazuza. Eu vou morrer com meu filho! A vida no vale nada sem ele! 
      E Joo, sempre firme, me consolou: 
      - Ns vamos superar isso tudo. Vamos viver da lembrana dele, das coisas boas que ele vai nos deixar. Ainda temos um ao outro! 
      
      Passados cinco dias de internao no CTI e o quadro de Cazuza no acusando nenhuma melhora, Joo resolveu trazer minhas irms do Brasil para estarem comigo 
no caso de um desfecho mais grave. Inventamos uma desculpa esfarrapada para a presena delas em Boston, mas meu filho, quando soube, no agentou e observou com 
a lngua ferina de sempre: 
      - Que bom! Elas vieram pra se despedir e ver o enterro. Vai ser super concorrido, aqui em Boston, debaixo de neve. J pensou que chique morrer assim?  
      Nem por isso deixou de alugar uma limusine para que suas tias passeassem por Boston. Dizia que elas nunca haviam entrado num carro como aquele e, por isso, 
ele desejava lhes dar essa alegria. Conectado ao mundo pelos tubos de respirao e medicamentos, Cazuza perdeu a noo do dia e da noite. Com a respirao difcil, 
seu instinto era o de arrancar os tubos. Tambm delirava. Muitas vezes, cantou uma cano desconhecida para mim: "ideologia, eu quero uma pra viver". Perguntei ao 
Zeca que msica era aquela, e ele me informou que era para o disco novo e que Cazuza e Frejat haviam comeado a trabalhar nela antes da crise. Meu sentimento de 
revolta era to grande e incontrolvel naquele momento que cheguei a dizer para Ezequiel: 
      - Se meu filho morrer, nunca mais vou deixar que algum cante suas msicas. Nunca mais. 
      Ezequiel ficou pasmo e me chamou  razo:
      - Lucinha, voc no vai fazer isso porque voc no  m! 
      Mas continuei na mesma ladainha, replicando que eu era m, sim, e que jamais daria autorizao para quem quer que fosse gravar as msicas de Cazuza. Felizmente, 
tudo no passou de um ataque de dio pela vida, mas o episdio ilustra por onde minha alma vagava enquanto meu filho perdia as foras num CTI. No h nada que me 
faa mais feliz do que saber que Cazuza, at hoje,  regravado. Cssia Eller gravou em maio de 1997 um disco lindo em sua homenagem, s com msicas do repertrio 
de meu filho. Ney Matogrosso tambm me contou de seus planos para fazer algo semelhante em 1998. 
      A dificuldade para respirar ainda era grande quando os mdicos nos sugeriram tentar uma traqueostomia. Horrorizada, pensei no futuro. O que seria de um cantor 
depois de uma traqueostomia? Isso seria fatal para a carreira dele. Quando Cazuza ouviu as minhas preocupaes, respondeu com a maior lio de coragem que tive na 
vida: 
      - Me, no tem importncia. Eu no era bom cantor mesmo. Eu posso continuar fazendo letra, continuar compondo. 
      Enquanto ainda se discutia essa hiptese, uma mdica entrou no CTI com uns papis para Cazuza assinar. Ela trazia um termo de responsabilidade para que os 
mdicos pudessem tentar uma nova medicao, ainda fora do mercado, o Fluconazole, fabricado pelo laboratrio Pfizer. 
      O prprio Cazuza assinou a autorizao. Duas plulas pequenas, uma pela manh e outra  noite. E 24 horas de espera. O sangue pareceu ter voltado a correr 
nas minhas veias quando Cazuza finalmente superou a crise. O remdio funcionou. Depois das primeiras 24 horas, ele saiu do CTI, embora tenha permanecido por mais 
sete dias no hospital, para se recuperar dos onze dias estirado na cama, plugado a aparelhos. Seus msculos no respondiam s tentativas de movimento e Cazuza estava 
bastante enfraquecido. Fora isso, a esperana estava de volta na forma de um novo remdio: o AZT. No tnhamos ainda a menor idia do que isso significava, apenas 
confiana. 
      Joo, nessa nossa mais dramtica estada em Boston, fez inmeros discursos para Cazuza, cujos efeitos eram visivelmente animadores. Ele conta: 
      "Nas horas de discurso eu crescia como um Hitler. Sabia que, durante minhas prelees inflamadas, ele se sentia bem. De vez em quando lhe mostrava, por exemplo, 
um artigo de jornal que havia lido sobre a cura da doena, de longe, para que ele no conferisse. Sentia que as minhas palavras sobre a cura possvel, e as informaes 
que lhe passava como, por exemplo, lhe dizer que ningum mais estava morrendo daquela doena, eram uma carga de esperana para ele, embora falsas. E sabe por que 
eu fazia isso? Porque eu acreditava em tudo o que dizia! " 
      Foi nessa internao complicada que Cazuza, pela primeira vez, se queixou ao pai de um episdio acontecido no passado, como Joo relembra: 
      "No foi propriamente uma queixa, mas Cazuza tinha um certo lamento na voz ao dizer: pai, lembra quando voc me levava para jogar futebol naquele clube de 
So Conrado? Pois , voc devia ter sacado que meu negcio era outro. Quem sabe se voc tivesse me levado a uma Escola de Belas-Artes eu no me sentiria mais feliz? 
E eu me justifiquei dizendo que eu podia ter errado quando o levei ao futebol, o fiz na certeza de que um pai deveria, pelo menos, mostrar ao seu filho quais eram 
os seus prazeres". 
      Devota de Santa Rita, em todas as minhas viagens com Cazuza, carreguei a imagem comigo. Esteve presente em todos os quartos de hospital que meu filho ocupou. 
Foi a ela que recorri em todos os momentos de sofrimento. Cazuza dizia: 
      - Mame, que coisa horrvel, parece macumba!!! 
      Nem dei ouvidos para suas reclamaes, pois rezava noite e dia para que meu filho se recuperasse. Nas viagens seguintes, Cazuza chegou at a sentir a falta 
de Santa Rita. "Deixa a santa a enquanto estiver dando certo", dizia. 
      As sesses de fisioterapia reabilitaram Cazuza e, dias depois, ele foi liberado para se transformar em out patient. Fomos para o hotel, mas suas visitas ao 
hospital deviam ser dirias. Nos hospedamos em trs quartos vizinhos no Hotel Four Seasons, e saamos quase todos os dias para almoar fora e conhecer cidades prximas.. 
A primeira vez em que Cazuza desceu para caminhar, saiu devagarzinho, andando com dificuldade, amparado pelo brao de Zeca para atravessar a rua e sentar no parque 
em frente ao hotel. Havia nevado  noite e era uma daquelas manhs de inverno ensolarada. Cazuza levou sucrilhos e biscoitos para dar aos esquilos e ficou ali, rodeado 
deles, com a cabea baixa. De vez em quando, uma lgrima silenciosa descia por seu rosto. 
      Ainda no Hotel Four Seasons tivemos que enfrentar outro momento de pnico quando soou o alarme de incndio. A ordem era desocupar o hotel com a roupa do corpo 
e no utilizar os elevadores. Estvamos no quarto andar e descemos devagarzinho com Cazuza apoiado em meu brao de um lado e, de outro, no de minha sobrinha Cludia, 
que ficou em Boston para me ajudar. Finalmente, quando alcanamos a rua, vimos Joo, fumando desesperadamente, as feies em pnico. Sua claustrofobia se manifestara 
mais uma vez e Cazuza no resistiu  piada: 
      - Pai, que absurdo. Voc largou a gente l e desceu as escadas correndo feito louco, atropelando as velhinhas. Passamos por vrias delas cadas no cho, pisoteadas 
por voc! 
      Atnitos vimos ento Clara Davis sair do elevador toda arrumada, calmssima. H 25 anos vivendo entre os americanos, ela j estava acostumada com aquele tipo 
de procedimento. Foi apenas uma simulao de incndio. O gerente do hotel se viu obrigado a ouvir as nossas reclamaes. 
      Essa rotina da vida no hotel durou quase um ms, pois s voltamos ao Brasil em dezembro de 1987. Zeca gosta de contar que foi "expulso" de Boston por Cazuza, 
como lembra: 
      "Ele gritava para mim: sei que voc gosta de drogas. O AZT  a melhor droga do mundo. Estou perdido. Voc vai roubar os meus remdios todos!" 
      
      Joo embarcou na frente para preparar nossa chegada, junto com Zeca. E foi graas ao esquema montado por ele que conseguimos desembarcar com facilidade, porque, 
durante o vo, a febre de Cazuza voltou e no houve Novalgina que a controlasse. Meu filho saiu do avio direto para uma Kmbi estacionada na pista de desembarque 
e rumou para casa, enquanto minha sobrinha Cludia e eu desembaravamos a bagagem e fazamos alfndega. No dia seguinte, Cazuza pediu que eu servisse um grande 
almoo a seus amigos. Revelou a todos que estava com aids, que j tomava AZT e explicou, em detaIhes, seu calvrio no CTI. Todo o relato,  claro, em tom de deboche 
e ironia, o que quebrou o clima pesado da revelao e provocou muitas risadas. Cazuza tinha permanecido dois meses longe de casa, mas a recuperao no Brasil foi 
ainda mais rpida e esperanosa. 
      No rveillon de 1987, Cazuza promoveu uma grande festa em seu belo apartamento na Lagoa. Recomposto pelas primeiras doses do AZT, ganhou uma nova energia pra 
enfrentar o ano-luz de sua carreira: sucesso e reconhecimento que chegariam com o disco e o show Ideologia. 
      
      
     Captulo 14
     AZT, o soro da verdade

      "Meu prazer agora  risco de vida"
      Ideologia
      Cazuza/Frejat


      Uma urgncia febril tomou conta de meu filho depois de escapar da ltima crise, no CTI do New England Medical Center. Consciente de que seu tempo era curto,
Cazuza no queria desperdiar as energias conquistadas a duras penas e a melhora visvel que o medicamento AZT lhe proporcionou no comeo do tratamento. A dose administrada
de AZT, porm, era brutal - doze comprimidos por dia. Ao longo de 1988, ele sofreria os efeitos colaterais do remdio. Um deles foi o comeo da perda de cabelo - 
na verdade, alm de escassearem, os cabelos ficaram mais lisos e finos. Por isso, Cazuza passou a circular com uma bandana amarrada na testa, criando um novo tipo, 
que ele chamou de "eu sou neguinha". 
      A palavra de ordem de Cazuza em 1988 foi: urgncia!!! 
      Distribua as letras que escrevia freneticamente a parceiros mais variados -Angela R R, Joo Donato, Fagner, Joanna, Lobo. Mandou uma para Maria Bethnia, 
que se chamava Quando Eu Estiver Cantando. Uma semana depois, sem pacincia para esperar que o msico de Bethnia fizesse a melodia, mandou peg-la de volta. A enviou, 
ento, para Joo Rebouas, seu compadre e tecladista da banda que o acompanhava e que acabou fazendo a msica, que Cazuza mesmo gravou. Elymar Santos e Renata Arruda 
tambm registraram em disco a cano, tempos depois. Mas a aflio de Cazuza era indomvel: se mandasse uma letra para um parceiro hoje, queria a msica de volta 
no dia seguinte. A trgua temporria que a doena lhe deu afetou quase euforicamente a todos ns. As vezes, at me esquecia do assunto para me agarrar  vida normal 
do cotidiano e acreditar nas prelees de Joo: meu filho ainda iria sair dessa cilada! 
      Antes mesmo de entrar em estdio para o novo disco, Cazuza resolveu contratar sua velha amiga, Mrcia Alvarez, como empresria. Ela o conhecia desde os 19 
anos, poca em que j trabalhava com Caetano Veloso. Foram colegas de Baixo Leblon e se encontraram inmeras vezes nos almoos de domingo que aconteciam na casa 
de Caetano. Marcinha assinou a produo executiva e a coordenao geral do disco Ideologia, gravado entre janeiro e fevereiro de 1988, nos estdios da Polygram. 
Ezequiel e Nilo Romero dividiram a produo. O disco foi lanado no mesmo ms de abril em que meu filho completou 30 anos. A crtica o consagrou como seu melhor 
trabalho, louvando com cada vez mais nfase o poeta antenado que ele se revelava. Brasil uma das canes do CD, serviu de abertura para a novela das oito da Globo, 
Vale Tudo, de Gilberto Braga, na voz de Gal Costa. Na mesma novela, a msica Faz Parte do Meu Show, interpretada por ele tambm, foi escolhida como tema da personagem 
vivida por Ldia Brondi. 
      Brasil, parceria de Cazuza com Nilo Romero e Jorge Israel, foi composta originalmente como tema do filme Rdio Pirata, do mesmo Lael Rodrigues que havia dirigido 
Bete Balano. Aconteceu, tambm, a primeira indicao para o I Prmio Sharp de Msica. No ano de 1988, o Prmio Vincius de Morais, para o melhor cantor pop/rock 
e a melhor msica, foi de Cazuza. A msica Preciso Dizer Que Te Amo, feita em parceria com Bebel Gilberto e D, do Baro Vermelho, na gravao de Marina. O cheque 
que meu filho recebeu na premiao foi um dos presentes mais emocionantes que recebi. Cazuza queria que eu comprasse uma jia para mim e optei por um cinto de crocodilo, 
com um fecho de mbar e ouro, criado por sua amiga Francis Botelho, joalheira que vivia em Nova York nessa poca. Optei pelo cinto e no pela jia, em funo da 
promessa que fiz a Santa Rita pela sade de Cazuza - passei sete anos sem colocar uma jia no corpo. Talvez com essa atitude de me presentear Cazuza quisesse aliviar 
um pouco da frustrao que sentia ao reclamar: 
      - Todos os meus amigos que ficaram bem de vida compraram, um apartamento para os pais. Nem isso eu posso fazer! 
      
      Desde que Cazuza ainda fazia parte do Baro Vermelho, Ney Matogrosso sonhava em dirigi-lo. A oportunidade surgiu quando o disco Ideologia chegou s lojas e 
Cazuza queria mostr-lo no palco. Ney relembra: 
      "Quando ele me pediu para dirigir o show, pressenti que seria o nosso ltimo grande encontro. Eu sabia que deveria fazer aquele trabalho para ele. Quando comeamos, 
disse: Cazuza, o mais importante em sua histria musical  o seu pensamento! Ento, no se preocupe em preencher o palco, em danar, pular pra l e pra c. Na verdade, 
ele j no podia fazer essas coisas, mas recomendei que ficasse paradinho e apenas cantasse. Que deixasse a luz se mover, permitisse que a luz desse o movimento 
de todo o espetculo. Conversamos e, em dois dias, o roteiro estava pronto na minha cabea. Cazuza no queria terminar o show com O Tempo No Pra, mas era a ltima 
composio dele e, embora no fosse uma msica para cima, era a sntese de um pensamento muito importante para aquele momento que a gente vivia no Brasil".
      
      O show terminou mesmo com O Tempo No Pra, mas para o bis, Cazuza escolheu Faz Parte do Meu Show, mais alegre. Juntos, Ney e Cazuza decidiram o figurino do 
show: um terno de panam branco, com uma blusa de seda branca, de mangas curtas, assinados pelo estilista Gregrio Faganelo. A bandana da cabea, ele trocava toda 
noite. Para acompanhar Cazuza e ajud-lo em tudo o que fosse preciso, inclusive se responsabilizar pelos horrios dos remdios - que eram muitos -, Fernanda Pessoa, 
a Nandinha, foi contratada como secretria particular de Cazuza. 
      Ideologia estreou no pequeno palco do Aeroanta, em So Paulo, no dia 17 de agosto de 1988. Estvamos l, aplaudindo nosso filho ao lado de uma platia emocionada
e eufrica. Dividi a mesma cadeira com Caetano Veloso e, do outro lado, sentou-se Lucy Barreto. Os dois comentaram: gente, olha essa imagem: "eu vejo um museu de 
grandes novidades!" Que  isso? Esse garoto  louco! Que maravilha. A imprensa o descreveu no palco como um anjo branco, moldado pela luz que Ney operou pessoalmente 
no dia da estria. 
      Quando esse mesmo show chegou ao Caneco, no Rio de Janeiro, Cazuza me mandou um recado cortante no final da cano S as Mes So Felizes. Ele trocou as palavras 
finais para me dizer, cantando: 
      - S as mes so felizes/Outras so infelizes/No podem mudar a vida.
      
      Naquela noite, Joo reservou a lotao completa do restaurante paulistano Manhattan para, juntos, comemorarmos a estria. Uma noite de alegria para todos e 
especialmente para Joo, que sentiu orgulho pelo filho: 
      "A combinao entre Cazuza e Ney foi maravilhosa. Aquele, para mim, foi seu primeiro show profissional. De alguma maneira, as observaes que eu havia feito 
sobre seu trabalho, no passado, serviram como que para asfaltar um pouco seu caminho profissional. S no Caneco assisti ao show cinco vezes".
      
      E eu, todas, sem falhar nenhuma. Em So Paulo, Rio, Salvador. Em Porto Alegre, Joo me acompanhou. Na platia, me escondia como uma annima f. Meu filho no 
gostava muito desse meu hbito, mas eu no ligava, nem mesmo quando ele me repreendia: 
      - Que horror isso, voc me seguindo por toda a parte! Parece uma tiete alucinada. Voc no sabe que roqueiro no tem me? 
      Terminado o jantar no Manhattan, Joo e eu fomos para o Hotel Maksoud Plaza. Cazuza preferiu se hospedar com o resto da equipe o Eldorado Higienpolis. A noite, 
que comeara maravilhosamente, terminaria em escndalo e confuso. A empresria Mrcia, a secretria Nandinha estavam no quarto de Cazuza quando receberam um telefonema 
da portaria. Alguns meninos da banda queriam subir acompanhados e os funcionrios do hotel no queriam permitir. Marcinha lembra: 
      "Cazuza comeou a reclamar do hotel, dizer que era uma porcaria, que tinha mudado muito, querendo que todos ns sassemos dali. 'O telefone tocou novamente 
com o mesmo problema, s que desta vez algum msico queria subir com uma garota. Cazuza ficou furioso. Queria descer  portaria de qualquer jeito. Tentamos segur-lo, 
mas ele ficou realmente raivoso. Foi uma cena. No foi possvel acalm-lo e ele pegou um dos elevadores. Desci pelo outro, enquanto Nandinha corria pelas escadas, 
mas quando chegamos na recepo, a confuso estava armada".
      
      Cazuza discutiu com todos e, no auge do seu descontrole, enfiou o p na porta de vidro do Eldorado, que se quebrou em pedaos. O segurana do hotel sacou uma 
arma e Cazuza resolveu enfrent-lo, abriu a camisa e o desafiou: 
      - Atira, seu filho da puta! Vamos ver se voc  homem mesmo para atirar!
      
      Funcionrios da Som Livre, tambm hospedados ali, ajudaram a apaziguar a briga e, mais calmo, Cazuza se conscientizou do risco imenso que havia corrido, ao 
despedaar uma porta de vidro com seu prprio corpo. Qualquer ferimento poderia lhe trazer srios riscos de infeco. Quando tudo terminou, meu filho no quis mais 
ficar no hotel, de jeito algum. Pediu que o levassem para o Maksoud, perto de mim e de Joo. Nandinha providenciou a troca, esperou que ele dormisse e voltou para 
o Eldorado, de madrugada. Joo e eu s ficamos sabendo de toda a histria no dia seguinte. Pedi, ento, ao camareira que abrisse a porta de seu quarto. Cazuza dormia 
tranqilamente. 
      
      Acabada a temporada no Aeroanta, o show Ideologia seguiu em turn por todo o Brasil. O disco j registrara uma marca de 50O mil cpias vendidas e o show era 
um grande sucesso de bilheteria. Mas a ao do AZT, associada  vida de bebidas e drogas que ele insistia em continuar levando, perturbou meu filho a ponto de ele 
passar a provocar situaes incontrolveis. Embora em cada cidade a produo providenciasse uma ambulncia para dar planto nos locais de show, o mais difcil era 
dominar o gnio de Cazuza. Ele chegou a declarar que, por no acreditar em vida depois da morte, queria viver todo o possvel, chegar s ltimas conseqncias. s 
vezes, dizia estar acometido pela sndrome do doente terminal. Outras, que havia tomado o soro da verdade. Nessas horas, ningum controlava sua lngua ferina, seus 
comentrios de fria crueldade. Durante a turn de Ideologia, vrios episdios fizeram palpitar o corao dos que o acompanharam. Em Belm, por exemplo, ele suportou 
um mal-estar at o final do show e, depois do ltimo verso de O Tempo No Pra, caiu para trs, desmaiado. Marcinha relembra: 
      "Eu estava na mesa de luz e, no sei como, em dois segundos, estava no palco, retirando Cazuza e o levando para o CTI da ambulncia. Acho que era muita luz, 
muito calor e muita emoo. Mas Cazuza conseguiu segurar at o fim. A desmaiou". 
      Quando Ideologia voltou para So Paulo, desta vez para uma temporada no Place, Cazuza ofendeu a platia durante uma apresentao. Achava que a turma l de 
trs estava muito mais interessada no show do que aqueles que ocupavam as primeiras mesas. Quando percebeu uma mulher se maquiando enquanto cantava, no se conteve: 
      - Vocs a de trs, venham todos para a frente porque essas pessoas aqui da frente, que balanam suas jias falsas... no esto com nada!! 
      
      Nessa temporada Cazuza recebeu Luiza Erundina, recm-eleita prefeita de So Paulo, no camarim. Quando ela entrou, ele se atirou a seus ps e, ajoelhado, repetiu: 
Erundina, Erundina! Ela imitou seu gesto e, ajoelhada, tambm disse: Cazuza, Cazuza!!! Eles se adoravam. 
      Nos dias 14, 15 e 16 de outubro de 1988, durante a segunda temporada do show Ideologia no Caneco, foi gravado ao vivo o disco O Tempo No Pra. 
      Eu costumava levar maos de rosas brancas e distribuir no fim do show, para que o pblico as jogasse no palco, entre os aplausos. Cazuza achava ridculo, mas 
eu dizia para ele no se meter. Era coisa minha. Numa dessas noites, uma de minhas sobrinhas jogou uma bandeira do Brasil no palco. Cazuza olhou enviesado para a 
bandeira e cuspiu em cima. Embora ele tivesse visto que foi sua prima quem atirou a bandeira, nunca a denunciou. Costumava dizer que um ufanista havia cometido um 
gesto tresloucado, porque o Brasil no estava em condies de receber manifestaes daquele gnero. Uma inflao de 90O% corroa nossa economia, as denncias de 
irregularidades e o assassinato de Chico Mendes cobriam de tristeza e desiluso o pas que meu filho tanto amava. Cazuza cuspiu na bandeira e o show prosseguiu. 
      No dia seguinte, o telefone no parou de tocar l em casa. Jornalistas de todos os rgos queriam repercutir o gesto de Cazuza. Atendi meio aturdida alguns 
deles e, em vez de optar pela verdade, inventei uma desculpa. Tive medo de que Cazuza fosse preso: 
      - No, vocs no entenderam bem. Todas as noites as pessoas jogam flores brancas no palco e Cazuza, naquela maluquice toda, enfiava as ptalas na boca e cuspia. 
E ontem ele cuspiu sem querer em cima da bandeira.
      
      Bobagem.  claro que Cazuza no sustentou a verso. Declarou que cuspiu, sim, e que cuspiria de novo! A polmica estava armada. O Jornal do Brasil publicou 
matria no dia 18 de outubro, uma tera-feira, com entrevistas de vrias personalidades, a favor e contra a atitude de Cazuza. A declarao mais veemente veio do 
empresrio Humberto Saad, dizendo no poder admitir aquela ofensa  bandeira. Dois dias depois, Cazuza escreveu uma carta em que argumentava a favor de seu gesto 
no Caneco. Mas Joo no deixou que ele a distribusse  imprensa, acreditando que ela s serviria para aumentar a polmica. Em julho de 1990, semanas aps a morte 
de meu filho, Joo entregou a carta ao jornal O Globo, que a publicou em sua edio do dia 16 de julho. A carta: 
      "Est havendo uma polmica, um escndalo, como diz o JB de tera-feira, 18 de outubro, com o fato de eu ter cuspido na bandeira brasileira durante a msica 
Brasil no meu show de domingo no Caneco. Eu realmente cuspi na bandeira, e duas vezes. No me arrependo. Sabia muito bem o que estava fazendo, depois que um ufanista 
me jogou a bandeira da platia. 
      O senhor Humberto Saad declarou que eu no entendo o que  a bandeira brasileira, que ela no simboliza o poder mas a nossa histria. Tudo bem, eu cuspo nessa 
histria triste e pattica. 
      Os jovens americanos queimavam sua bandeira em protesto contra a guerra do Vietn, queimavam a bandeira de um pas onde todos tm as mesmas oportunidades, 
onde no h impunidade e um presidente  deposto pelo 'simples' fato de ter escondido alguma coisa do povo. 
      Ser que as pessoas no tm conscincia de que o Vietn  logo ali, na Amaznia, que as crianas ndias so bombardeadas e assassinadas com os mesmos olhos 
puxados? Que a frica do Sul  aqui, nesse apartheid disfarado em democracia, onde mais de cinqenta milhes de pessoas vivem  margem da Ordem e Progresso, analfabetos 
e famintos? 
      Eu sei muito bem o que  a bandeira do Brasil, me enrolei nela no Rock'n'Rio junto com uma multido que acreditava que esse pas podia realmente mudar. 
      A bandeira de um pas  o smbolo da nacionalidade para um povo. 
      Vamos am-la e respeit-la no dia em que o que est escrito nela for uma realidade. Por enquanto, estamos esperando". 
      
      A polmica da bandeira foi logo esquecida, felizmente, embora tenha deixado alguma conseqncia - o jornal O Estado de S. Paulo proibiu que o nome de Cazuza 
aparecesse em suas pginas, segundo informou a Revista Afinal em sua edio da semana posterior ao show: 
      "O jornal O Estado de S. Paulo, que, ao alto de sua experincia de 10O anos de Repblica, no admite que a dignidade da Nao seja confundida com a mediocridade 
de seus eventuais governantes, riscou o nome do artista de suas pginas, temporariamente". 
      
      Durante todo o ano de 1988, fizemos oito viagens a Boston para os exames de Cazuza. Em nenhuma delas foi necessrio intern-lo. As vezes ficvamos s um dia 
em Boston, voando em seguida para Nova York, para aproveitar a viagem. Cazuza no gostava de ficar em Boston. Mas em Nova York, a histria era outra. Numa dessas 
viagens, um grande amigo de Cazuza, Bineco Marinho, falecido em agosto de 1996, foi nos esperar de limusine no aeroporto. Ele conta: 
      "Quando Cazuza disse no aeroporto para tomarmos um txi, eu lhe falei: voc  uma estrela, e estrelas andam de limusine. Ele riu muito e ficou bastante animado. 
E dizia sempre: o Zeca  o meu mentor intelectual e voc, Bineco, meu mentor de futilidades. E assim era: eu escolhia as suas roupas, programava suas diverses em 
Nova York, como ir, por exemplo, a um clube cubano onde ele adorava tomar tequila. E tambm rolava por todos os lugares com ele, sempre moleques, sempre malucos". 
      
      Exatamente isso. Quando chegvamos a Nova York, Cazuza saa comigo durante o dia mas,  noite, me dispensava solenemente. No queria a me por perto para testemunhar 
suas escapadas onde fazia, claro, tudo o que estava proibido. Apesar do sucesso e do reconhecimento que ele tanto desejava, meu filho estava intratvel nesse perodo, 
como numa das passagens por Nova York, quando ele resolveu que no queria mais se hospedar no Regency Park, um excelente hotel na Park Avenue. Achava que o lugar 
s servia para novos-ricos e queria se mudar para o Village. Para no deix-lo sozinho, fui obrigada a acompanh-lo e, quando Barbara Chevalier nos falou sobre o 
Gramercy Park, um hotel onde Joo Gilberto havia morado, Cazuza quis mudar imediatamente. No Regency, dividamos um quarto, mas no novo hotel, ento j uma verdadeira 
espelunca, ele quis dormir sozinho: 
      - No quero ficar com voc. Que caretice! Voc est querendo me espionar, controlar a minha vida. 
      
      De turbante palestino na cabea, Cazuza caa na gandaia. Chegava ao hotel de madrugada, e tentava acordar o porteiro indiano do hotel para que pudesse entrar. 
Saa em geral sem passaporte, no se lembrava do nmero e, muito menos, em que quarto estava hospedado. Cazuza fez um escndalo to grande na porta do hotel que 
precisei acudi-lo. Nessas ocasies, eu no dizia nada. Se falasse alguma coisa, ele iria se afastar de mim e isso era o que eu temia. Trancava a porta de meu quarto 
para chorar, sem que ele se desse conta. 
      Certo dia, uma amiga comum promoveu um churrasco e nos convidou, mas Cazuza no queria que eu fosse. Depois fiquei sabendo que nesse churrasco ele tomou ecstasy. 
        
      Na volta ao seu apartamento na Lagoa, Rio, o descontrole de Cazuza prosseguiu, em alta voltagem. Seu apartamento da Lagoa vivia em festa constante. Por mais 
que se comprassem alimentos para abastecer a geladeira, ela estava sempre vazia. Muitos de seus amigos iam  sua casa para comer e beber e Cazuza adorava o papel 
de poder proporcionar-lhes essa fartura. Em ocasies em que meu filho abusava das festas e drogas, as empregadas ligavam para minha casa, nos avisando que a situao 
estava ficando muito difcil. Num desses alertas, Joo no se conteve e saiu voando para o apartamento de Cazuza, como ele conta: 
      "As empregadas vinham nos contando que ele tinha ido dormir s quatro da manh, que havia chegado  meia-noite, que fulano, beltrano e sicrano estiveram l 
e comearam a fumar aquele cigarro e coisas assim. Mas naquele dia, ela disse que havia pessoas com ele ainda, que tinham varado a noite. J eram duas da tarde quando 
entrei na casa de Cazuza feito louco. Ele estava superagitado. Agarrei as pessoas pelo pescoo e as joguei para fora do apartamento. Tive um acesso de loucura e 
Cazuza dizia: 
      - Voc no pode fazer isso!  minha casa! 
      A ento comecei a quebrar tudo, o apartamento inteiro. Joguei a televiso na parede, a mesa para no sei onde e gritava: 
      - Se voc  maluco, eu tambm sou. Sou mais maluco do que todos os seus amigos juntos! 
      E continuei a quebrar, tomado por um acesso de loucura. Nervoso, Cazuza dizia: 
      - Eu vou chamar a polcia! 
      Uma coisa de louco. Mas finalmente tudo foi se acalmando. Nos abraamos e nos beijamos. Foi muito amor, porque tudo estava valendo naquela hora e, em nome 
dessa paixo, ramos capazes de todas as loucuras". 
      
      Nessa fase fervilhante, Cazuza se apresentou no lanamento do songbook de Caetano Veloso, no People, a convite de Almir Chediak, que relembrou a histria quando 
lanou o songbook do prprio Cazuza, algum tempo depois de sua morte: 
      "Ele achou o mximo o convite e disse que cantaria se eu o acompanhasse ao violo. Marcamos um ensaio e combinamos que seriam trs msicas. Eu sugeri Esse 
Cara. Ele completou com Algum Cantando e Janelas Abertas n 2. No meio do ensaio, ele disse: acho que voc canta superbem e  afinado. Vamos cantar juntos. E determinou 
as partes que cada um deveria cantar". 
      
      Ao se encerrar o ano de 1988, exatamente no dia 6 de dezembro, Cazuza aceitou o convite de Marlia Gabriela para uma entrevista no programa Cara a Cara, da 
TV Bandeirantes. Diante da inevitvel pergunta sobre a doena, ele relutou, disfarou e no respondeu. Comentou o grave problema pulmonar que havia sofrido e mudou 
de assunto. Nessa fase, eu e Joo no queramos, de jeito algum, que ele declarasse oficialmente que estava contaminado pelo vrus da aids. Nossa inteno era proteg-lo 
do preconceito, das injustias e da pena. Temamos que a ignorncia sobre a doena afastasse as pessoas do seu lado. Mesmo porque, na verdade, a doena de Cazuza 
j no era mais novidade para muita gente. No intervalo da gravao do Cara a Cara, Marlia Gabriela lhe perguntou o porqu dessa relutncia em no confessar publicamente 
a doena. Voc no deve nada a ningum, disse ela. As palavras da jornalista ficaram latejando em sua cabea. Nos chamou para uma conversa em que explicou: 
      - Eu canto uma msica que diz: Brasil, mostra a tua cara! Tenho que mostrar a minha porque assim no estaria sendo coerente comigo, com as coisas que canto 
e em que acredito e muito menos coerente com meu pblico. 
      
      Entendemos na hora, at mesmo ficamos bastante aliviados por no ter mais que disfarar a terrvel verdade. Joo disse a Cazuza: 
      - Meu filho, tentei proteger voc da melhor maneira que eu sabia, mas se o melhor  assumir publicamente a doena, estou do seu lado!!! 
      Eu tambm estava. 
      
      
     Captulo 15
     Pressa de viver
      
      
      "Se voc achar que estou derrotado/
      Saiba que ainda esto rolando os dados"
      O tempo no pra
      
      O disco O Tempo No Pra foi lanado nos primeiros dias de 1989 (e alcanou uma vendagem de 50O mil cpias), quando Cazuza ainda cumpria um roteiro de shows 
pelo Nordeste. Com o sistema nervoso bastante abalado, meu filho j no controlava mais a agressividade exacerbada pela alta dosagem de AZT e seus desconhecidos 
e terrveis efeitos colaterais. Em Macei, hospedado no hotel, protagonizou outra cena de descontrole ao jogar no cho, rente aos ps do gerente, uma mquina de 
escrever que ele no conseguia utilizar. A noite no palco, recebeu uma vaia violenta do pblico. Arriou as calas revelando que estava sem cuecas, ao vestir uma 
camiseta que lhe foi atirada por algum da platia. 
      Dias depois, no show de Recife, a situao esquentou mais. Subiu ao palco para o ltimo show de sua carreira, em 24 de janeiro de 1989. Depois de cantar duas 
ou trs msicas iniciou um monlogo de surdos com a platia. Cazuza falava em ingls sobre o sucesso da msica brasileira no Exterior. Diante das vaias, passou para 
a fase das agresses. Suas foras, no entanto, foram minguando com o esforo e a raiva. Retirado do palco pela empresria Mrcia Alvarez e pela secretria Nandinha, 
recebeu oxignio no camarim e insistiu em voltar. Conseguiu. Mas quando cambaleou novamente no palco, o show acabou. Marcinha relembra: 
      "Cazuza costumava dizer: se acontecer alguma coisa comigo, quero que seja no palco. A nica coisa que ele desejava naquele momento era trabalhar. Quero trabalhar 
muito,  s o que posso fazer!, dizia". 
      
      Todos ns sabamos que o trabalho era uma fonte de energia enorme para o meu filho, mas naquele momento era preciso parar outra vez. Quando fui apanh-lo no 
aeroporto na volta de Recife, ele estava bastante nervoso e agitado. No conseguia parar quieto. Eram dez da manh, mas ele insistiu para que parssemos num boteco 
qualquer. Queria tomar cerveja. As palpitaes em meu corao de me nessa fase no deram trgua. A impotncia me roa os pensamentos, as intenes. Mas eu ainda 
acreditava ser possvel recuper-lo. Diante de uma sentena to avassaladora, num instante em que a realidade no nos interessa e sim a esperana e o sonho, cheguei 
a acreditar que Deus ainda me concederia poderes divinos para mudar o curso da histria. Rodopiar o globo terrestre ao contrrio, como o super-homem, e lavar os 
perigos do passado. 
      Por isso, continuamos at o fim tentando aliviar a sua dor. Apesar do momento difcil que atravessava, das agresses aparentemente sem motivo, do comportamento 
rebelde, Cazuza tinha um lado de sua personalidade absolutamente adorvel. A mesma fora que o impelia a andar na contramo desprendia de seu corao para o amor, 
o companheirismo, a compaixo e a doura. 
      
      De volta ao seu apartamento da Lagoa, depois das loucuras no Nordeste, a insnia de Cazuza se acentuou. Todas as noites, Joo saa do trabalho e ia v-lo. 
Jogavam biriba e conversavam. Zeca tambm lhe fez bastante companhia nessa fase, em que ele apelou como nunca ao que costumava chamar de "soro da verdade", que tinha
o poder de o eximir de qualquer culpa. Falava o que lhe viesse  cabea. Certo dia, convidou uma de suas tias paternas para ir ao seu apartamento. Eu tambm estava
l. Quando sentamos para conversar, Cazuza perguntou a ela, repentinamente: 
      - Tia, me conta a se  verdade mesmo aquela histria em que voc foi contra o casamento do papai com a mame! Me conta essa histria porque quero saber se 
voc  mesmo aquela megera que mame sempre pintou. 
      Fiquei passada de vergonha. 
      - Cazuza, deixa isso pra l, isso so guas passadas. 
      Mas ele insistia: 
      - Mame, no  verdade que voc contava que a tia disse ao papai para no se casar, porque ele no gostava de voc o suficiente, e que casamento era uma coisa 
que se desmanchava at na porta da igreja? 
      
      Minha cunhada ficou estupefata, sem ter nada a dizer. E eu, sem saber como me comportar, olhando para os lados, disfarando e pedindo inutilmente para que 
ele parasse. 
      
      Na tentativa de compreender at que ponto o AZT estava comprometendo seu comportamento e o que se poderia fazer para livr-lo desse tormento do descontrole, 
viajamos novamente a Boston, no carnaval de 1989. Foram quinze dias de internao, tempo em que meu filho resolveu se dedicar exclusivamente  fotografia. Comprvamos 
uma mdia de vinte rolos de filme por dia - todos em preto-e-branco, como ele preferia - para que ele fotografasse praticamente tudo o que seus olhos podiam alcanar. 
Tudo lhe servia de inspirao - seus ps, meus cabelos, um vaso, uma porta, as enfermeiras, os mdicos. Ficou to obsessivo que, quando me recostava para um cochilo, 
ele me acordava para conversar sobre uma nova foto. Para Joo, que chegou a Boston dias depois de ns, foi uma fase especialmente difcil, como ele recorda: 
      
      "A dosagem do AZT era to brutal que Cazuza ficou completamente pirado. Botava um turbante na cabea, dizia que era um prncipe rabe, tirava fotografia o 
dia inteiro. Foram momentos de tristeza, traumatismo e dor, porque ver meu filho numa situao dessas foi terrvel. No conhecia praticamente ningum em Boston e 
minha rotina era sair do hotel para o hospital, e vice-versa. Ficava muito tempo sozinho no hotel e comecei a ter sensaes estranhas, a descobrir prazeres na solido 
e na dor. De repente, lavar as mos virou um programa, um prazer. Eu passava horas lavando as mos e me perguntando por que nunca tinha percebido que lavar as mos 
era to bom! Tambm me flagrava olhando fixo para um determinado ponto horas afio, e saa caminhando sem rumo debaixo da neve, a ponto de me perder e no saber voltar.
Tambm no gostava de ficar dentro do quarto do hospital. Ia l umas dez vezes por dia, mas depois de poucos minutos, saa de novo. Para fumar, para o bar, para
qualquer coisa. Estava to desnorteado que bebia vodca s dez da manh".

      Felizmente, a equipe do New England Medical Center controlou a crise causada pela dosagem excessiva do AZT. A dosagem foi diminuda para oito comprimidos por
dia. Mas foi s o que puderam fazer. Nessa internao, Cazuza fez uma srie de exames - sangue, de todos os tipos, uma tomografia computadorizada e retirada de liquor
da espinha. Todos com resultados normais, dentro do quadro esperado. Como fazamos sempre, de Boston seguimos para Nova York, antes de regressar ao Brasil. Hospedados 
no Regency Hotel de Nova York, em 12 de fevereiro de 1989, Cazuza resolveu receber o jornalista Jos Carlos Camargo, Zeca Camargo, ento na Folha de S. Paulo, para 
uma entrevista. Ele conta como se deu o encontro: 
      "Eu acabara de me instalar em Nova York quando comecei a procurar Cazuza para uma entrevista. No tinha a dimenso de que seria to difcil, mas descobri no 
ato. Fui a Boston tentar uma comunicao atravs do hospital e no consegui - ele estava incomunicvel. Quando deixou o hospital. e seguiu para Nova York, continuei 
a busca. Sabia que ele estava hospedado num hotel da Park Avenue, por isso tentei o Delmonico e, depois, o Regency. No dia 12, liguei diretamente para o quarto e 
Cazuza atendeu. No nos conhecamos, nem por telefone. Disse: venha aqui agora! Cheguei para a entrevista apreensivo, com um milho de dedos. Era um dia frio em 
Nova York e o encontrei num quarto grande e confortvel, todo encapotado e com um cachecol. Ele pediu uma garrafa de vinho tinto e bebeu durante a entrevista. Eu 
o acompanhei em duas taas, no mximo, e ele tomou o resto. Comeamos falando de msica, do disco. At que criei coragem para lhe perguntar como tinha sido sua passagem 
pelo hospital em Boston. Respondeu: 
      - Ah, essa doena, estou com essa doena e estou sem saco para tantos exames. No gosto de hospital e exames. 
      - Mas voc no est afim de saber que doena  essa? 
      - No. Estou muito de saco cheio, sem pacincia. 
      - Sem pacincia para qu? 
      - Para essa coisa, essa maldita. 
      - Mas o que  essa maldita? 
      Lembro que ele pegou o copo, tomou um belo gole de vinho e disse: 
      - Olha, escreve a, a maldita  a aids. Estou com aids e no agento mais! No  isso o que vocs querem saber? 
      Foi um ato dramtico, no olhou para mim enquanto falava e ns estvamos sentados lado a lado. E a me deu um branco, porque eu no estava preparado para que 
ele falasse, embora tenha ido ao seu encontro exatamente com esse objetivo. Ele continuou: 
      - Eu no revelei at agora sobre a doena por causa do pblico. 
      - Mas o pblico no ficaria do seu lado? 
      - Ficaria, mas no do jeito que eu quero, teriam pena de mim. 
      Comecei a refazer a entrevista inteira, agora considerando a revelao sobre a aids. 
      - Cazuza, voc est tomando uma srie de remdios e est bebendo? 
      - Ah, eu no vou parar de beber por causa disso. Bebo, fumo, fao o que quiser. Vou aproveitar o que tiver de vida. 
      Nunca mais vi nem falei com Cazuza, me pareceu ter estado com ele apenas para cumprir essa misso. Depois que abriu o corao, a imagem mais marcante que ficou 
para mim foi quando ofereceu vinho do seu prprio copo para que eu tomasse: 
      - No quero que as pessoas fiquem com medo de mim. Voc tem medo? Tem coragem de beber do meu copo? 
      Peguei o copo de sua mo e bebi!" 
      
      A deciso de enfrentar as conseqncias de sua entrevista j estava tomada e acertada comigo e Joo. Por isso, Cazuza resolveu atender Zeca Camargo e dar a 
entrevista em Nova York. Alguns trechos do que foi publicado pelo jornal Folha de S. Paulo em matria exclusiva, no dia 13 de fevereiro de 1989, dois meses antes 
de Cazuza completar 31 anos. 
      "Estou com a sade tima. Na verdade,  como se eu acabasse de descobrir que sou portador do vrus, como se ele no tivesse comeado a agir." 
      Como no resistia a uma piada, declarou tambm nessa matria que tomava AZT com vinho, pois era uma delcia. Explicou, tambm, o motivo de seu comportamento 
nos dois ltimos shows da excurso ao Nordeste, no comeo do ano: 
      "Eu estava ficando meio louco. Quando eu fazia os shows, vinha um sentimento estranho. Todo mundo que estava me assistindo estava l porque me amava. Mas eu 
queria que algumas pessoas tambm me odiassem. Eu no queria que todo mundo fosse bonzinho comigo. Ento comecei a fazer coisas no palco para incomodar as pessoas". 
      
      Depois da declarao, os pedidos de entrevista se multiplicaram e a imprensa no nos deu mais trgua, registrando todos os movimentos de meu filho da em diante. 
Ficamos, na verdade, aliviados porque, enfim, a doena de Cazuza no era mais segredo para ningum e j no seria mais preciso recorrer a disfarces, dissimulaes 
e desmentidos. E com que dignidade meu filho enfrentou as privaes todas da doena! Eu o admirava mais a cada dia. 
      Um ms depois de Cazuza assumir publicamente ser portador do vrus da aids, o Consulado Americano no revalidou seu visto de entrada nos Estados Unidos. Um 
problemo que durou ainda mais oito meses. Infelizmente, nesse perodo, no pudemos recorrer ao tratamento em Boston. Cazuza ficou sob os cuidados do doutor Abdon 
Issa, que se comunicava com a equipe do doutor Sheldon Wollff para trocar informaes e poder acompanhar a evoluo da doena no Brasil. Jamais revelamos a Cazuza
que o consulado havia lhe negado o visto. Sofremos sozinhos o desespero de, num caso de emergncia, estar impedidos de voar imediatamente para o New England Medical
Center. A impossibilidade de transportar meu filho para os Estados Unidos provocou em mim uma insegurana permanente. Ao voltar ao Brasil no final de fevereiro de
1989, a disposio e energia de Cazuza diminuram sensivelmente. s vezes, quando vinha nos visitar em casa, passava todo o tempo estirado no sof, deitado, sem
nimo para levantar. Em maro, enfrentou uma nova crise. Desta vez, sua pele ficou toda amarelada. No dia 14, foi internado na Clnica So Vicente com um quadro
de hepatite.
      No perodo dessa internao, conversando com Cazuza chegamos  concluso de que o apartamento da Lagoa tornou-se invivel para a rotina dele. As escadas atrapalhavam
sua locomoo, cada vez mais difcil. Ele se lembrou de que o apartamento onde morava o cantor Fagner, na Visconde de Albuquerque, a rua do canal do Leblon, era
bastante confortvel e resolveu lhe telefonar. Felizmente, havia dois apartamentos vagos no prdio e Elza Braga, uma das proprietrias, nos alugou um deles, todo
mobiliado. Elza foi uma grande pessoa, nessa ocasio, pois facilitou todos os nossos passos. E Fagner, um amigo carinhoso. Cazuza levou apenas seus objetos preferidos
para a nova casa.
      Quando fomos ver o apartamento pela primeira vez, percebi que meu filho brevemente talvez j no conseguisse mais caminhar. Ele seguia na minha frente quando
um p de seu tnis soltou e ele continuou andando descalo, como se nada houvesse acontecido:
      - Me, no sinto mais meus ps!!!

      Lembro que, quando aproveitamos para visitar Fagner, Cazuza no conseguiu ir ao banheiro sozinho, precisei ajud-lo. A partir desse dia, a cadeira de rodas
seria sua companheira at o fim.
      Cazuza deixou a Clnica So Vicente na manh de 4 de abril, dia de seu aniversrio. Usava um leno azul na cabea, bermudas de listas azuis e brancas e uma
camiseta, com a seguinte inscrio: "I have no drinking problems. I drink, I get drunk, I falI down. No problems" (No tenho problemas com bebida. Bebo. Fico bbado
e caio. Sem problemas). Saiu do hospital diretamente para o novo apartamento do Leblon e para a festa que organizamos, eu e Bineco. Cada um dos 40 convidados, entre
eles Caetano Veloso, Paula Lavigne, Leonardo Netto, Mariozinho Rocha, Bebel Gilberto, Ney Matogrosso, Sandra de S, Baro Vermelho, recebeu uma camiseta cinza com
a inscrio "O Tempo No Pra". As mesmas usadas na promoo do disco. Servimos comida baiana que ele tanto adorava: caruru, vatap, bob de camaro.
      Mas, nessa noite de alegria, tivemos, Joo e eu, um srio desentendimento com Ezequiel Neves por causa do lanamento do LP Melhores Momentos de Cazuza e Baro
Vermelho. Zeca chegou anos dizer, na frente de Cazuza, que aquele disco era pura necrofilia. Passou a noite nos provocando. Quando Cazuza pediu que eu pegasse uma
fita em seu quarto, Zeca foi atrs de mim. Com D, do Baro, como testemunha, Zeca tentou tirar a fita de minha mo. Foi quando avancei para cima dele, me agarrando
em seus cabelos, lhe passando uma rasteira, batendo e batendo onde minhas mos conseguissem alcanar. Zeca saiu correndo do quarto e, imediatamente depois, escuto
algum gritar que ele estava tentando se jogar do 181?; andar do prdio. Cazuza brincou, aliviando a tenso:
      - P, Zeca, no podia ter escolhido outro dia pra se jogar da janela? Logo hoje? Quer estragar a data do meu aniversrio?
      Cazuza brigou comigo em razo do episdio, no me deixava visit-lo. Apenas Joo era admitido. Ele chegava todos os dias do escritrio e ia para o apartamento
de Cazuza. Eu ficava em casa chorando e chorando sem parar, na espera de Joo e de notcias. Porque, alm de meu filho estar doente, ainda havia outros motivos de
preocupao, com as histrias paralelas que se sucediam.
      Eu telefonava e ele dizia:
      - No vem pra c porque o Zeca vem e voc no est se dando com ele.
      Em maio de 1989, no Dia das Mes, Cazuza me pediu para receber Zeca em casa. Disse que ele estava arrependido e apelou:
      - Eu adoro o Zeca e adoro vocs. Quero me dar bem com todos e que todos se dem bem!
      Ezequiel trouxe uma rosa e esquecemos esse atrito entre coraes machucados pelo mesmo mal. No carto que acompanhou as rosas que recebi de meu filho estava
escrito:
      "Voa, passarinha, voa. Te amo do umbigo. Do teu eterno menino Cazuza!"
      A ltima agenda da vida de meu filho registra algumas de suas emoes, at o ms de maio de 1989. Depois disso, ele j no teve mais foras nem organizao
para se concentrar nas anotaes da agenda. A vida era imprevisvel. A dedicatria, nas primeiras pginas da agenda, foi escrita para ele e por ele, assim:
      Caju:
      "Fique livre do mundo, aproveite a dor, ame de olhos fechados e se divirta na Terra"
      Cazuza

      Cheio de planos, logo no dia 2 de janeiro, as anotaes indicam dois planos de viagem. No primeiro, o roteiro completamente italiano inclua Milo, Florena,
Pompia, Npoles, Cpri, Veneza, Pdua e uma volta pela Siclia. J o outro comeava em Boston e seguia pelo Rio de Janeiro, Portugal, Itlia, Israel e Los Angeles,
antes de retomar  capital carioca. Em 3 de janeiro, Cazuza comeava a pensar no show que ainda desejava fazer e teria o ttulo de A Volta do Baro. No dia 5, ele 
anotou o que lhe ia pela alma: 
      "Acho que estou na minha primeira encarnao, por isso sou to bobo e criana, por isso no gosto de pera e gosto de Mahler, msica africana, indiana, gosto
mais de blues. Eu fui um bluseiro e um cantor africano. Estou na terceira encarnao. Cantei samba-cano. Estou msica".
      O estado de nimo parece o mesmo em 7 de janeiro, ao escrever:

      "Frustrado
      por no ter sada
      por ser um homem
      sem todas as minhas possibilidades
      feliz por estar vivo por amar a vida
      e ter os meus pais
      triste pelo mundo triste
      pela gente triste
      agora estou puto"
      Cazuza

      Internado no hospital So Vicente na crise do final de janeiro, no dia 29, Cazuza confessa:
      "Estou preso num hospital. Estou louco. Estou determinado a fugir".
      Em 10 de fevereiro, Cazuza deixou registrado uma palavra para o velho amigo Frejat:

      Frejat
      "Todo dia n
      teu dia e homem nobre
      meu judeu no errante
      beijo pra La
      a via, a veia
      e Mauro do tarot
      tarot
      tarado
      obrigado".

      Quando planejou a festa de seus 31 anos, comemorados em 4 de abril, Cazuza deixou anotado no dia 11! tudo o que queria que acontecesse na grande festa:
      "Festa de aniversrio. Caju 31 anos. Tabatingera. Cem pessoas. Cinco garons. Comida - Seu Severino e Teresa. Festa com convite, lista na porta, som ao vivo, 
performances, leitura de poesia, danas. Conjunto, travesti, Ruth de Almeida Prado". 
      Sua derradeira anotao na agenda, no espao grande de um fim de semana, sbado 29, domingo 30 de 1989, no entanto, refere-se ao repertrio do show que meu 
filho, com todas as esperanas, queria fazer: 
      
      "Milagres 
      No h perdo 
      Hei Rei 
      Softly
      Azul e Amarelo".



     Captulo 16
     Santo Daime e Veja, loucura e indignao
      
      "Vamos pedir piedade/Senhor, piedade/
      Pra essa gente careta e covarde"
      Blues da piedade
      
      Nos quatro meses em que viveu no apartamento do Leblon, Cazuza continuou promovendo suas famosas festas. Pessoas entravam e saam o tempo todo. Gente que chegava 
para almoar, jantar, cheirar p, fumar maconha em animadas noitadas madrugada adentro. Cercado de todo o conforto possvel, ele se esmerava na arte de bem receber. 
Sua casa era uma farra. Naquela fase, ele j contava com a ajuda de Ben, motorista que ele havia contratado. Um homem alto e forte, que, alm de dirigir o carro, 
tambm carregava Cazuza no colo e o levava para tomar banho de cachoeira na Floresta da Tijuca e a todos os lugares que Cazuza pedia. No apartamento, tambm, ele 
contava com a ajuda de Iracema, que preparava uma moqueca de peixe de dar gua na boca, e de duas enfermeiras, que se revezavam em turnos de doze em doze horas. 
Eu telefonava o dia inteiro para Iracema, para as enfermeiras. As vezes ia levar as compras, mas no saa da cozinha para que ele no me visse e me acusasse de se 
intrometer em sua vida. Objetos da casa desapareciam, amigos abriam a geladeira e levavam as compras, alm de pegar roupas de seus armrios. Mas eu no podia fazer 
nem dizer nada. Quando tocava no assunto, Cazuza me respondia: 
      - Mame, ningum presta! Meus amigos no prestam, eu no presto, vocs no prestam. Esquece!!! 
      
      Tambm fiquei sabendo atravs de Ney Matogrosso que, naquele perodo, meu filho comeou a freqentar o Santo Daime. Foi atravs de Ney que Cazuza se interessou 
pelo assunto. Ney conta: 
      "A primeira vez que conversamos sobre Santo Daime foi em agosto de 1988, na festa de meu aniversrio, que aconteceu na casa de Mrio Trancoso, em Itaipu. Cazuza 
chegou tarde com um bando, voltando de Petrpolis. Ele estava sentado na mesa comendo e eu sentado ao seu lado, conversando, quando ele disse que eu estava com um 
brilho diferente nos olhos. Queria saber o porqu. Falei que no sabia que brilho era aquele e que a nica coisa diferente que estava fazendo era tomar o Daime. 
Ele disse assim: quero ficar com esse brilho nos olhos tambm. Eu vou ao Santo Daime com voc! De fato, isso aconteceu tempos depois. Samos cedo de minha casa e 
fomos  sede do Santo Daime, no meio da mata s sete da manh, para fazer um trabalho exclusivo para ele, s com homens. Havia uma fogueira acesa dentro de um galpo 
e ali Cazuza comeou a tomar o Daime. Tomou, tomou, e nada aconteceu. Ele vomitou muito e fiquei preocupado, mas a pessoa que conduzia os trabalhos me disse que 
o problema era a quantidade de drogas e medicamentos que estavam dentro de seu organismo. Cazuza continuou a vomitar e eu j nem conseguia mais ampar-lo. L pelas 
trs da tarde, ele me olhou profundamente e disse:  simples assim? E eu lhe disse: , Cazuza,  s deixar,  s receber. Porque o Daime no  uma religio,  uma 
maneira de autoconhecimento. Quando samos de l, passamos em casa para comer e j era noitinha quando ele disse que queria ir para casa, queria conversar com Joo 
e Lucinha, porque naquele dia ele havia entendido muito a sua histria com os pais". 
       verdade. A conversa realmente aconteceu. Ao voltar para casa depois da experincia com o Santo Daime, Cazuza nos chamou para um encontro emocionante. Choramos 
juntos, enquanto nosso filho nos fazia uma tocante declarao de amor. As experincias com o Santo Daime, porm, foram testemunhadas pela enfermeira Mrcia, a Edinha. 
      "Naquela noite Cazuza chegou tarde em casa, com muita dificuldade para caminhar. Foi direto para o chuveiro. Evacuava sem parar numa diarria profunda. Quando 
percebi, todos tinham ido embora. Para falar a verdade, quando Cazuza passava mal, as pessoas iam embora. Depois do banho, ele telefonou para dona Lucinha e seu 
Joo e pediu que eles fossem para l. Eram os nicos que seguravam quando a barra pesava." 
      A enfermeira Mrcia sempre foi a preferida de Cazuza. Ela trabalhava na Clnica So Vicente, quando a contratei para atender meu filho. A empatia entre os 
dois foi imediata, como ela mesma conta: 
      "Cheguei ao apartamento de Cazuza s sete da noite para o primeiro dia de trabalho. Ele no estava, s voltou por volta da meia-noite, com uns amigos, o Zeca 
inclusive. Comeou a brincar comigo, a dizer que eu parecia com o cantor Ed Motta e que, se Cazuza fosse gordo, s usaria roupas muito estampadas, extravagantes. 
Pediu um suco e, quando voltei, me perguntou se eu namorava meninos ou meninas. Assim, sem ponto nem vrgula. Fui contratada, no incio, para ficar com ele uma noite 
sim, outra no". 
      Nunca mais ningum se referiu a Mrcia por seu nome de batismo. A partir desse dia ela seria Edinha para todos. 
      
      Em janeiro de 1989 chegou s lojas o disco O Tempo No Pra, gravado ao vivo no Caneco, durante apresentaes do show com o mesmo nome, como trabalho de lanamento 
do disco Ideologia. Logo que recebeu alta da Clnica So Vicente no dia 4 de abril, data em que completou 31 anos, Cazuza comeou a gravar o disco Burguesia, nos 
estdios da Polygram. O disco - duplo - foi gravado entre abril e maio. Foi na temporada de internao no hospital que ele preparou o repertrio, trabalhando furiosamente, 
produzindo cerca de vinte letras. Eu passava as noites com ele no hospital e, invariavelmente, era acordada cedinho, para que passasse a limpo as letras em que ele 
trabalhara na madrugada. A Nandinha cabia o trabalho de lev-las para os parceiros que ele designava - uma para Fagner, outras para ngela R R, Joanna, Joo Donato, 
Arnaldo Brando. Entrou no estdio com msicas em excesso. 
      No deixou que eu acompanhasse as gravaes, mas fiquei sabendo das dificuldades todas que a equipe enfrentou para corresponder ao seu estado de urgncia. 
Chegava ao estdio de cadeira de rodas. As vezes, gravava deitado, com um fiapinho de voz, num esforo supremo para se superar e deixar sua histria registrada em 
notas musicais. Joo Rebouas, parceiro de Cazuza, entre outras, em Filho nico e em Quando Eu Estiver Cantando, e produtor musical de Burguesia, relatou aos jornalistas 
sua experincia: 
      "Ele cansou a gente. Tinha muita pressa, mas ao mesmo tempo mexia nas msicas. Com aquela objetividade dele, Cazuza tinha certeza do que queria e de como as 
coisas iam ser. Por isso, no hesitava em mudar as msicas toda hora, ou decidir que tal voz gravada em tal msica ia ser a definitiva, porque no ia dar para fazer 
melhor". 
      
      Dependendo das condies em que se encontrava, meu filho passava de duas a doze horas gravando, como o supervisor do estdio da Polygram, Paulo Succar, declarou 
 imprensa: 
      "s vezes, ele chegava ao estdio num estado que deprimia a todos ns. Mesmo assim, gravava com disposio". 
      Cazuza estava to determinado a concluir esse trabalho e tinha tanta pressa que chegou agravar deitado no sof do estdio, sob o efeito de 39 graus de febre. 
Nesse estado de euforia criativa e pressa de viver, Cazuza resolveu atender ao pedido de entrevista feito pela jornalista Angela Abreu, da sucursal carioca da revista 
Veja. Ficou excitadssimo. Joo havia negociado a entrevista porque Cazuza nos confessou que um dia sonhou ser capa de duas revistas - Manchete e Veja. A primeira 
vez em que falamos sobre o pedido da entrevista. para a Veja foi pelo telefone. Ele me disse que a revista lhe ofereceu duas possibilidades - Pginas Amarelas ou 
capa. Evidente que ele preferiu a capa. Fiquei bastante preocupada porque ele estava muito mal fisicamente, mas no quis me Intrometer: 
      - Faa o que voc quiser, porque nada do que eu disser vai acrescentar nada! 
      Mas Cazuza, querendo me tranqilizar, esclareceu: 
      - No, mame, a jornalista que vai me entrevistar foi sua colega de colgio, o nome dela  ngela Abreu. 
      Pouco me lembrava do jeito de ngela porque ela era mais nova do que eu, embora tivssemos sido contemporneas no Sacr Coeur de Marie. No dia marcado fui 
para o apartamento de Cazuza, para ouvir o que ele iria dizer. Ele no permitiu que eu ficasse na sala, ento fui para o quarto com o Bineco, e s a secretria Nandinha 
permaneceu com Cazuza e a jornalista. Um tempo depois, ngela Abreu entrou no quarto para dizer que seu colega de Veja, ambos da sucursal carioca, Alessandro Porro, 
tambm estava chegando para acompanhar a entrevista. No me importei porque j o conhecia - era amigo de Claude Amaral Peixoto e, com ela, esteve uma vez em nossa 
casa de Angra dos Reis, alm de deixar uma mensagem elogiosa  casa no livro de visitas que mantemos l. 
      Colei o ouvido na porta para ouvir as declaraes de Cazuza, que, no momento, vivia sua melhor fase do "soro da verdade". No media as palavras. Na sala, na 
frente dos jornalistas, Cazuza dizia absurdos que me deixaram bastante preocupada. Claro, eles iriam publicar as piores coisas que ele falara, eu tinha certeza. 
Liguei para o Joo confessando meus temores, durante a entrevista. Ele disse que no poderamos fazer nada e a entrevista terminou num clima bastante cordial. ngela 
Abreu se despediu alegremente e Alessandro Porro deu at um presente para o Cazuza antes de sair: um isqueiro Zippo. Naquela noite, voltei ao assunto com o Joo 
e, para nos tranqilizarmos, ele telefonou para Maria Lcia Rangel, tambm amiga de Porro. Depois, ligou diretamente para o jornalista. Pediu que, por favor, levassem 
em conta o estado de sade de Cazuza e os efeitos dos remdios em seu comportamento. Nas duas tentativas, a resposta foi a mesma: fiquem tranqilos, a matria vai 
estar na banca no domingo e est tudo bem! 
      O encontro de Cazuza com os jornalistas de veja aconteceu numa quarta-feira e, na sexta, ainda encontramos Porro num restaurante de Ipanema, que voltou a dizer 
que nada iria nos aborrecer na matria. No final de semana, viajamos para nossa casa de Petrpolis. Cazuza misturava sentimentos de expectativa e euforia em relao 
 veja. A edio da semana, com data de 26 de abril de 1989, foi s bancas com uma foto agressiva, que o fazia pior do que ele realmente estava, e um ttulo arrasador: 
Cazuza; Uma Vtima da Aids Agoniza em Praa Pblica. Em sua capa, veja sentenciou a morte de meu filho sem qualquer constrangimento. Como deuses, jornalistas decidiram 
seu destino e, a sim, o exibiram em praa pblica. 
      Na tarde de domingo, estvamos tomando sol na piscina quando Joo chegou com sinais de preocupao no rosto e a revista nas mos. Ele no sabia como entreg-la 
a Cazuza e sofreu muito ao perceber suas primeiras reaes. Ao ver a veja nas mos do pai, meu filho a agarrou imediatamente e leu a reportagem inteirinha. Quando 
acabou, seus olhos estavam cheios de lgrimas: 
      - Eu s no perdo eles terem posto em dvida a qualidade de meu trabalho! 
      
      As declaraes de meu filho na matria publicada no foram distorcidas. A no ser o fato de ter opinado sobre o estado de sade do ator Lauro Corona ("Ele 
deve estar com aids, sim!"), nada do que ele disse me espantou, pois Cazuza nunca escondeu sua maneira de pensar e encarar o mundo. Alguns trechos do que foi publicado: 
       " a minha criatividade que me mantm vivo. Meu mdico diz que eu sou um milagre porque tenho tanta energia, tanta vontade de criar que  isso que me deixa 
vivo. Minha cabea est muito boa, ela comanda tudo. " 
        "Me sinto livre, sem medo de morrer. Da ltima vez em que fui para a clnica, vi a cara da morte, entrei nela e sa, no sei como.  claro que eu no quero 
morrer, mas tambm no quero sofrer. J pensei em suicdio, mas agora isso nem me passa pela cabea. Falei com meu mdico: se alguma coisa acontecer comigo, eu no 
quero ver. Que ele me d morfina, muita morfina, porque quero ir embora dormindo. Estou pronto para assinar um papel nesse sentido. Mas no vai ser preciso. Tenho 
certeza de que vou viver muito tempo ainda. J perdi a oportunidade de morrer, passou a minha vez." 
       "Meus pais no saram do meu lado um minuto. Minha me foi uma leoa, ficava ao lado da minha cama e nem deixava que as enfermeiras me tocassem. Eu queria 
sair do hospital, queria acabar logo com tudo aquilo, mas ela me mandava ficar quieto, e eu ficava." 
       "Quando eu estava no hospital de Boston, pensei muito e acabei descobrindo que ficar calado me deixava ainda mais traumatizado.  uma situao ambgua, de 
esconde-esconde. Mostrar aos outros que com a aids pode-se continuar vivendo, trabalhando, produzindo me pareceu o caminho mais certo. Agora me sinto mais aliviado." 
       "Na ltima vez que me internei foi por puro lcool. Eu, que deveria ter uma vida tranqila, sem beber nem me cansar, passei dois dias numa praia enchendo 
a cara de cachaa, de caninha 51 mesmo. Me dei mal, fui para a Clnica So Vicente e foi um milagre no ter morrido." 
      
      O real problema da matria se concentrava em seu pargrafo final, editorializado,  maneira comum no comportamento da revista, quando emite um juzo de valor 
em cima do personagem que acabou de retratar. Uma postura que nos faz pensar na autoritria posio em que a Veja se coloca, como se coubesse a um s jornalista 
sentenciar com tanta convico a obra alheia, em nome de uma revista de respeito: 
      "Cazuza no  um gnio da msica.  at discutvel se sua obra ir perdurar, de to colada que est no momento presente. No vale, igualmente, o argumento 
de que sua obra tende a ser pequena devido  fora do destino: quando morreu de tuberculose em 1937, Noel Rosa tinha 26 anos, cinco a menos que Cazuza, e deixou 
compostas nada menos que 213 msicas, dezenas delas obras-primas que entraram pela eternidade afora. Cazuza no  Noel, no  um gnio.  um grande artista, um homem 
cheio de qualidades e defeitos que tem a grandeza de alarde-los em praa pblica para chegar a algum tipo de verdade". 
      Em oito anos de carreira, Cazuza deixou 126 msicas gravadas por ele, 34 por outros intrpretes e mais de 60 inditas. 
      Meu filho no agentou. As lgrimas tristes se transformaram em choro convulsivo. A presso baixou quase a zero. No conseguimos controlar a crise em Petrpolis 
e decidimos lev-lo imediatamente para o Rio. Na estrada, com a enfermeira e Zlia, nossa caseira de Petrpolis, ao lado, Cazuza passou por momentos crticos. Meu 
desespero era tanto que temi por sua vida, imaginando que ele no resistisse s curvas da Rio-Petrpolis. Era uma hora da madrugada quando meu filho, j internado 
e medicado na Clnica So Vicente, saiu da crise e a presso foi estabilizada. Nesse momento, peguei o telefone e toquei para a casa da jornalista ngela Abreu. 
Ela no estava. Falei ento para uma de suas filhas: 
      - Diga  sua me que estou ligando do hospital, que meu filho quase morreu. E que eu espero que nunca ningum faa com vocs o que ela fez a meu filho! Diga 
a ela que suma da minha frente porque vou odi-la para o resto da vida e voc devia ter vergonha de ser sua filha. ngela abusou da generosidade de meu filho, que 
lhe abriu as portas de sua casa, e depois escreveu aquela matria horrorosa. 
      Pouco depois, a prpria Angela Abreu ligou e falou com Joo. Disse que, apesar de seu nome estar assinado nos primeiros pargrafos da matria - ao lado de 
Alessandro Porro -, ela no era a responsvel pelo texto final. Para ns, que nunca trabalhamos numa redao de jornal, mais especificamente a redao da revista 
Veja, era impossvel entender como uma jornalista pode assinar um texto que no  de sua autoria. ngela argumentou que o texto final da matria fora editado em 
So Paulo. Disse mais: que no concordava com o que foi publicado e que iria pedir demisso. O que, de fato, ela fez na semana seguinte. Mas ainda havia Alessandro 
Porro, com quem tnhamos conversado vrias vezes antes da publicao. 
      Assim que Cazuza leu a matria e comeou a perder a presso sangnea, Joo, desesperado, lhe fez uma promessa: 
      - Meu filho, eu vou dar uma porrada nesse cara de qualquer maneira. Voc no tem mais foras, mas eu tenho!!! 
      Durante trs noites seguidas, Joo acampou na porta do apartamento onde vivia Alessandro Porro, no Rio. Ficava at de madrugada dentro do carro, esperando 
que ele entrasse ou sasse. Ele lembra: 
      "Fiquei to louco que, por pouco, no me torno um assassino. Eu estava completamente transtornado e, se o pegasse, tenho certeza de que poderia acontecer algo 
muito grave. Mas acabei falando com ele s por telefone e a porrada que deveria ter sido dada pessoalmente se transformou num esporro monumental, quando cheguei 
a amea-lo de morte". 
      Depois do episdio, Alessandro Porro foi morar na Europa, e ali permaneceu por seis meses. Na segunda-feira, quando efetivamente a revista comeou a circular, 
telegramas e telegramas de solidariedade comearam a chegar em casa e o telefone no parou um s minuto. Cazuza, que dormiu na Clnica So Vicente, voltou para casa 
tristemente abatido. Estava revoltado quando redigiu uma carta-resposta, publicada em jornais e revistas, com o ttulo Veja, a Agonia de uma Revista: 
      "A leitura da edio da VEJA que traz meu retrato na capa produz em mim - e acredito que em todas as pessoas sensveis e dotadas de um mnimo de esprito de 
solidariedade - um profundo sentimento de tristeza e revolta. 
      Tristeza por ver essa revista ceder  tentao de descer ao sensacionalismo, para me sentenciar  morte em troca da venda de alguns exemplares a mais. Se os 
seus reprteres e editores tinham de antemo determinado que estou em agonia, deviam, quando nada, ter tido a lealdade e franqueza de o anunciar para mim mesmo, 
quando foram recebidos cordialmente em minha casa. 
      Mesmo no sendo jornalista, entendo que a afirmao de que sou um agonizante devia estar fundamentada em declarao dos mdicos que me assistem, nicos, segundo 
entendo, a conhecerem meu estado clnico e, portanto, em condies de se manifestarem a respeito. A VEJA no cumpriu esse dever e, com arrogncia, assume o papel 
de juiz do meu destino. Esta  a razo da minha revolta.
      No estou em agonia, no estou morrendo. Posso morrer a qualquer momento, como qualquer pessoa viva. Afinal, quem sabe com certeza o quanto ainda vai durar? 
      Mas estou vivssimo na minha luta, no meu trabalho, no meu amor pelos meus seres queridos, na minha msica - e, certamente, perante todos os que gostam de
mim.
      Cazuza".

      Evidentemente no por causa dos protestos, mas o fato curioso  que a edio imediatamente posterior  capa de Cazuza no circulou, em funo de uma greve
de grficos. Caso nico nos 29 anos de histria da revista.


     Captulo 17
     So Paulo,
     Uma esperana frustrada

      
      "Mentiras sinceras me interessam"
      Maior abandonado
      
      As reaes  matria da Veja foram imediatas. Jornais e revistas repercutiram o assunto, uns contra a atitude da revista, outros defendendo a liberdade de 
imprensa e outros, ainda, se mantendo completamente neutros. A grande noite de desagravo, porm, aconteceu dias depois, em 28 de abril de 1989, durante a festa de 
entrega do II Prmio Sharp de Msica, ano Dorival Caymmi, em que Cazuza estava indicado para vrias categorias. Alugamos um quarto no Hotel Copacabana Place para 
nosso filho ficar mais confortvel. Ali ele se vestiu e desceu para o auditrio de cadeira de rodas e um turbante palestino na cabea. Refeito e animado com a solidariedade 
recebida, principalmente da classe artstica, Cazuza foi aplaudidssimo, num momento emocionante, ao receber seus trs prmios: melhor disco pop/rock, por Ideologia; 
melhor msica pop/rock, por Brasil e melhor msica do ano, tambm por Brasil prmio que ele dividiu com os parceiros Jorge Israel e Nilo Romero e com a intrprete, 
a cantora Gal Costa. Fernanda Montenegro leu o manifesto de desagravo  matria da revista Veja, que foi assinado por mais de 60O personalidades. Cazuza estava feliz 
e com os braos para cima quando agradeceu dizendo que o trabalho  o que proporciona toda a alegria ao homem e que suas letras o mantinham vivo. 
      Antes do final de maio, encerradas as gravaes do lbum duplo Burguesia, Cazuza passou mais dois dias internado na Clnica So Vicente, para os exames de 
rotina que, em princpio, deveria fazer em Boston. Sem foras para andar, perdendo peso a cada dia, sempre com um probleminha preocupante. O estado de sade de meu 
filho piorou, aponto de ele no controlar mais a urina. Sem o recurso de lev-lo a especialistas americanos, pois o Consulado Americano se negava a lhe conceder 
o visto, no sabamos mais a quem recorrer, o que tentar. Joo continuava firme em seu discurso a Cazuza, que, muitas vezes, lhe telefonava para pedir: 
      - Pai, vem aqui me dizer aquelas coisas!! Estou precisando ouvir. 
      Joo corria para casa e repetia sem cansao: 
      - Meu filho, voc no vai morrer porque essa doena no mata mais ningum. Voc vai viver como os diabticos vivem. Se tratando! 
      
      E todos, inclusive eu, continuamos acreditando cegamente em suas palavras. Quem j passou pelo infortnio de conviver com um paciente hiv positivo em estado 
adiantado sabe o quanto  difcil manter elevado o moral do doente. Os incmodos causados pela doena no lhe do trgua um dia sequer. A certa altura o doente fica 
to fraco e com o sistema imunolgico to debilitado que qualquer alterao emocional  motivo para novas reaes psicossomticas, inclusive a tristeza e o desnimo. 
Naquele momento, tudo o que me dissessem que era bom, eu tentava. Cazuza jamais soube dos lugares que freqentei, das preces a todos os santos e de tudo o que tentei 
para mant-lo vivo. Ficamos cheios de esperana quando Flora, mulher de Gilberto Gil, nos contou que seu pai, sofrendo de cncer no pulmo, estava recebendo vacinas 
 base de sangue de cavalo em So Paulo e reagindo muito bem. O tratamento parecia funcionar em pacientes com cncer e seu objetivo era fortalecer o sistema imunolgico, 
com vacinas que eram aplicadas trs ou quatro vezes por semana. Cazuza no queria fazer o tratamento de jeito nenhum. Resistiu o quanto pde. Mas a presso de todos 
os seus amigos foi grande, inclusive de Flora, que nos ajudou a convenc-lo. 
      E assim, no dia 6 de junho de 1989, embarcamos para So Paulo, num jatinho alugado por Joo. Do aeroporto seguimos diretamente para o Hospital Albert Einstein, 
onde Cazuza realizou inmeros exames, a pedido dos novos mdicos. As tais vacinas de sangue de cavalo haviam sido desenvolvidas por um veterinrio e estavam sendo 
testadas por dois mdicos - Wanderlei Roquete, cirurgio-geral, e Fbio Tofoly Jr., psiquiatra. Pedimos a opinio de um mdico do Einstein, que sequer conhecia os 
dois mdicos em questo, e o que ele disse nos acalmou: 
      - Se eu fosse vocs, tentava. Sabe-se to pouco sobre aids ainda que a medicina tradicional pouco poder fazer por seu filho! 
      
      Junto conosco, viajaram a enfermeira Ana, a secretria Nandinha e o segurana Ben. Joo veio de carro com Ezequiel. Na semana em que Cazuza se internou no 
Einstein, pedi a minha irm Christina, que vivia em So Paulo, para procurar uma casa que pudssemos alugar por temporada - no tnhamos idia de quanto tempo ficaramos 
em So Paulo. Foi quando o doutor Fbio nos disse que estava se separando da mulher, que tinha uma casa disponvel e que poderia nos alugar. Ficava na Vila Madalena 
e era o pior lugar para se hospedar uma pessoa nas condies fsicas de Cazuza. Uma casa de trs andares, cheia de escadas, com banheiros pequenos e sem banheira. 
Transportar Cazuza e sua cadeira de rodas era de uma enorme dificuldade. Mas os mdicos nos disseram que, se ficssemos ali, tudo seria mais fcil para o tratamento, 
j que moravam por perto. Naquele momento, confesso, no tinha muita cabea para refletir e pesar os prs e contras, acabamos nos mudando para l no dia 10 de junho 
e s sairamos dali em 3 de agosto. A casa estava muito desleixada, aponto de eu trazer as empregadas do Rio para nos ajudar. Iracema, que trabalhava com Cazuza 
no apartamento do Leblon, e Zlia, de Petrpolis, se revezavam. Minha amiga e comadre Vera Duvernoy colaborou muito ao fazer todas as compras no Ceasa e ao trazer 
todos os dias um prato diferente que ela mesma cozinhava, para despertar o apetite de Cazuza durante os seis meses de nossa permanncia em So Paulo. 
      Os mdicos iniciaram o tratamento com as injees e suspenderam definitivamente o AZT. A melhora de Cazuza foi visvel e animadora. Engordou oito quilos e 
ganhou novas foras para reagir. Muitas vezes, saamos para almoar na churrascaria Rodeio, ou para longos passeios. Cazuza sentava-se na beirada da cama, esticava 
as pernas e se alegrava com os movimentos que conseguia fazer. 
      Mas uma nuvem negra se alojou bem em cima da casa da Vila Madalena. O doutor Fbio - embora nos tenha alugado a casa - aparecia de vez em quando, fora do expediente, 
com a namorada. Se instalava no estudiozinho do andar trreo para ouvir msica. s vezes, entrava no quarto onde eu dormia com Cazuza intempestivamente, s oito 
horas da manh. Meu filho ainda dormia. Mas o doutor Fbio o acordava e ficava olhando, sem dizer nada. Ficava apenas olhando. Meu filho foi se enervando com aquele 
comportamento do psiquiatra-locador: 
      - P, voc nunca me viu? Voc vem aqui me acordar e fica olhando pra minha cara, sem dizer nada! Que cara chato! No vem mais a essa hora porque eu no te 
recebo! 
      
      A cada dia, a implicncia de Cazuza com o psiquiatra se intensificava. Ao mesmo tempo, comecei a enfrentar problemas com os empregados, mais especificamente 
com o motorista e segurana Ben. Chegamos a um ponto em que ele me xingou na frente de Cazuza, que, indignado, o despediu na hora: 
      - Voc no pode falar assim com minha me! Vai embora daqui imediatamente! 
      
      Todos ficaram bravos comigo, porque Ben era o nico que conseguia realizar certas tarefas com Cazuza, impossveis para mim. Eu no tinha foras para carreg-lo. 
Zeca e Joo acharam que a implicncia era minha, mas no era verdade. Com a sada de Ben, Cazuza perdeu o brao direito que o levava para onde queria, sem discusses. 
Joo pagou a Ben mais seis meses de trabalho e ele voltou para o Rio. No dia seguinte, Bineco ligou para uma empresa de segurana e contratamos Marcos, um amor 
de pessoa, que acabou substituindo Ben em todo o tempo em que ainda permaneceramos em So Paulo. 
      
      A casa da Vila Madalena j no servia mais para ns. E Christina, minha irm, comeou a procurar outro lugar para que Cazuza e todos ns nos sentssemos mais 
confortveis. Meu filho entrou em depresso e fez um apelo: 
      - Mame, eu quero ir embora para o Rio. S fico em So Paulo se voc arranjar uma casa melhor. Eu no fico mais nessa pocilga! 
      
      Alugamos, ento, uma casa tima num condomnio fechado no Sumarzinho. Era trrea, com quatro quartos, muito bem dividida, com jardins e uma piscina, onde 
Cazuza podia fazer fisioterapia e tomar sol. Era muito mais fcil locomov-lo. Naquela casa tambm recebeu a visita de muitos amigos. Zeca viveu na ponte-area por 
todo o tempo em que permanecemos em So Paulo. Bineco passou longas temporadas e me ajudava muito. Rodolfo Bottino, Guilherme Leme, Orlando Morais, Glria Pires, 
Marisa Monte, o pessoal do Kid Abelha, Gilberto Braga e Edgar visitaram Cazuza na casa do Sumarzinho. Tambm Roberto de Carvalho, que lia para ele trechos de livros 
que ajudavam a lhe trazer uma certa paz espiritual. Rita Lee contou a Almir Chediak, no songbook de Cazuza, como sentiu essa fase de meu filho quando o visitou por 
duas ou trs vezes: 
      "Levei algum tempo para visitar Cazuza porque me recusava a v-lo doente. Como estaria aquele cara que conheci menino - um menino que tinha uma energia danada? 
Ele ia assistir, todos os dias, ao show Babilnia, no Rio de Janeiro, e eu dizia para o Joo Araujo, pai dele: sai da frente, que esse menino vai arrebentar! Foi 
uma coisa muito bonita aquela minha visita. Ele continuava espoleta pra chuchu. Quando me viu, fez uma cara de quem estava feliz. Fazia muito tempo que a gente no 
se encontrava. Como ns sempre fomos muito magros, falamos de magreza, vovamos mais alto do que os gordos, at que ele disse assim: voc sabe, eu estava no meu 
stio olhando a lareira, vendo as chamas, e me lembrei de teus cabelos vermelhos. Acabei fazendo uma letra chamada Perto do Fogo. Queria que voc lesse. Quando li, 
adorei. Putz, que bonito, Cazuza! Que legal!  a minha cara! Da ele me perguntou quantos anos a gente teria no ano 2020. Ficamos conversando sobre isso, fiz minhas 
contas: vou ter 72, 73, e voc? Ele teria 52, 53. Estvamos pensando no futuro. Ele s pensava no futuro. Gravei a msica no dia em que ele morreu, sem saber que 
ele tinha morrido. A lembrana que me ficou dele foi essa: Cazuza nunca estava down, estava sempre xingando, falando, dando ordens, cheio de futuro pela frente, 
botando os ys, ys pra fora. Ele dizia: no quero morrer. E no morreu".  
      
      Embora muito fragilizado, meu filho acreditava tanto na melhora. que marcou um show para os dias 14 e 17 de junho, no Jazzmania, Rio. Zeca lembra: 
      "Eu dizia: Cazuza, mas voc vai fazer um show nessas condies? Ele falou: ah, vai ser maravilhoso, imagine eu cantando de cadeira de rodas e aquela confuso 
toda pra me ver!"  
      
      Evidentemente, o show no aconteceu. Em 21 de agosto, foi lanado o lbum duplo Burguesia, gravado no comeo do ano. Para a maior parte da imprensa, o disco 
no era bom. Alguns comentaram sobre o ltimo registro de um artista doente, destacando o lado humano. Poucos no tiveram um pingo de compaixo, como Andr Forastieri, 
na Folha de S. Paulo, em 13 de agosto de 1989: 
      "Como diz o prprio Cazuza em seu novo disco, seu canto  o que o mantm vivo. E se ele quer continuar vivo e evoluindo, tem que se esforar mais. Seu pblico
espera mais dele".
      
      Em So Paulo, ainda recebemos a notcia de que o apartamento de Cazuza na Visconde de Albuquerque havia sido assaltado. Levaram a televiso, o videocassete, 
todo o seu equipamento fotogrfico. Os ladres arrombaram a porta com um p-de-cabra. Mas isso no representou absolutamente nada diante do incontrolvel. Os oito 
quilos ganhos com a suspenso do AZT e - s Deus sabe -com as tais vacinas desapareceram e a sade de Cazuza foi minguando. No conseguimos encontrar ningum que 
pudesse fazer algo por ele. Joo: 
      "Essa doena era to misteriosa que ele nos dava esperanas e, de repente, ela retrocedia para baixo do nvel em que meu filho estava..  uma doena que te 
dribla feito o Garrincha". 
      
      Num final de semana de outubro, Cazuza passou bastante mal e no foi possvel localizar nenhum mdico da equipe que o estava acompanhando. A febre passava 
dos 40 e ele sofria bastante com os tremores e mal-estar provocados pela alta temperatura. No sabamos o que causava a febre. 
      Joo ligou para seu irmo Zezinho, que vive em So Paulo, e lhe pediu a indicao de algum especialista em aids. Zezinho nos colocou em contato com o jovem 
doutor Dcio Diament, imunologista. Depois de examinar Cazuza, o doutor Dcio concluiu que a situao de meu filho era grave, gravssima. O citomegalovrus - que 
em geral cega - havia se alojado no aparelho digestivo. Cazuza estava com hemorragia interna e precisava ser internado imediatamente. Por falta de vagas no Albert 
Einstein, fomos para o Hospital Nove de Julho para uma semana em que meu filho lutou pela vida e viu a morte de perto. A queda de plaquetas no sangue de Cazuza foi 
to violenta que ele chegou a tomar dez doses suplementares de plasma num s dia. Precisvamos de muitos doadores e Joo fez um apelo aos funcionrios da Som Livre, 
pendurando cartazes nos elevadores. Oferecia passagem, refeio e transporte a quem pudesse fazer a caridade de viajar a So Paulo e doar plaquetas de sangue ao 
hospital. Vrios atenderam ao apelo e sempre lhes seremos gratos por esse gesto to generoso. 
      Joo decidiu fazer um apelo dramtico ao Consulado Americano, para que pudssemos levar Cazuza novamente a Boston. Imploramos ao doutor Dcio para tirar nosso 
filho da crise e o deixar em condies de enfrentar a longa viagem aos Estados Unidos. Ele no nos prometeu nada, apenas que tentaria de todas as maneiras. Reprteres 
e fotgrafos faziam planto na porta do Hospital Nove de Julho. Cazuza recebeu a visita de vrios amigos nessa penltima internao no Brasil, entre eles Bebel Gilberto, 
Guto e Roberto Frejat, do Baro. Nem  preciso dizer que Zeca estava conosco. Ele e Frejat choravam quando meu filho, que j no conseguia erguer os braos, fez 
um esforo supremo para abraar Frejat: 
      - Oh, Brou, voc veio me ver!!!
      
      Foram pouqussimas vezes, em toda a minha vida, que presenciei uma cena to comovente. Chorei do lado de fora. 
      
      Finalmente, o Consulado Americano liberou o visto de Cazuza, que precisou tirar um novo passaporte. Para a viagem a Boston, Roberto Irineu, seus irmos e o 
doutor Roberto Marinho nos ofereceram um jatinho Challenger, onde foi montada uma U.T.I mvel. Nossa sada do Hospital Nove de Julho foi arquitetada para driblar 
a 
imprensa. Foi uma cena felliniana: Cazuza escondido debaixo de um lenol saiu pela porta do fundo do hospital, evitando assim o tumulto que se formou na Rua Peixoto 
Gomide, juntando uma pequena multido excitada. Eram 18h30 quando pude ver, pela janela da ambulncia, Joo e alguns de nossos amigos tentando evitar que a imprensa 
nos fotografasse. Um empurra-empurra danado, um tumulto. Para acalmar os nimos, Joo resolveu dar uma entrevista coletiva no prprio Hospital Nove de Julho. Confirmou 
a viagem aos Estados Unidos, falou que o estado de Cazuza piorara sensivelmente no final da semana, mas que ele j no corria risco de vida. Disse, ainda, que confiava 
"nos avanos da cincia". 
      No jatinho viajaram Cazuza, o doutor Dcio Diament, uma enfermeira do Hospital Albert Einstein (e no do Nove de Julho, que no possua esse servio de transporte), 
uma aeromoa, a enfermeira brasileira que contratamos para ficar nos Estados Unidos, os dois pilotos e eu. As 19h30 levantamos vo para uma viagem de dezesseis horas 
com duas paradas - uma no Brasil e outra no Panam, rumo a Boston outra vez para a ltima internao de Cazuza no New England Medical Center e para nossas derradeiras 
tentativas de mant-lo vivo. 
      
      
      
     Captulo 18
     Em Boston, pela ltima vez
      
      "Senhor, estou pronto para ir ao seu encontro/
      Mas no quero/No vou/No quero"
      Azul e amarelo
      
      Cazuza permaneceu inconsciente durante toda a viagem a Boston. Quando acordou, j estava internado no apartamento 601 do New England Medical Center. Clara 
Davis, nossa fiel escudeira e amiga, e correspondentes da imprensa brasileira nos aguardaram na chegada ao aeroporto. Mas Cazuza no se deu conta de absolutamente 
nada. Ao acordar, dois dias depois, suas lembranas eram da casa de So Paulo: 
      - Onde estou? Que lugar  esse? 
      - Voc est em Boston, no hospital. 
      - No. Estou em So Paulo, na minha casa!!! 
      
      Foi preciso situ-lo no tempo e no espao. Logo aps, nos transferimos para um quarto grande, bem amplo, e ali permanecemos de outubro  primeira quinzena 
de maro, quase cinco meses. Cazuza, nesse perodo, no saiu mais do hospital, deixou o quarto apenas para passeios pelos andares, dar um pulo na lanchonete ou para 
fumar um cigarro. O citomegalovrus fazia estragos em seu organismo. E, enquanto ele no fosse controlado, era impossvel experimentar o novo medicamento, o DDI 
- que comeou a ser testado em pacientes soropositivos, em substituio ao AZT. Infelizmente, o DDI no era compatvel com crise alguma. Cazuza passou a combater 
o citomegalovrus com o medicamento Ganciclovyr. Quando o corpo de meu filho respondia com sinais de melhora, os mdicos suspendiam o Ganciclovyr, na tentativa de 
administrar o DDI. Mas bastava o organismo sentir falta da droga para o febro voltar. Essa gangorra nos acompanhou por todo esse perodo em Boston. 
      Cazuza comeou ento a se rebelar contra as regras hospitalares. Resolveu que os curativos em sua escara no cccix seriam trocados quando ele determinasse; 
o banho, na hora em que quisesse; e comer, s quando a fome chegasse. A alimentao de meu filho se transformou num tormento para mim. Ele no queria comer de maneira 
alguma, porque se sentia enjoado com os remdios. Na minha cabea, s a alimentao poderia tir-lo daquela crise. Fazia de tudo para lhe despertar o apetite. 
      Por sorte, a colnia brasileira em Boston se faz presente em boa parte dos restaurantes da cidade. Todos os dias eu saa para comprar comida para Cazuza e, 
assim, acabei ficando bastante conhecida pelos matres. Geralmente era reconhecida como a me de Cazuza e ningum cobrava pela comida. Todos se empenhavam com dedicao 
e capricho para ajud-lo. As exigncias de Cazuza eram constantes e, muitas vezes, de difcil execuo: um queijo no sei de onde, a ma que vinha de fora, o melo. 
Montei, ento, uma minicozinha em seu quarto, com liqidificador, frutas, po e outros alimentos que ele aceitava. Como trocava o dia pela noite, meu filho tinha 
fome durante a madrugada. Adorava, tambm, comida chinesa e, com o tempo, passou a ligar pessoalmente para Wilson, cozinheiro de um restaurante hngaro, o Budapeste. 
      - Wilson, o que voc tem de bom a? Eu quero isso e aquilo. 
      
      Havia sempre algum em Boston para me ajudar, pois minhas foras j beiravam a exausto: a enfermeira brasileira, a caseira de Angra, Clarice, e a de Petrpolis, 
Zlia, irms e minha cunhada Maria Antnia se revezaram na ponte-area Rio-Boston nesses cinco meses. Muitos amigos tambm nos visitaram e deram seu apoio: Maryse, 
Ari Villar, Isabel Ferreira, Aninha Arantes, Gogia e minha sobrinha Cludia. Por causa da minha insistncia com a alimentao, a implicncia de Cazuza se voltou 
para mim. Como no tempo em que ele era um garotinho e eu o obrigava a comer, a tomar os remdios, a fazer o que era preciso. Passvamos o dia inteiro nessa luta, 
num conflito desgastante para ambos. Numa das idas de Joo a Boston, meu filho pediu a ele que me levasse embora para o Brasil: 
      - Pai, precisamos ter uma conversa particular!! Mame  muito chata, leva ela embora com voc e me deixe aqui com as enfermeiras. 
      
      Joo no concordou, claro: 
      - Sua me vai ficar aqui, Cazuza. Alis, ela est se queixando de que voc est fazendo algumas coisas erradas. Vamos fazer uma negociao? Voc topa? 
      Joo pegou um papel e anotou as metas, evidentemente aumentadas, para que Cazuza concordasse com o que queriam os mdicos: 
      - curativos - 5 por dia 
      - cigarros - 5 por dia 
      - banho todos os dias 
      - 4 refeies por dia 
      Meu filho se comprometeu ento a fazer dois curativos por dia, a fumar seis cigarros, no mximo, a tomar banho e a fazer duas refeies. No dia seguinte, pela 
manh, ao entrar no quarto, a enfermeira disse a Joo que j era o dcimo cigarro que ele acendia. Joo o repreendeu: 
      
      - Cazuza, voc no me prometeu que iria fumar s seis cigarros? Voc no viu o papel onde escrevemos tudo? 
      - Pai, eu assinei alguma coisa? Se eu no assinei, no vale nada. Fica o dito pelo no dito. 
      - Mas, Cazuza, no jogo do bicho ningum assina nada e, no entanto, quando algum ganha, recebe. 
      - Eu no estou jogando no bicho, no estou no Brasil e, se no assinei, no vale!!! 
      Dizia isso rindo, com extremo senso de humor. Era impossvel resistir. Todas as enfermeiras do Pratt 6 (Edifcio Pratt, 6 andar) adoravam cuidar de Cazuza. 
Ele conversava com cada uma delas, dizendo coisas absurdas com seu jeito brincalho. Tambm gostava de implicar com os mdicos assistentes. Quando um deles aparecia 
para v-lo, Cazuza esperneava: 
      - Assistente no vai me assistir nunca! Eu quero falar com o fodo!! Assistente  como vice, pode ir embora e chama o fodo!! 
      
      Ele se divertia, tambm, ao demonstrar seus inacreditveis conhecimentos sobre o povo judeu, que ele muito admirava. Cazuza sabia distinguir, pelo sobrenome 
de cada um, a origem dos mdicos que entravam em seu quarto, como o doutor Sheldon Wollff, por exemplo: 
      - Judeu polons de alta estirpe, hein? 
      Doutor Wollff se espantava quando Cazuza comeava a desfilar sua cultura judaica, contando toda a histria para cada um que ele conseguisse identificar. 
      Por todo esse perodo, meu filho teve sempre um de seus amigos por perto. Joo mandava buscar o Zeca, que ficou um ms, por trs vezes. Bineco passou mais 
outro ms. Francis, Francisca Botelho, joalheira e amiga de Cazuza que vivia em Nova York, tambm esteve conosco em Boston. As vsperas do Natal de 1989, o ltimo 
de sua vida, Joo perguntou quem ele gostaria que estivesse ao seu lado em Boston. Cazuza pediu que o pai trouxesse Zeca, Bineco e Alicinha Cavalcanti, que j estava 
por perto, no Texas - Cazuza sempre se referiu a ela como "Alicinha, que Delcia!!" -, alm de Francis. 
      Era a primeira vez que passaramos o Natal longe de casa. Por mais que eu me esforasse para sorrir e manter o alto-astral, meu corao se apertava de tristeza. 
Programamos, ento, uma festa no quarto do hospital, que foi todo decorado por minha amiga Isabel Ferreira e minha irm Clarinha, enquanto eu providenciei a comida. 
Cazuza pediu que eu comprasse um presente para cada uma das pessoas que cuidavam dele no hospital e assim foi feito. Vaguei muito  procura de um presente para meu 
filho, seu derradeiro presente de Natal. Acabei optando por um pedao do Muro de Berlim, smbolo de um perodo, de uma idia de libertao que eu desejava para Cazuza. 
      A ceia de Natal foi encomendada ao Hotel Four Seasons, com tnder de presunto, peru e rabanadas, uma comida bem brasileira. ramos nove no quarto do New England
Medical Center no Natal de 1989 nos esforando para aliviar o ambiente, para que meu filho se sentisse bem entre amigos. A festa se alastrou pelo hospital e, embora
quase todos fossem judeus, enfermeiras e mdicos participaram conosco daquela celebrao. Cazuza, com um gorro de Papai Noel na cabea, distribuiu os presentes tentando 
desesperadamente se sentir vivo. 
      Apesar de toda a animao, notei uma pontinha de tristeza em seus olhos fundos, mais profundos ainda do que j se mostravam. Ento, lhe pedi com delicadeza: 
      - Meu filho, d aquele sorrisinho que a mame gosta? 
      
      Cazuza sorriu de lado com todos os dentes  mostra, escancarados pela magreza. E, pela primeira vez, abracei meu filho pressentindo a fatalidade da dor de 
perd-lo. Me lembrei do menino lindo e saudvel que ele fora, enquanto apertava seu corpo magro, esqueltico, me dando conta da dura realidade de sua aparncia. 
Cazuza estava feio, com os cabelos feios, os bracinhos to finos, o rosto to encovado!!! Maldita doena, que alm de matar, castiga um ser humano com uma brutalidade 
descomunal. Cazuza no merecia todo aquele sofrimento! 
      Emocionado com a cerimnia da data natalina, Cazuza retribuiu ao meu abrao e me disse baixinho, colado ao meu ouvido: 
      
      - Mame, acontea o que acontecer, eu vou estar sempre junto de voc!!! 
      
      Embora o comportamento de Cazuza tenha sido surpreendente durante todo o tempo em que esteve doente, rarssimas vezes o ouvimos reclamar ou lamentar a sua 
sorte. Os dois episdios em que mais manifestou seu desespero com a idia da morte aconteceram em Boston. Primeiro, com Joo. Foi um apelo dramtico, do qual s 
fiquei sabendo depois de sua morte: 
      - Pai, quando voc perceber que no tem mais jeito, que eu no vou conseguir, pra de me dar remdio e me deixa morrer. Quero ter dignidade para morrer! 
      
      Certa noite, quando eu tirava um cochilo em seu quarto de hospital, acordei com os soluos de meu filho. Assustada, lhe perguntei o que havia acontecido. Ele 
no queria falar. Insisti at ele desabafar: 
      -  que estou pensando se, quando eu chegar l, vou encontrar a Vov Alice me esperando. 
      
      Era de cortar o corao, mas me mantive firme e forte, sem derramar uma lgrima. Ainda naquele momento me recusava a pronunciar a palavra morte ou at mesmo 
sua mera possibilidade. Mas, nas poucas vezes em que me mostrei cansada ou desanimada na frente de Cazuza, ele me afastou da depresso, exigindo que eu trocasse 
de roupas, ajeitasse os cabelos e no me entregasse ao desleixo. Certa vez, ao entrar desarrumada em seu quarto de hospital, ele me reclamou: 
      - O que  isso? Nem pensar que vai ficar assim! Pode ir se arrumar imediatamente. Alm de velha, mal-acabada?  demais, eu no mereo isso! E papai, muito 
menos! 
      Talvez a ltima alegria de Cazuza no New England Medical Center tenha acontecido em 10 de janeiro de 1990, quando ele recebeu a visita da amiga Ana Arantes. 
Diretora de televiso, Aninha dirigiu todos os videoclipes de Cazuza desde que ele lanou Ideologia. Tambm assinou o roteiro e a direo do especial dele na Rede 
Globo, sob a direo geral de Roberto Talma, exibido no final de 1988 e escolhido pela APCA (Associao Paulista dos Crticos de Arte) como o melhor programa musical 
do ano. Aninha trazia boas notcias. Burguesia, o ltimo clipe montado por ela, com imagens antigas e material em VHS comprado de Marcos Bonisson, havia recebido 
a medalha de ouro como o melhor clipe internacional na categoria de produo at US$ 20 mil, no 322 Festival de Nova York. Concorrendo com trabalhos do mundo inteiro, 
o clipe que foi produzido por outra grande amiga e sua prima em segundo grau, Gogia Castro, sara vencedor. Gogia, alis, precisou alterar o real custo do vdeo 
- US$ 8 mil - para poder inscrev-lo no festival. Aninha e Cazuza vibraram com o prmio e meu filho desabafou: 
      - Finalmente um prmio que ningum vai poder dizer que foi o papai quem comprou!!! 
      
      No final de janeiro, a equipe do doutor Sheldon Wollff constatou que nada mais se podia fazer por meu filho. O citomegalovrus que atacou fgado e bao era 
muito resistente, a ponto de no ser possvel definitivamente tentar a nova droga, o DDI, para impedir o avano do vrus da aids. O temor circulou por minhas veias. 
Pedi, insistentemente, que eles deixassem Cazuza permanecer no hospital, porque no Brasil eu no tinha um mdico especializado e de confiana a quem recorrer. 
      - Por favor, me deixem aqui, me deixem me sentir segura! 
      Penalizado, o doutor Wollff foi adiando a alta de Cazuza a meu pedido. Mas meu filho no agentava mais e manifestava seu estado de exausto profunda. J no 
suportava a rotina de Boston e ligava para Joo no Brasil, gritando por socorro: 
      - Pai, eu quero ir embora daqui. Quero voltar pra minha casa. Me leva embora? 
      
      Relutei durante mais de um ms, ainda na esperana de que algum milagre sucedesse. Absolutamente anestesiada, se me recostasse em qualquer canto, o sono me 
dominava. Pela terceira vez, os mdicos vieram dizer que no havia mais nada a fazer por Cazuza e aconselharam: a senhora deve atender ao pedido de seu filho. Volte 
para o seu pas e deixe seu filho conviver com os amigos. Finalmente, nos lembramos do doutor Paulo Lopes, que conhecemos numa das viagens a Boston e que estava 
l acompanhando o irmo de uma amiga nossa. Conseguimos que ele conversasse com a equipe americana e se inteirasse de como o tratamento poderia seguir no Brasil. 
Ele aceitou Cazuza como seu paciente. Havia chegado o momento de me preparar para a viagem de volta e para o desconhecido. De retirar, j nem sabia mais de onde, 
as foras necessrias para mant-lo esperanoso. Joo,  preciso dizer, jamais abandonou seu discurso enquanto Cazuza esteve vivo. Sempre disposto a repetir que 
ele no iria morrer, sempre convincente. Meu marido deixou Boston um dia antes de ns, para preparar a chegada. Nove meses depois de peregrinar com meu filho por 
So Paulo e Boston, eu estava finalmente voltando para casa. 
      Preparei todas as malas enquanto minha cunhada Maria Antnia e Zlia, caseira de Petrpolis, fizeram companhia a Cazuza, que, eufrico, contava dias, horas 
e at minutos para ir embora. Ao voltar com as providncias tomadas, todas as enfermeiras do sexto andar do New England Medical Center estavam no quarto de meu filho, 
com um carrinho cheio de doces e Coca-Cola e alguns presentes. Ele ganhou uma camiseta rosa-choque com um desenho do Mickey em preto, que usou na viagem de volta 
ao Brasil. O doutor Sheldon Wollff apareceu para dizer adeus. Encostou na janela e falou a meu filho: 
      - Vim me despedir e lhe desejar boa viagem, com uma pergunta: voc tem noo da famlia que tem, dos amigos que tem? 
      - Claro, doutor, imagine!!! 
      - Pois quero lhe dizer que, em meus 35 anos de medicina, nunca vi nada igual. Voc deve ser uma pessoa muito especial. Muita gente liga do Brasil para saber 
de voc, o doutor Pitanguy e outros, todos querendo notcias. Voc est de parabns, Cazuza. Nunca vi uma famlia como a sua. 
      
      Ficamos todos bastante emocionados com as palavras desse mdico cujo falecimento, em janeiro de 1993, lamentamos profundamente. Eu sabia que, se ele tivesse 
como, salvaria meu filho de seu destino fatal. Sempre lhe fui grata por seus gestos de carinho e dedicao a Cazuza. Mas todos ns sabamos que aquela despedida 
era um real adeus. Os mdicos no tinham sequer uma vaga esperana de reencontr-lo no futuro. Foi com o corao apertado, mas aliviada em voltar para casa, que 
embarcamos no mesmo jatinho que nos havia levado a Boston, com uma U.T.I a bordo, rumo ao Rio de Janeiro, no dia 9 de maro de 1990. 
      
      
     Captulo 19
     O ltimo vo da caravana do delrio
      
      
      "E algum veneno antimonotonia"
      Todo amor que houver nessa vida
      
      Desta vez, Cazuza viajou absolutamente consciente, pelas quinze horas de vo, com duas paradas, uma em Porto Rico, outra em Manaus, na rota Boston-Rio de Janeiro. 
Tomou sopa de ervilha e permaneceu tranqilo, sem sobressaltos. Muitos amigos foram nos aguardar no Aeroporto do Galeo ao desembarcarmos na madrugada do dia 10 
de maro de 1990. Joo, que estava nos esperando, perguntou a Cazuza como havia sido a viagem: 
      - Foi tima, papai. Voamos num tapete mgico!!! 
      
      Bem-humorado, meu filho ainda insistiu em voltar para o seu apartamento na Lagoa. Mas isso j era impossvel quela altura. Ele no poderia mais viver sozinho. 
Inventei a desculpa de que o apartamento estava em obras, por causa de uma infiltrao de gua. Montamos, ento, aquela U.T.I no quarto que era dele, com todo o 
equipamento 
que eu havia trazido dos Estados Unidos. Em casa, a recepo foi esfuziante, com cartazes de boas-vindas espalhados por todos os cmodos. A enfermeira Ed Motta, 
a Edinha, j nos aguardava, pois faria parte do esquema de enfermagem que a partir desse dia atenderia meu filho durante vinte e quatro horas. 
      At o fim, meu filho nunca mais se livrou do cateter instalado na regio subclave de seu peito direito, que lhe foi implantado em Boston. Era preciso trocar 
os curativos todos os dias. Havia, claro, muitos outros cuidados e procedimentos a fazer, como Edinha conta: 
      "Para cuidar de Cazuza era preciso ter muito jogo de cintura, por isso fiquei a seu lado o tempo todo no comeo, at arrumarmos uma outra enfermeira que soubesse 
lidar com ele, para me render. Mesmo tomando remdios para dormir, Cazuza tinha um sono de trs, quatro horas seguidas. Ele era esperto, reconhecia os remdios, 
reclamava que queria doses mais fortes. Chamava por mim inmeras vezes a cada noite. Ora para vir-lo de lado, ora para conversar ou pedir alguma coisa. Quando ficava 
bravo, nos chamava de incompetentes, xingava muito. Mas, ao mesmo tempo, era uma pessoa cativante e me apaixonei completamente por ele. Certa noite, pediu para ir 
deitar na cama de seu Joo e dona Lucinha. De repente, fez xixi na cama e justificou seu ato dizendo: mas como  que eu posso ficar naquele quarto minsculo? Esse 
quarto aqui  que  bom, quero me mudar para c ". 
      
      No houve discusso alguma a respeito da mudana. Eu e Joo nos transferimos, tranqilamente, para o quarto que era de Cazuza. Na verdade, depois de instalar 
toda a parafernlia dele em nosso quarto percebi que meu filho ficou bem mais confortvel ali: uma sute ampla, com a banheira Jacuzzi onde ele tomava banho, e tinha 
mais espao para receber as visitas. Elas eram inmeras, por sinal. Em certas ocasies podia-se contar cinqenta pessoas em casa. Todos ficavam na sala e alguns 
entravam para conversar com Cazuza no quarto. Quando os pais de Frejat foram v-lo, Cazuza fez questo de locomover-se at a sala, para conversar. Ficou deitado 
com a cabea no meu colo e se distraiu muito aquele dia. Ele gostava demais do casal. Outro amigo de Cazuza, Marinho Bastos, produtor musical, que trabalhou anos 
na Warner, vinha sempre. Ficava horas rezando o rosrio ortodoxo cristo com Cazuza. Pegava em suas mos e lhe fazia companhia. Marinho tambm era portador do vrus 
hiv e morreu trs anos depois de Cazuza, em novembro de 1993. Bineco era quem me ajudava no trabalho pesado. Nunca se intimidou diante das dificuldades e agentou 
assistir a todo o martrio de meu filho mesmo sabendo, desde nossa temporada em So Paulo, que ele prprio tambm estava contaminado. Quando Bineco encontrou Cazuza 
fumando, bronqueou: 
      - Porra, Cazuza, estou aqui h meia hora e voc j fumou vrios cigarros. Um atrs do outro. O mdico j disse que voc no pode fumar! 
      Na maior calma, Cazuza lhe respondeu sem pestanejar: 
      - Olha, Bineco, eu estou fumando um cigarro atrs do outro, sim, e vou te avisar uma coisa: daqui a pouco vou comear a trocar de amigo. Um atrs do outro. 
      
      As visitas de Zeca, evidentemente, eram dirias. Chegava por volta do meio-dia, mas no participava pessoalmente dos cuidados de Cazuza. Preferia conversar 
com ele, ler notcias de jornal, assistir a filmes no vdeo, ouvir msica. Para evitar que o amigo afogasse sua revolta e desespero no usque, Cazuza estabeleceu 
um horrio para que ele iniciasse os trabalhos: nove da noite. Guardei, ento, todas as garrafas de usque no bar do andar de cima. Zeca concordou com as novas regras, 
s para no discutir com Cazuza. No foi nada difcil para ele descobrir o novo esconderijo do usque e, usando idas ao 'banheiro' como pretexto, subia e descia 
as escadas vrias vezes ao dia para engolir rapidinho um cowboy. As 8h30, quando Cazuza resolvia liberar a bebida, Zeca tomava um ou dois usques e j ficava de 
porre. Ento, meu filho fazia o seu discursinho do dia: 
      - Ezequiel, voc  um velho decrpito que no sabe beber. Fica de porre na segunda dose. Vai embora pra tua casa porque odeio gente bbada!!! 
      
      Zeca ria, ia embora e, na visita do dia seguinte, repetia tudo outra vez. 
      A melhora de Cazuza poucos dias depois de nossa chegada ao Rio foi surpreendente. Parecia to bem disposto que, ainda em maro, comentei com ele: 
      - Estou te achando to bem que acredito que voc vai superar essa. 
      - Tambm acredito, mame. Acho que d para viver mais uns dois anos, voc no acha? 
      - Acho, acho sim. Claro que acho! 
      
      Os dois anos que meu filho ainda queria viver se resumiriam, na verdade, a apenas quatro meses. A melhora inicial, provocada pela sada do hospital em Boston 
e pela felicidade e segurana de chegar em casa, seguiu-se uma perda gradativa de energia. Mesmo assim, ele aproveitou o quanto pde seus ltimos meses de vida. 
Aos poucos, fomos estabelecendo uma rotina que, embora trabalhosa, deixava meu filho um pouco mais feliz e o fazia esquecer por alguns momentos as dores e os problemas 
que surgiam. Todos os dias eu entrava em seu quarto com a mesma frase na ponta da lngua: 
      - Bom dia, flor do dia. Como passou a noite? 
      
      Depois, comevamos a falar de comida, a imaginar pratos maravilhosos, a planejar nossas refeies. Ele pensava muito, demorava a se decidir e, em algumas 
ocasies, sentia fome antes que seu pedido estivesse pronto. 
      O doutor Paulo Lopes ou seu assistente visitavam Cazuza duas vezes ao dia. Para que no perdesse os movimentos, a recomendao foi a de que contratssemos 
um fisioterapeuta, na tentativa, ainda, de aliviar suas terrveis dores musculares. Em seguida carregvamos Cazuza para a cobertura do nosso apartamento. Ali, ele 
tomava sol e banho de mangueira. Depois, o almoo e as visitas. Para o banho de banheira - em cujo fundo instalamos um colcho de espuma fininho, para evitar que 
seu corpo j sem msculos se ferisse - eram necessrias trs pessoas. Nessas horas, Cazuza sentia segurana com pessoas que no tinham receio em segur-lo, como 
Zlia, de Petrpolis, Tereza, do Rio, Clarice, de Angra, e a enfermeira Edinha. Na primeira vez em que pediu uma mquina de escrever, na esperana de conseguir trabalhar, 
Cazuza foi atendido em menos de uma hora por Neila Perez, secretria de Joo h mais de vinte anos. Eternamente terei uma dvida de gratido para com essas pessoas 
e tambm com Neila, nosso anjo protetor at hoje. 
      Todos os remdios eram ministrados a Cazuza atravs do cateter de seu peito direito. Edinha, que se revezava com outras trs enfermeiras, relembra os procedimentos 
mdicos dos ltimos meses de vida de meu filho: 
      "Pelo cateter, ele recebia Citovene, de doze em doze horas, e morfina. Com o tempo conseguimos tir-lo da morfina e ainda havia os remdios para dormir, Lexpiride, 
Dormonid. Quando precisava colher sangue para os exames, vinha um funcionrio do laboratrio em casa. Trocvamos o curativo do cateter duas vezes ao dia, com os 
kits muito prticos, vindos dos Estados Unidos. Alis, estvamos superbem equipados para atender Cazuza em casa, tanto quanto numa U.T.I de hospital". 
      
      No final de maro, depois de nova queda de presso, cazuza voltou  Clnica So Vicente, para a ltima internao de sua vida. Tinha que fazer exames de rotina 
e o doutor Paulo Lopes preferiu que ele passasse dois dias no hospital. Quando recebeu alta, no dia 25 de maro de 1990, Joo deu uma entrevista coletiva na So 
Vicente. Disse que Cazuza estava pesando 38 quilos ("e no 30 como andam publicando"), que vinha se alimentando satisfatoriamente e que seu estado de sade era bom. 
Os jornais publicaram, tambm, o desejo de meu filho de viajar a Petrpolis. Doutor Paulo Lopes pediu que aguardssemos at que ele se recuperasse um pouquinho mais. 
Como seu aniversrio estava prximo, distramos Cazuza com os preparativos para a ltima festa de aniversrio, seus 32 anos, comemorados no dia 4 de abril daquele 
comeo da dcada de 90. 
      Naquela noite, Cazuza demorou mais do que o costume no banho. Levou horas se arrumando, se enfeitando, enquanto recebamos os convidados: Ney Matogrosso, Bebel 
Gilberto, Sandra de S, Ezequiel Neves, Bineco Marinho, Yara Neiva, Frejat, Marinho Bastos, Mrcia Alvarez, Lilibeth Monteiro de Carvalho, Antnio Grassi e alguns 
primos de Cazuza, inclusive Paulinho Mller. O cardpio foi o que sempre escolhia nos aniversrios - bob de camaro, que meu filho comeu com apetite. Todos o aguardavam 
na sala quando Cazuza finalmente terminou seus preparativos e o trouxemos para se deitar no sof. Vestia um conjunto de cala e camisa em seda preta e amarela e 
sapatilhas pretas. Ganhou um Rolex de presente do pai. No permaneceu muito tempo na sala, parecia cansado antes de pedir para ir dormir. Meu filho ficava especialmente 
feliz ao comemorar seu aniversrio com grandes festas. Nessa quase despedida de Cazuza, lamentei com todas as lgrimas possveis e em segredo a remota possibilidade 
de t-lo a meu lado por mais um aniversrio. 
      Ainda em abril atendemos ao pedido de Cazuza de passar uns dias em nossa casa na Fazenda Inglesa, em Petrpolis. Meu filho gostava muito da casa, construda 
aos poucos, com a primeira sobra de dinheiro da famlia. As lembranas de nossas temporadas l so sempre deliciosas. Ela foi batizada de Cineac Trianon, em homenagem 
ao cinema que funcionou na Cinelndia, no Rio, nos anos 40, famoso por suas sesses contnuas. Tempos depois, construmos uma casa menor, com sala e dois quartos, 
para Cazuza receber seus amigos com mais liberdade, a setenta passos da casa principal. Mas meu filho nunca gostou de ficar ali. Dizia que no era cachorro para 
dormir fora de casa. Queria se hospedar na sede, mais precisamente em nosso quarto, onde se sentia um rei, ainda mais usando as roupas de seu pai. 
      A viagem foi feita de carro, na Belina vermelha que ele tinha. Improvisei uma cama inclinando o banco traseiro e ali viajamos deitados ns dois. Na frente, 
o motorista e a enfermeira Edinha. Ela se recorda muito bem do trajeto e de toda a tralha que tivemos de transportar, em outros dois carros: 
      "Levamos tudo o que ele poderia precisar l. Dona Lucinha nunca mediu esforos; se imaginssemos precisar de um frasco de soro, levvamos cinco. Tnhamos balo 
de oxignio, aspirador hospitalar, tudo o que usvamos em casa rio Rio. Lembro que, no meio da serra, Cazuza pediu para parar o carro. Queria fazer xixi - ele usava 
uma sonda - , mas no conseguia com o carro em movimento" . 
      
      Ao chegar, ajeitamos Cazuza na sala da lareira. Armamos o colcho d'gua no sof em forma de U ali mesmo, porque ele no queria ficar no seu quarto, no andar 
de cima. Edinha dormiu a seu lado. Mais uma vez atacado pela insnia, ele comeou a se movimentar e a solicitar muita ajuda nas madrugadas. Edinha relembra: 
      " s vezes, ele ficava acordado, fumando, vendo um vdeo, escrevendo e me deixava dormir. Outras noites, queria conversar. Ou, ento, pedia: me vira; no t 
bom, vira de novo; agora desvira; t uma merda; quero ir para o puff; me tira do puff; quero ir para o colchonete; quero voltar para o sof". 
      
      Numa tarde em Petrpolis, Edinha empurrou a cadeira de rodas de Cazuza por todo o terreno da Fazenda para lev-lo aos seus lugares prediletos: o galinheiro, 
o canil e os fundos do terreno, onde ficava a casa da me da caseira Zlia, dona Alice, onde ele se deliciou com um prato cheio de paoca. Edinha temeu pela disenteria, 
mas nada aconteceu. Quando meu filho comia com gosto e vontade, seu organismo aceitava sem reagir. Outra tarde, quando tomava banho de sol na piscina, agora com 
Ana, a outra enfermeira que havia chegado do Rio para ajudar Edinha, pingos fortes de chuva comearam a cair. As duas correram feito loucas para pegar a cadeira 
de rodas, sentar Cazuza e se abrigar em casa. Parecia uma cena de comdia de pastelo, porque meu filho riu gostoso, encantado com todo aquele movimento em torno 
dele. Zlia viveu tambm com Cazuza outra cena em que meu filho se divertiu. Ao tentar levant-lo, pisou em falso e caiu na piscina levando Cazuza junto. 
      Nos quinze dias em que ficamos em Petrpolis, Cazuza trabalhou nas madrugadas, escrevendo letras de msica. Ali, ele j havia composto vrias canes, em 1989: 
Preciso Dizer Que 1e Amo, Mais Feliz, Amigos de Bar (as trs em parceria com Bebel Gilberto e D), alm de Perto do Fogo, sua nica parceria com Rita Lee. Nos finais 
de semana, Joo subia a serra trazendo a turma toda de Cazuza: Zeca, Bineco, Aninha Arantes e outros. 
      
      No comeo de maio, mais exatamente no dia 4, foi a vez de Cazuza se despedir de nossa casa em Angra dos Reis. Roberto lrineu Marinho, com sua gentileza de 
sempre, nos cedeu um helicptero e isso facilitou muito a tarefa de todos ns, alm de ser infinitamente mais rpido e confortvel para meu filho. A temporada em 
Angra tambm foi extremamente agradvel e sem grandes sustos quanto  sade de Cazuza. O que nos dava trabalho mesmo eram as sadas de barco. Precisvamos adaptar 
uma espreguiadeira de piscina, forr-la com um colcho especial, cobri-la com um lenol. Deitado ali, Cazuza era carregado por trs seguranas at o cais. O percurso, 
porm, era longo - todas as escadarias da casa, a praia inteira antes de se alcanar o per e a lancha. Meu filho jamais se incomodou com a curiosidade que despertava 
ao percorrer esse caminho. Deitado no banco de trs da lancha, ele sentia o vento na pele morena de seu rosto abrindo aquele sorriso de prazer que nos lavava a alma. 
Chegou a se banhar no mar de Angra com uma bia protetora e uma parede humana a seu redor. Meu filho chegava em casa exausto depois desses programas, mas isso no 
tinha a menor importncia. Assim como em Petrpolis, Joo vinha se juntar a ns nos finais de semana, sempre trazendo com ele um bando de amigos. Na temporada em 
Angra, Cazuza comeou a tossir muito, a ponto de preocupar a enfermeira Edinha: 
      "A tosse era muita e insisti com dona Lucinha para voltarmos ao Rio. Mas ela dizia: ele vai melhorar, calma, gente! E foi o que aconteceu. Mandamos buscar 
at um aspirador no Rio, mas no usamos um s dia. Quando Cazuza saa de lancha, acabava fazendo uma nebulizao natural, com a gua do mar, e voltava a respirar 
normalmente. Qualquer outro precisaria ser intubado. Ele dava a volta por cima. Certo dia, pediu para almoar fora. Muita gente se movimentava para fazer as vontades 
de Cazuza. Se ele queria, ns fazamos. Imagine uma pessoa com menos de 40 quilos sentir fome! Mas ele tinha suas vontades, estava bem. Se arrumava, queria que a 
gente passasse gel em seus cabelos para ficarem espetadinhos, queria sair sempre muito bem-arrumado" . 
      
      Na volta ao Rio, Cazuza queria continuar a se distrair com seus amigos e se recusava a passar o dia inteiro na cama. Organizou, ento, o que batizou de Caravana 
do Delrio. Um ms antes de morrer, ele comprou uma Veraneio preta, onde cabiam dez pessoas confortavelmente, com ar-condicionado. O objetivo da caravana era passear. 
Cazuza, as enfermeiras e seus amigos saam quase todos os dias para tomar gua de coco na Barra, circular pelas Paineiras, tomar um sorvete, fazer compras. Vrios 
amigos de meu filho estiveram com ele na Caravana do Delrio, inclusive Denise Dumont, com quem Cazuza viveu uma paixo no passado. J casada com um ingls e vivendo 
em Nova York, Denise estava passando as frias no Rio, com a filha Anabela, o mesmo nome planejado por ela e meu filho para seu beb, quando eram jovens namorados. 
      
      No final de maio, Cazuza reclamou que todas as suas roupas estavam velhas, que no tinha nada para vestir. Por isso, resolveu organizar um passeio da Caravana 
ao shopping center So Conrado Fashion Mall. Com nosso motorista Waldir empurrando a cadeira de rodas, Bineco, Nandinha e Edinha acompanhando, Cazuza no parecia 
se incomodar quando todos os olhares curiosos do shopping se voltavam para ele. Ao sair da loja, sorria ao ouvir o aplauso de todos. Quando entrou na Richard's para 
escolher alguns moletons e camisas, a frente da loja ficou coalhada de gente espiando pelo vidro. De dentro, Cazuza acenava para todos, satisfeito. Nesse dia, ele 
comprou presentes para todos e se divertiu distribuindo cada um deles ao voltar para casa. 
      
      Desde a ltima internao em Boston evitei que meu filho se olhasse no espelho. Sumi com todos os do quarto do hospital e, ao voltar para casa, tomei a mesma 
providncia. Mas quando o cabeleireiro Nonato foi chamado para cortar seu cabelo, Cazuza exigiu que eu lhe trouxesse um espelho. Relutei, usando desculpas esfarrapadas, 
mas ele me venceu e eu lhe entreguei um espelho. Olhou demoradamente para o seu rosto e disse apenas: 
      - Nossa, como eu estou acabado. Eu no tinha me dado conta disso! 
      
      Um ms antes de morrer, Cazuza mandou chamar o psiquiatra Lus Alberto Py, com quem ele j havia tentado uma terapia domiciliar, quando vivia no apartamento 
do Leblon. Pediu para ficar a ss com o mdico. Quando desceu, Py me contou que eles no haviam conseguido conversar, porque Cazuza repetia sem parar: 
      - Eu vou morrer, eu vou morrer, vai embora daqui, eu vou morrer!!! 
      
      
     Captulo 20
     O fim
      
      "Tchau, mezinha, fui beijar o cu/
      Tchau, paizinho, eu vou levando f/
       tudo luz e sonho"
      Certo dia na cidade
      
      O desabafo de Cazuza com o analista, no ltimo contato entre eles, pode parecer dramtico, mas nem mesmo nos dias do pior pesadelo deixei que o clima de piedade 
contaminasse os ltimos momentos da vida de meu filho. Mantive a promessa de nunca chorar na sua frente e essa atitude se reverteu em sentimentos mastigados e no 
digeridos. Meu sorriso, mesmo assim, esteve sempre nos lbios em todas as ltimas vezes em que nossos olhares se cruzaram. No final de maio de 1990, Cazuza ainda 
encontrava foras para sair de casa. Fomos juntos ao Caneco, eu, Joo e a enfermeira Edinha, assistir  estria do show Estrangeiro de Caetano Veloso. S entramos 
quando as luzes se apagaram e, antes do primeiro bis, Bineco levou Cazuza ao camarim para cumprimentar Caetano. Cazuza comentou o quanto tinha adorado a verso do 
cantor para You've Changed, do repertrio de Billie Holiday, quando fomos jantar no Antiquarius, a ltima visita de Cazuza ao restaurante de que tanto gostava. Foi 
uma noite muito agradvel e meu filho convidou vrios amigos que estavam no show para nos acompanhar. 
      No dia seguinte, Cazuza saiu novamente - desta vez para fazer uma visita aos amigos do Baro Vermelho, que estavam gravando no estdio Nas Nuvens, no Jardim 
Botnico. No final de maio, almoou comigo, Bineco, Nandinha, Zeca e a enfermeira, no restaurante Quadrifoglio. Lembro que entramos no restaurante s trs e meia 
da tarde e eram cinco quando pedimos a conta. Em junho Bineco passeou com ele, de cadeira de rodas, pela Visconde de Piraj, em Ipanema, terminando a tarde com um 
chope no Banana Caf. 
      A ltima apario pblica de Cazuza aconteceu em 2 de junho, aniversrio da Flora Gil. A festa aconteceu no apartamento de Lilibeth Monteiro de Carvalho, em 
So Conrado. Estava to entusiasmado com o convite que saiu com Bineco para comprar uma roupa nova. J bastante cansado para se locomover, ficou dentro do carro, 
estacionado na porta da loja. Bineco trazia as roupas at o carro, para Cazuza escolher. Enfim, se decidiu por uma cala de crepe marrom e uma camisa de seda ferrugem. 
Levou, ainda, sapatos e meias novos. Cazuza pediu que mandssemos entregar trs dzias de rosas amarelas para a aniversariante e me ditou seu ltimo bilhete em vida: 
      
      Flora, eu te amo demais 
      e hoje te desejo fora, luz 
      e encantamento. 
      Com o meu melhor beijo 
      Cazuza 
      No dia da festa, Cazuza teve febre pela manh e  tarde. Pensei que ele iria desistir, quando resolvi lhe perguntar se iramos realmente. Cazuza respondeu: 
      - Vamos, mas tem um problema. Quero que voc empreste uma roupa sua para Ana, a enfermeira. Ela precisa ir  festa bem-arrumada! 
      
      O desejo de Cazuza foi cumprido e at um cabelo afro foi providenciado para Ana. Samos de casa os quatro - Joo, eu, Cazuza e Ana - e fomos os primeiros a 
chegar ao apartamento de Lilibeth. Cazuza foi carregado para o andar de cima. Pediu um usque e segurou o copo com aquela mozinha frgil. Passou um bom tempo conversando 
a ss com Gilberto Gil, que relata este ltimo encontro, que aconteceu, justamente, na fase em que acabara de perder seu filho Pedro, num acidente de carro: 
      "Nessa noite Cazuza fez questo de me falar sobre a morte. Disse que havia tido um coma profundo, que ele descrevia como sendo o portal da morte. E me contou 
como tinha sido bom, da sensao agradvel que sentiu, uma sensao difana, cheia de luzes. Ele ficou fascinado com a experincia e disse que, depois dela, havia 
pensado muito em mim e imaginou que eu teria interesse em saber. Estvamos na varanda, ao lado do parapeito, e ele me abaixou assim de seu lado para me contar isso. 
J no conseguia falar, ficava cansado. Cazuza gostava muito de mim, me admirava como artista e eu tambm a ele. Sempre tive admirao por ele, por seu talento e 
pela diferena que ele representava para mim - era uma pessoa inquieta num sentido totalmente adverso do meu. Fizemos juntos a cano Um Trem para as Estrelas, msica-tema 
do filme homnimo. Ao acompanhar sua vida, desde menino, me lembrava de um colega que tive nos tempos da escola, um garoto muito aprontador, desobediente, e que 
durante anos me perseguiu. Queria me bater, fazer coisas assim e depois se tornou o meu melhor amigo, o nico dos tempos do ginsio que ainda encontro. Para mim 
o que ficou de Cazuza foi sempre a imagem de uma foto que Lucinha me mostrou. Ele vestido com o uniforme colegial. Era um estudante. Um estudante da vida. Tudo o 
que escreveu me parecia uma dissertao sobre a vida, um pequeno trabalho escolar, um desenho da vida, um trabalho manual sobre a vida. Era um poetao, admirvel. 
Quando ouvia suas msicas, sempre embaladas no rtulo do rock, tomava enormes bofetadas. Nesse sentido, s Rita Lee me provocou emoo igual. Tinha uma coisa totalmente 
despretensiosa, um modo corriqueiro de dizer coisas profundas. Era um belo observador do ser humano e tinha a ousadia de universalizar sua individualidade. Cazuza 
tinha tambm a dimenso da tragdia muito explcita, muito almejada, desejada e produzida pela dinmica vital". 
      Depois da conversa reservada com Gil, Cazuza se integrou na festa com outros amigos, Lulu Santos, Baby Consuelo, Caetano Veloso e Paula Lavigne, e, a certa 
altura, me pediu para ir embora, pois se sentia muito cansado. 
      
      Exatamente um ms e cinco dias se passaram desde o aniversrio de Flora Gil at a morte de meu filho. Ele enfrentou seu ltimo ms de vida com a sade vacilando. 
Entre altos e baixos. Um dia estava bem, o outro mais ou menos. Estranhamente, no perdeu o apetite. Pedia comidas diferentes - sorvete de caju, por exemplo, no 
poderia faltar. 
      Para alguns amigos mais ntimos, Cazuza tambm era chamado de "Caju". Mal conseguia falar. Mesmo quando o doutor Paulo Lopes avisou que a situao estava ficando 
muito difcil, me recusei a acreditar que a morte de Cazuza estava assustadoramente prxima. 
      
      7 de julho de 1990 
      Eram onze da manh quando chegamos com o corpo de meu filho ao Cemitrio de So Joo Batista. Tenho pouqussimas recordaes desse dia em que todas as lgrimas 
reprimidas sequer pediam licena para deslizar sobre o meu rosto. 
      O caixo permaneceu fechado. Meu desejo era o de que todos o guardassem na lembrana como o menino lindo que ele foi. A magreza e o sofrimento da doena o 
haviam maltratado barbaramente. Uma cena apenas ficou gravada em minha memria, acontecida durante o velrio. Passei todo o tempo sentada ao lado de Ney Matogrosso, 
que pousou a mo sobre o meu ombro, tentando me passar vibraes positivas de apoio e amizade. Serginho Amado tomava cerveja sem parar. De vez em quando, chegava 
perto do caixo, ficava olhando fixamente e saa para beber novamente. Minha irm disse no meu ouvido: 
      - Aquele rapaz vai ficar bbado!!! 
      - Deixa, o Cazuza iria adorar algum bbado em seu enterro, tenho certeza de que ele adoraria. 
      
      Respondi a todas as perguntas dos jornalistas, ressaltando a coragem com que meu filho havia enfrentado a doena e a admirao que cresceu dentro de mim a 
cada um dos dias em que se manteve vivo. Mas, quando Glria Maria, da Rede Globo, me pediu uma entrevista especial, no pude atend-la. J no raciocinava mais, 
e me percebi diante da inutilidade de falar naquele momento: nenhuma palavra serviria para exprimir meus sentimentos - aquela dor que no me deixava respirar. 
      Joo no conseguiu suportar o velrio e o enterro de nosso filho. A certa altura, precisou ir embora. Ele lembra: 
      "Cheguei ao cemitrio, no fui ver o caixo e sentei nos degraus de uma escada. Comecei a me sentir muito mal. Algum notou e me disse para ir embora, me disse 
que eu no iria agentar. Fui para casa, entrei e deitei. Veio um mdico, que no me lembro quem (Paulinho Mller, nosso sobrinho) era e nem sei se tomei uma injeo. 
Daquele trauma, s me recordo de detalhes quase que robotizado. No sei detalhes, no sei a seqncia, no sei o cenrio". 
      
      Eu, ao contrrio, cumpri o ritual at o fim. Segurei a ala do caixo ao lado dos amigos Ney Matogrosso, Ezequiel Neves, Roberto Frejat, Bineco Marinho, Guto 
Goffi, D, Marinho Bastos, Orlando Moraes, Goga e Artur Muhlemberg. Depois das bnos do padre Max Lin Rodrigues, o corpo de Cazuza foi enterrado no jazigo nmero 
21.355 - alia 12 do Cemitrio de So Joo Batista -, s 16 horas do mesmo e inesquecvel 7 de julho de 1990. Como vizinhos de sepultura, Carmen Miranda, Ari Barroso, 
Clara Nunes, Francisco Alves e Vicente Celestino. 
      Meu apartamento estava cheio de gente quando voltei, mas no me lembro de quase nada. Apenas de ter comeado a beber vinho branco. Eu bebia e pegava fotos, 
lembranas, roupas, coisas de meu filho para olhar, me certificar de que ele ainda estava ao meu lado. Fiquei assim at me colocarem na cama, exausta, entorpecida 
pela bebida e pela dor, quase inconsciente. Ao acordar no dia seguinte, poucos vestgios restavam da U.T.I que montamos em meu quarto. Minha irm Clarinha e a enfermeira 
j haviam desmontado tudo. Pedi para que pegassem todas as roupas de Cazuza, estendi na cama e chamei seus amigos. Todos levaram uma lembrana dele. Fiquei apenas 
com a camiseta, o shortinho e o sapatinho coreano preto que ele usou at o fim. Todas as missas em memria de meu filho foram celebradas na Igreja da Ressurreio. 
Na de stimo dia, Olvia Byington e Ney Matogrosso foram proibidos pelo cardeal de cantar as msicas de Cazuza dentro da igreja, pois ele temia que a cerimnia se 
transformasse num concerto de rock. Enfeitei a igreja inteirinha com flores brancas e coloquei na sada uma cesta com palmas brancas. Terminada a missa, seguimos 
em caminhada at o Arpoador e, em suas guas, jogamos as palmas num adeus simblico. 
      
      Por algum tempo ainda, minha casa viveu cheia de amigos, com quem podia chorar o peso da ausncia dos primeiros tempos. Depois, cada um retomou a sua rotina 
e ento nos vimos completamente ss. No podia ouvir falar em hiv positivo, aids ou qualquer assunto sobre a doena. Revoltada com o sofrimento que meu filho foi 
obrigado pelo destino a enfrentar, pensava que no merecia estar viva. No era justo. Os sonhos morreram, a vida perdeu a graa. Depois de muito pouco tempo me remoendo 
na angstia, Herbert Daniel e Betinho ligaram para Joo. Queriam que eu trabalhasse com eles na luta contra a aids. Em princpio rejeitei a idia completamente, 
no me sentia estimulada a nada e, na verdade, queria distncia das recordaes de sofrimento. Mal sabia eu que, dali a trs meses, estaria fundando a Sociedade 
Viva Cazuza. 
      
      
     Captulo 21
     Sociedade
     Viva Cazuza
      
      No pude aceitar o convite de Herbert e Betinho, ainda decidida a seguir minha vida no extremo oposto da questo da aids. Mas parece que alguma fora me empurrou 
para que me envolvesse nessa luta. Logo depois do telefonema desses dois batalhadores da causa pblica, Raquel Hernandez, uma f de Cazuza, teve a idia de produzir 
um grande show em homenagem a ele, na Praa da Apoteose do sambdromo carioca. A lista de artistas que subiram ao palco para homenagear meu filho era grande: Baro 
Vermelho, Fagner, Orlando Moraes, Joo Penca e Seus Miquinhos Amestrados, Marina Lima, Paulo Ricardo, Lulu Santos, Leila Pinheiro, Caetano Veloso, Kid Abelha, Telefone 
Gol, Baby Consuelo, Sandra de S, Jorge Salomo, Nala Scorpio, Denise Barroso, Astrid Fontenelle, Scarlett Moon, Arnaldo Brando, Lobo, Nilo Romero, Joo Rebouas, 
Bebel Gilberto, Renato Russo, Dulce Quental, Emlio Santiago. A direo do espetculo foi de Aninha Arantes. 
      Durante a produo do espetculo, decidiu-se que o ingresso seria pago e o dinheiro revertido para uma instituio ligada ao tratamento de doentes de aids. 
Com o cheque nas mos, no sabia a quem destin-lo, quando me informaram que o Hospital Gaffr e Guinle, na Tijuca, era o que mantinha o maior nmero de leitos para 
pacientes contaminados no Rio. Escolhi esse. Procurei os diretores do hospital, para lhes entregar a doao, mas eles pediram mais: 
      - Queremos voc trabalhando aqui!!! 
      
      No sei como mas, de repente, me vi envolvida de corpo e alma na empreitada. Foi quando resolvemos fundar a Sociedade Viva Cazuza, Amigos da Dcima Enfermaria 
do Hospital Universitrio Gaffr e Guinle - essa foi a primeira razo social, quando foi fundada, em 17 de outubro de 1990, trs meses depois da morte de meu filho. 
Lilibeth Monteiro de Carvalho logo se interessou em me ajudar e aceitou o cargo de vice-presidente da Sociedade. Comecei, ento, a levantar verbas, promover shows, 
receber doaes, que, alis, eram muitas. E aquilo foi crescendo. Reformamos enfermarias e berrio. Colocamos mais de dez televises no hospital, uma para cada 
enfermaria. Todas as tevs da casa de Cazuza e tambm seu videocassete e geladeira foram doados ao Gaffr e Guinle, assim como os direitos autorais de Cazuza e todo 
o dinheiro arrecadado em eventos ou doaes. 
      Trabalhei ali por dois anos, at perceber que o hospital, mantido pela Universidade do Brasil, complicava-se em sua prpria burocracia, alm de pecar pelo 
excesso de chefes. At que um diretor chamou minha ateno por ter reformado a enfermaria sem permisso da diretoria. Foi como se uma ducha gelada se chocasse com 
o meu entusiasmo. Considerei aquela atitude um desaforo, comparvel ao que aconteceu quando conseguimos seis toneladas de comida e material de limpeza, doados pela 
empresa Brazilian Food. Aquele mesmo diretor me disse ento no saber se poderia aceitar aquela comida, pois algumas latas estavam amassadas. Foi o fim. 
      - Estou me despedindo deste hospital, nunca mais ponho os ps aqui!! 
      
      Esbarrar em interesses escusos quando se trata da sade de um ser humano no era uma situao que eu estivesse habituada a enfrentar. Quando a poltica se 
sobrepe  vida,  impossvel engolir. Deixei o Gaffr e Guinle em dezembro de 1992, com a certeza de ter contribudo para aliviar o sofrimento de alguns. Isso me 
bastaria. Alm do mais, o trabalho no hospital havia me ajudado a superar outro drama e l tambm deixei alguns amigos. Apesar de todo o meu envolvimento, no conseguia, 
em hiptese alguma, manter qualquer contato fsico com os doentes. Eu no me permitia colocar os ps na enfermaria. S depois de um ano me envergonhei da covardia 
e entrei. Passei a conversar com eles e a entender mais ainda as suas aflies. A maior delas, sem dvida, era o problema da alta, quando a maioria dos pacientes 
no tinha para onde ir. Aquilo me levava  loucura. Muitas vezes tive que convencer uma me a levar um filho para casa. No tenho muita pacincia com isso e queria 
bater nas mulheres, avanar em cada uma delas. 
      Pensando ainda no que fazer a respeito dessa realidade com a qual me deparei e da qual percebi no ser mais possvel me desvencilhar, fui a uma reunio da 
Comisso Estadual de Aids,  qual eu j pertencia, e conheci a doutora Loreta Burlamaqui, mdica clnica especializada em aids e muito competente, que me acompanha 
at hoje como diretora mdica da Sociedade. Quando a conheci mais profundamente, lamentei: 
      - Que pena no a ter encontrado antes, para que eu entregasse meu filho em suas mos! 
      Conversamos sobre a possibilidade de se abrir uma casa para abrigar pacientes soropositivos, fora dos perodos de internao. Comecei, ento, a visitar algumas 
instituies do gnero, entender seu funcionamento. S em So Paulo conheci mais de vinte. Fiquei encantada especialmente com a Casa Vida, na Barra Funda, dirigida 
pelo padre Jlio Lancelloti e que atendia apenas crianas. Tambm viajei a Los Angeles e Nova York, onde conheci trs instituies. 
      Decidi, ento, abrir uma casa para abrigar crianas soropositivas. Em busca de um lugar, pedi uma audincia ao recm-eleito prefeito Csar Maia, intermediada 
por Faf da Paraba, voluntria na SVC {Sociedade Viva Cazuza). Faf, que  uma pessoa simples e direta, encontrou o prefeito recm-eleito na rua e o interpelou 
 queima-roupa: 
      - Prefeito, a Lucinha Araujo est precisando de uma casa para a Sociedade Viva Cazuza, por que o senhor no ajuda? 
      
      Imediatamente, o prefeito lhe deu o seu nmero de fax: e pediu que eu o procurasse atravs da secretria. Fui muito bem recebida pelo prefeito Csar Maia, 
que nos forneceu uma lista com dez imveis para eu escolher. Mas nenhum serviu para o que eu estava pretendendo. Foi quando a primeira-dama, Maringelis Maia, madrinha 
de nossa casa, uma mulher de muita sensibilidade e humanismo, resolveu oferecer o imvel onde funcionava a obra social da prefeitura, na Rua Pinheiro Machado, 39, 
Laranjeiras. Em maro de 1993 nos mudamos para l, agora com nossa razo social alterada para, simplesmente, Sociedade Viva Cazuza. Depois de reformar o imvel pra 
receber as crianas, fomos buscar (eu e Christina, minha gerente e brao direito at hoje) pessoalmente Natalino, aos cinco meses de idade, numa casa da Febem em 
Santa Cruz. Tinha pneumonia, herpes, dor de ouvido, sarna, piolho e a bundinha toda queimada pelas assaduras.  meu afilhado e hoje vive com sade. Ele foi o nmero 
um. Em trs dias j havia trs crianas e, depois de uma semana, chegaram mais duas. Ficamos cuidando de 5 durante trs meses, perodo em que cheguei a desanimar, 
mas, em uma semana, outras cinco crianas chegaram  Sociedade. 
      A casa da Pinheiro Machado, onde comeou a funcionar a SVC, dividia o terreno com outra construo, tambm da prefeitura. Resolvi reivindicar aquele espao, 
que por direito era nosso, mas que havia sido em parte invadido por outra instituio, o que nos atrapalhava e impedia de crescer. Em setembro de 1995 finalmente 
conseguimos o despejo e aposse e foi possvel reformar a casa e abastec-la para atender trinta crianas, que chegam a ns atravs do Juizado de Menores, hospitais 
pblicos ou de familiares. Alguns so enviados por mdicos. A Sociedade vive, basicamente, dos direitos autorais de Cazuza, que cobre 30% dos gastos, em abril de 
1997 orados em 45 mil reais por ms. O resto vem de doaes, de leiles, shows e eventos que promovemos. Muitas vezes, a Sociedade Viva Cazuza tem contado com a 
generosidade de artistas brasileiros, da msica popular, do teatro e do show business. O show em tributo a Cazuza realizado no Metropolitan (e lanado em CD) rendeu 
230 mil reais na venda dos discos. Todos os participantes abriram mo dos cachs e os parceiros de Cazuza, dos direitos autorais. A gravadora Som Livre cedeu os 
direitos fonogrficos. Existem, tambm, doaes annimas, de laboratrios, de gente que quer ajudar. Amigas fazem festa de aniversrio e pedem fraldas descartveis 
em lugar dos presentes e nos doam. O governo federal comea agora a colaborar com a SVC, atravs do Ministrio da Sade. 
      Esse trabalho  o meu alimento. Teria ficada louca sem ele. Se continuasse agindo como uma pessoa morta, a amargura teria me afastado do convvio com as pessoas 
que amo. Tenho conscincia de estar fazendo o bem, mas tambm a certeza de estar me beneficiando - fao tantas coisas que mal tenho tempo para pensar nas dificuldades, 
alm da convico inabalvel de que a causa  justa. Quem j passou por problema igual e no dedicou um pouco de sua vida a esta causa no pode deitar a cabea no 
travesseiro e dormir em paz. Pelo menos,  o meu ponto de vista. Estar doente de aids e no ter recursos para se tratar  enlouquecedor para qualquer ser humano. 
Quando olho para minhas crianas na Sociedade Viva Cazuza, me sinto necessria. A fora que me impediu de sucumbir ao desespero de no suportar a ausncia de meu 
filho vem daqueles olhinhos esperanosos, essa gente pequena que ainda tem chance de conhecer a cura da aids. Atravs deles procuro me encontrar um pouquinho com 
Cazuza. 
      s vezes me surpreendo ao pensar: 
      - Meu Deus, fez sete anos da morte de meu filho e ainda estou viva!!! 
      A surpresa diante dessa constatao  real. Semanalmente penso no que aconteceu, no que todo esse sofrimento queria dizer e no que significa eu estar viva 
e meu filho morto. Ser que o destino me reservou essa difcil misso de assistir inmeras vezes ao mesmo filme de horror que consumiu Cazuza? 
      Todos os anos mando rezar duas missas - uma no dia do nascimento e outra na data da morte de meu filho. Todas as semanas visito seu tmulo no So Joo Batista. 
Sei que ele no est ali, no faz mal, s a referncia me basta. Nesses dias, converso longamente com Cazuza, conto das alegrias e tristezas, das conquistas e das 
dificuldades, acreditando piamente em suas ltimas recomendaes - "me, acontea o que acontecer, eu vou estar sempre perto de voc". A promessa foi cumprida. Sinto 
meu filho sempre a meu lado. Seu nome  pronunciado diariamente. Na Sociedade Viva Cazuza, na rua, em casa. No esqueo um s minuto de tudo o que aprendi testemunhando 
o seu flagelo. 
      Nem todas as mes so felizes. 
      
      
     Eplogo
      
      Ao reler os captulos deste livro, duas preocupaes me jogaram no beco da dvida. Ser que no fiquei parecendo uma bruxa m das histrias da carochinha? 
Minha autocrtica teria ultrapassado a verdade dos fatos? Ser que os momentos felizes da infncia e adolescncia de meu filho desapareceram diante da rigidez com 
que descrevi meu papel de me, na luta contra a rebeldia de Cazuza? Refleti longamente tambm a respeito das qualidades de meu filho, de sua infinita capacidade 
de amar, de sua imensa coragem ao enfrentar preconceitos tamanhos, vivendo perigosamente. No teria me esquecido de dizer o quanto eu o amei, o quanto sua rpida 
passagem por este mundo me encheu de sabedoria e de todo o respeito que lhe devoto? 
      No sinto remorso pelos erros que posso ter cometido com meu filho. Foram bem-intencionados. Tenho certeza de que fui uma boa me, companheira, uma boa amiga. 
Claro que no sou perfeita e filhos no vm ao mundo com manual de instruo. Eu, que s tive um, fui obrigada a aprender com ele mesmo. S me conforto nas palavras 
do prprio Cazuza: 
      - Uma pessoa que no tem uma famlia boa, que no teve uma boa estrutura familiar, fica aleijada por dentro. Eu no posso me queixar de escassez de carinho, 
s de excesso. Mas  muito melhor!!! 
      Joo e eu seguimos nossa vida juntos h 45 anos. Nem sempre vivemos num mar de rosas, mas o saldo  positivo. Somos um casal que se entende, cmplices e companheiros. 
Temos um ao outro, mas no temos mais sonhos. Nossa grande parceria foi o orgulho de termos gerado um filho especial. Quem sabe talvez por isso tenhamos tido apenas 
um. E seguimos o tempo que nos resta juntos. At o final de nossos dias temos muito a conversar. Afinal, foram 45 anos de uma vida dramaticamente rica em sentimentos. 
      
      Quanto a Cazuza, descubro a cada dia como suas atitudes ousadas e seus versos de belezas desconcertantes carregavam em si o sentido da eternidade. Meu filho 
acreditou que o destino imutvel dos poetas fosse abrir-se ao mundo e rasgar-se todo, at que nenhuma partcula lhe sobrasse desconhecida por dentro. Viveu intensamente 
todas as chances de experimentar novas sensaes que a vida lhe proporcionou. Sem medos e sem freios. Exibiu-se no palco e fora dele com a sensualidade das pessoas 
intuitivas, no reprimidas. 
      E, assim, penso que o amor das mes no faz mal a ningum. Basta entender e aceitar esse vnculo carnal que se inicia quando a vida floresce dentro de nossas 
entranhas.  um longo e doloroso aprendizado, concordo. Para mim, a chance de tentar novamente passou. Quem sabe posso ajudar algum a compreender? 
      
      Muitas vezes sinto vergonha ao demonstrar minha fraqueza. Se meu filho foi to forte, to digno, uma pessoa to especial, que direito tenho eu de decepcion-lo 
com atitudes covardes? E, assim, desafiando a memria, derramei esse relato dos acontecimentos e emoes que vivi, ao ter recebido o privilgio de conceb-lo, ajud-lo 
acrescer e desfrutar de sua companhia. Tambm sem medos e sem freios. A exemplo de Cazuza, a exemplo dos homens de bem que, democraticamente, escancaram suas emoes 
e dizem no  mesquinha conquista silenciosa. 
      Viva Cazuza!!! 
      
      
    Cazuza
      Segundo
    Cazuza
      O que ele disse
      
      1983 
      "Acho Brizola uma experincia fantstica, totalmente rock'n'roll. Ele d uma segurana pra gente, tem uma filha que  mais louca do que todo mundo que est 
aqui, ele  um cara socialista, um cara Mitterrand, me sinto muito feliz de viver nessa cidade que elegeu o PDT que foi execrado no Brasil inteiro. Aqui vai nascer 
uma coisa nova que  rock'n'roll, uma coisa alternativa. O PDT  igual quele sanduche alternativo que se vende na praia." 
      
      1984 
      "O disco Maior Abandonado tem toda uma temtica de vida, bomia e fossa, que  uma ligao minha com o Nelson Gonalves, Lupicnio Rodrigues e Ataulfo Alves. 
Um dia ainda chamo o Nelson Gonalves para cantar uma msica com o Baro. Se isso chocar algum roqueiro,  sinal que ele precisa se libertar desse trauma." 
      "A noite  uma opo de vida. Gosto de acordar tarde e dormir com o dia nascendo. Por isso, a msica Pro Dia Nascer Feliz  a histria da minha vida." 
      
      "Antes de eu nascer, j era Cazuza. Minha me tinha vergonha de me chamar, to pequeno, de Agenor, nome do meu av. Na escola, eu nunca respondia  chamada. 
No sabia que meu nome era Agenor." 
      
      "Ns, do Baro, no seguimos tendncias; no nos importamos muito com o que se toca l fora.  algo proposital. O som termina sendo cru. Eu, por exemplo, no 
dobro voz nas gravaes. No usamos bateria eletrnica. E a base muitas vezes  feita como se estivssemos diante do pblico..." 
      "Tenho loucura por dor-de-corno." 
      "Quando morei nos Estados Unidos, percebi que eles tambm gostavam dessa temtica contramo, que se expressa no blues. Quer dizer, sempre amavam a pessoa errada." 
      "Eu no entendo de rock, mas como componho com quem faz rock, o resultado  esse estilo do Baro Vermelho." 
      
      "Eu no saio do bar, tomo oito vodcas, milhares de no sei qu, vou para casa e escrevo o que eu vi. O Tom Jobim uma vez disse que quando a gente canta o quintal 
da gente est sendo internacional, porque aquele quintalzinho s a gente tem. E o Brasil inteiro adora bar, adora cachaa, o Brasil inteiro  trado (conjugalmente)." 
      "No tem nenhum jovem fazendo msica brasileira, todo mundo  roqueiro, no tem ningum que faa samba-cano, precisamos redimir a msica brasileira." 
      
      "Eu acredito no amor eterno. Ainda vou encontrar algum ara ficar para sempre. Enquanto isso no acontece, sou galinha mesmo. Um hora aqui, outra ali, no vaivm 
dos seus quadris, como digo na msica. Mas quero at ter um filho. J que sou pai dos filhos dos outros... Adoro crianas..." 
      
      "Transo. Com homem, com mulher, no tem o menor problema. Namoro muito, sou ciumento, nesse ponto sou muito careta. Mas estou melhorando, porque a vida  um 
aprendizado. Cime pode ser at supercriativo, um cime que d mais teso. Poxa, voc vai l, no fica comigo, qual ? Transou com outro, sacana... Faz-se uma ceninha 
rpida e depois vem um puta teso pra curtir mais a garota." 
      "Minha primeira vez foi l pelos 15 anos, numa festa em casa de amigos, em Petrpolis. Na minha fase meio pirada. Eu estava alto, e a menina me pegou meio 
 fora. Ela era sapato... Fui currado (risos). Depois a gente se namorou, mas no era o que ela queria." 
      "Eu acho timo ser filho nico, porque isso quer dizer apenas 'amor demais'. Eu acho bom. O que atrapalha  a falta de amor. No vejo o lance da superproteo. 
Eu sempre fui muito bem-comportado at a adolescncia. Tipo, 'o neto preferido da vov', sabe? Depois, pintou o lance da rebeldia, fui expulso do Colgio Santo lncio, 
fui fazer zona na rua, transar drogas, fugir para Mau. Rasgava roupa para andar rasgado. Minha me desesperada. A, quando acabava o dinheiro, tava eu de volta. 
Mas eles, meu pai e minha me, sempre foram incrveis comigo. Meu pai deu sempre a maior fora pras loucuras que eu quis fazer. Sempre esteve do meu lado. Dizia: 
" voc vai quebrar a cabea, mas faz o que voc quer..." 
      "Eu fiz vestibular para comunicao, porque meu pai tinha prometido um carro; sempre fui tarado por carro. Com 14 anos, pegava o do meu pai. Os guardas pegavam, 
tinha que dar grana, j era fregus... Bom, ento fiz o vestibular, passei e desisti l pela terceira semana. A falei pro meu pai que no tava a fim de estudar 
e ele falou: 'Ento vem trabalhar comigo'. Fui pra Som Livre. Trabalhei dois anos l. O Lulu Santos tambm estava l, fazendo produo. Eu selecionava repertrio. 
Mandavam milhares de fitas de gente nova e eu ouvia. De cem, tirava uma boa, que mandava para o Guto Graa Mello. Eu fazia tambm comunicados internos e textos de 
releases, do Jorge Ben, do Moraes Moreira. Uma vez teve o show de um conjunto, nem lembro qual, que eles puseram meu texto na portado teatro. Fiquei encantado." 
      "Com meu grupinho no Santo lncio, nos considervamos altamente intelectualizados. ramos comunistas convictos, com 11, 12 anos {risos). Desde aqueles tempos, 
eu era timo em redao. Agora mesmo, tenho pronto um livro de poesias. Falta s o editor. Outro dia achei um texto meu, escrito aos 11 anos: uma redao engraada, 
inocente, linda. Mas sempre fui pssimo em portugus. Tenho o dom de escrever, mas sou nulo em ortografia. Sou o lbrahim Sued do rock. O meu copy  o Ezequiel Neves. 
Uma vez que quis rimar 'no me importem que mil raios me partam' e o Zeca quase morreu quando ouviu a fita..." 
      "Desde pequeno fui tiete de todo o pessoal da MPB. Elis Regina sempre tava l em casa. Eu acordava de noite para tomar gua, e l estavam na sala o Gil, Caetano, 
a Gal. A msica popular inteira me pegando no colo. Os Novos Baianos acamparam l em casa, dormiam, iam comer, porque na poca eram fodidos, no tinham onde ficar, 
e meu pai estava produzindo o primeiro disco deles. S fui curtir rock, Janis Joplin, meus dolos dos Rolling Stones, l pelos 14 anos, quando dei uma pirada. Mas 
antes, o mximo que curtia era coisas do tipo 'Alone again naturally', gua com acar. Nessa poca aos 14 anos, passei umas frias em Londres com um primo mais 
ajuizado. E foi mais uma abertura. Ento passei a ouvir Janis Joplin o dia inteiro. Quando comecei a compor, acabei misturando tudo isso. Do menino passarinho com 
vontade de voar (Luiz Vieira) a Janis Joplin. Mas com uma diferena. A dor-de-cotovelo da MPB, mas dando a volta por cima. 'Ah, voc no gosta de mim? Ento, foda-se 
tambm, eu estou aqui e sou mais gostoso.' O rock da turma nova veio amenizar o lance down, meio negro, de Lupicnio, do pessoal da antiga, que era a falta de esperana 
no amor. O importante no  cantar a perda, mas o amor. Afinal, como dizia Dalva de Oliveira, 'o amor  o amor'." 
      "Quando sa da Som Livre, passei uma temporada em So Francisco. Estava com 20 anos. Fiquei l sete meses, dividia uma quitinete com um chins. Descobri o 
blues de Janis Joplin, fiz cursos de fotografia, dana, essas coisas. Quando voltei, fui ser ator com o Perfeito Fortuna, do Asdrbal; foi na poca que a gente armou 
o Circo Voador, no Arpoador, para fazer a pea Pra-quedas do Corao. Eu no dizia uma palavra em cena, s cantava o tempo todo. A primeira coisa que eu cantei 
foi uma sacanagem com a Novia Rebelde: na minha msica, os filhos do capito Von Trapp descobriam que a novia era na verdade um travesti. Eu cantava at Edelweiss. 
Cantava com microfone sem fio, chiqurrimo. Depois, com a Carla Camurati, a gente fez uma pea infantil. Foi quando o Lo Jaime, que  um cara genial, comeou a 
dar fora, dizendo que eu tinha era de cantar. Ele foi minha fada madrinha, e me levou pro Baro Vermelho, um grupo que tinha um som tipo Led Zeppelin, um rocko 
gostoso, e precisava de um cantor. Cheguei bem pianinho, devagar. Era um bando louco, pintava camburo na porta, porque os vizinhos l no Rio Comprido, onde ensaiavam, 
reclamavam da barulheira. Aos poucos fui apresentando as minhas msicas, eles foram se amarrando nas letras, e pintou a parceria com Roberto Frejat, a paixo da 
minha vida, uma gracinha de parceiro." 
      "Desde pequeno, eu sonhava ser cantor, me ouvir cantando no rdio. Sonhava que um dia meu pai ia ter um Mercedes e ele comprou um. Sonhava em transar algumas 
pessoas e aconteceu. No conto, ningum pode provar mesmo. Mas ter uma msica cantada por Caetano era um sonho meu, e aconteceu. O Ney, quando surgiu, foi uma porrada 
na minha cabea. A liberdade sexual que ele transmite  mais forte at que Mick Jagger. Ento quando ele gravou Pro Dia Nascer Feliz, foi um barato. Quando o Caetano, 
no show Uns, no Caneco, cantou Todo Amor Que Houver Nessa Vida, deu um esporro porque no tocavam o Baro no rdio, foi outro sonho. Acho que a minha estrela  
mesmo muito boa..." 
      "Gosto de estar sempre com muita gente. No vou a boates, porque no gosto de lugar fechado. No bar, voc de certa forma est na rua, sai para comprar um cigarro, 
volta e fica feliz da vida por ter encontrado gente. Nesse sentido, sou meio vira-lata, como j falou de mim o Andr Midani. Mas curto um Jack Daniels, apesar de 
ter pouca grana para comprar. Alis, grana  sempre curta e acaba logo. Este apartamento foi meu pai quem me deu. O carro tambm. Quando o caixa fica ruo,  ele 
quem me socorre. Dependo dele pro lance de mdico, porque no d pra segurar 50 paus por uma consulta. Mas pago minha comida, meus pequenos luxos. No fundo sou um 
perdulrio. Mas com a segurana de ter um pai rico. Dono de gravadora. No cheguei a fazer sucesso por amizade ou proteo. O Ney no grava a minha msica por amizade. 
Foi por amor mesmo. A mim e  msica. No meu meio, irremediavelmente meu pai seria o meu patro, porque afinal se ele no fosse da gravadora (Som Livre), at porque 
ele  presidente da Associao Brasileira de Prqdutores de Discos. Se a Liza Minnelli tivesse parado para pensar nisso, nunca teria sido atriz. Mas no tenho culpa 
por ser filho de pai rico, e porque as coisas foram mais fceis para mim. Nunca tive que vender livros na rua, feito o Tavinho Paes. Ou porque no passei fome, como 
o Lo Jaime." 
      "Sou muito vaidoso e muito desleixado. Gosto de uma mordomia, aqui no apartamento t tudo em ordem porque a empregada cuida bem de mim, seno seria a maior 
zorra. Mas no sei cuidar das coisas. Imposto de Renda me d tique nervoso. Tenho de chamar um amigo pra resolver pra mim. Este ano perdi at a chance da restituio, 
por no ter guardado nenhum comprovante. Sou meio dessituado, meio perdido. Me vejo um pouco meio Carlitos, com o sapato trocado. O carro morre no meio da rua, porque 
esqueci de pr gasolina. Quando fui votar, no sabia direito como fazer... votei no Brizola, porque representa a esperana. Alis, eu sou da gerao do AI-5, que 
nunca soube de nada, mas a gente sempre quis votar. Eu levo f que a gente ainda vai ter representatividade. Vou votar num deputado e poder cobrar posies." 
      "Enfrentar o palco para mim  tudo. Aflora um lado sensual meio incontrolvel. As vezes, entro de pau duro, a coisa pinta at antes de subir ao palco... Outras 
vezes, entro morrendo de medo, mas, cantando solta a tenso. Sem brincadeira,  lance sexual mesmo. Fora do palco, sou tmido, um menininho, me sinto profundamente 
desajeitado. Mas, no palco, sou um Super-homem, de pr a capa e sair voando. Sinto o sexo aflorando, olho para as pessoas e sinto que tem uma coisa tambm, que volta 
em resposta. Porque estou mostrando uma coisa bonita que eu compus: no sou humilde, gosto mesmo do que fao.  muito o lance do prazer, eu e a platia transando 
pra caralho." 
      "Eu fico feliz quando penso que o homem difere dos bichos e das plantas porque pode amar sem reproduzir - embora o Papa no goste disso. O homem transa por 
prazer. Ento pode ser homem com homem, mulher com mulher, com diafragma, com plula, com o que for... Homossexualismo  assim uma coisa normal. E o hetero, e o 
bissexualismo. O homem pode amar independente do sexo, porque ele no  bicho, no  planta. Se o cara no quer, no sente atrao, tudo bem. Mas no tem esse negcio 
de regra geral quando se fala de amor. Quando pinta teso, estou com Tim Maia e Sandra de S: 'vale tudo', mesmo! 
      "Por enquanto, o que me d maior prazer alm da msica  o beijo na boca. Aquele lance do beijo que  o 'fsforo aceso na palha seca do amor'. O beijo comea 
tudo;  da boca que vem a relao... a primeira vez que se entra numa pessoa. Pra mim,  essencial. Sou capaz de ficar de pau duro se beijar algum." 
      "Tem gente que se irrita, porque eu canto que todo mundo vai pegar a sua pasta e ir pro trabalho de terno, enquanto vou dormir depois de uma noite de trepadas 
incrveis. Mas o dia-a-dia no  potico, todo mundo dando duro e a cada minuto algum sendo assaltado ou atropelado. Ento, vamos transformar esse tdio numa coisa 
maior. Li uma vez que voc vive no sei quantas mil horas e pode resumir tudo de bom em apenas cinco minutos. O resto  apenas o dia-a-dia. Um olhar, uma lgrima 
que cai, um abrao... Isso  muito pouco na vida. Ento, isso vale mais que tudo para mim. Prefiro no acreditar no day after, no fim do mundo, no apocalipse. Um 
dia, ainda vou andar na nave espacial Columbus. Bbado, lgico, mas vou andar!" 
      
      "Sexo sem amor di, mas ao mesmo tempo  timo. Isso me angustia, mas  a melhor forma de viver. Trepo com todo mundo, sem a nostalgia de um romance. Aquela 
coisa crist de ter algum. No fundo  uma escolha essa falta de compromisso. Afinal, no  todo dia que voc encontra sua Yoko Ono. E enquanto ela no pinta vou 
levando na sacanagem." 
      
      1985 
      "Hoje sei que vendo meu bacalhau, mas meu lance mesmo  a poesia, que eu mastigo e vomito no pblico." 
      
      "Quando pintou o Baro eu tinha tudo para no dar certo. Nunca fui cantor, eu gostava de compor." 
      
      "Meu trabalho  totalmente intuitivo. Nunca estudei canto, dana, nada... eu sou rouco: eu birito, no tenho nenhum cuidado com a voz. No fao nenhum exerccio. 
Meu exerccio  no palco." 
      "Eu me considero um autodidata mesmo. A mise-en-scene, tem muita coisa que a gente imita dos outros. Pego um pouquinho ali do Caetano, um pouquinho do Ney, 
um pouquinho do Mick Jagger, os dolos da gente." 
      "Eu acho que tenho essa ironia, esse deboche, sim.  uma autodefesa, porque as pessoas so fogo mesmo. Ento a gente tem que jogar um pouco com o deboche, 
com o cinismo para no se machucar. Mas no meu trabalho mesmo, nas minhas letras, nas minhas entrevistas, eu levo tudo bem a srio... Cantar  a coisa mais sria 
que eu fao, que mais me faz feliz. O trabalho  uma coisa importante. A pessoa que no encontra algo que a realize vira uma ameba." 
      "Sou muito sincero e s vezes at me arrependo disso. Se estou batendo um papo com um jornalista, eu estou sendo eu o tempo todo. No tenho uma armadura... 
Agora, de certa maneira, depois da entrevista da Playboy, toda entrevista que fao, acabam batendo nessa tecla do homossexualismo, da droga.  uma coisa at que 
resolvi no falar mais, porque a  a minha vida particular. Agora, tudo que falei ali reforo e assino embaixo." 
      "No me sinto minoria, nunca me senti... Eu tenho horror a gueto. Quero viver num mundo diferente. Quero viver num mundo em que todo mundo conviva igual... 
No faria parte de um gueto, nunca. Eu no gosto de andar s com preto, s com judeu, s com viado. Eu gosto de viver  com todo mundo junto.  uma experincia que 
eu tenho de vida. Me sentiria muito mal em levantar bandeira de qualquer coisa que fosse muito especfica, portanto no quero levantar bandeira de minorias. Acho 
que a coisa tem que ser maioral." 
      "Artista e censura so incompatveis. O artista tem  que cantar, escrever, compor, pintar. Sei l, acho que o papel do artista  muito ligado ao plano etreo, 
ao plano da fantasia, ao plano da poesia." 
      " o cmulo prender um garoto inteligente, que faz faculdade, que  futuro do Brasil, s porque foi pego com um baseado.  um absurdo internar esse garoto 
num lugar onde vai ficar tomando remdio... Tem que haver leis mais liberalizantes para isso.  claro que o Brasil tem coisas muito mais srias para resolver. Mas 
 uma coisa que afeta a mim que sou classe mdia, burgus. O que eu acho bacana na poltica da democracia ocidental  isso.  voc poder votar no cara que vai tentar 
resolver o seu problema mais imediato... Eu falo de cadeira porque j fui preso vrias vezes.  maior a violncia contra o jovem. O jovem est sempre experimentando 
coisas novas, que s vezes so at passageiras." 
      
      "Adoro quando as fs rasgam minhas roupas. Me sinto o prprio Cauby Peixoto." 
      
      "O rock  a idia da eterna juventude. Quando descobri o rock, descobri tambm que podia desbundar. O rock foi a maneira de eu me impor s pessoas sem ser 
o 'gauche' -  porque de repente virou moda ser louco. Eu estudava num colgio de padre onde, de repente, eu era a escria. Ento quando descobri o rock, descobri 
a minha tribo: ali eu ia ser aceito! E rock para mim no  s msica,  atitude mesmo,  o novo! Quer coisa mais nova que o rock? O rock fervilha,  uma coisa que 
nunca pode parar. O rock no  uma lagoa,  um rio. O rock  a vingana dos escravos.  porque no  para ser ouvido,  para ser danado,  uma coisa tribal. Rock 
 simplesmente uma batucada. O rock brasileiro  fazer gracinhas,  contar piada. O que a gente tem de forte no rock brasileiro  o 'ag' que a gente leva." 
      "O Caetano (Veloso) rebolava e fazia tudo para chocar Joo Gilberto. E a, ento, a gente tem que chocar os dolos da gente." 
      
      "Eu sou muito diferente do pessoal do Baro. Sou mais velho, mais louco, mais bomio: eles so mais saudveis, acordam cedo, no fazem loucuras." 
      "Eu tenho um ego muito grande, no conseguiria dividir um palco ou um disco." 
      " S as Mes So Felizes  uma homenagem s pessoas que vivem o lado escuro da vida, aquelas que preferiram trocar o escritrio pela rua, que resolveram viver 
e escrever a vida." 
      "Eu sou capaz de viver o lixo e o luxo da vida, me sinto to bem num botequim ou no Hippopotamus." 
      "Eu nunca precisei lutar pela vida, e tenho inveja de amigos meus que batalharam, passaram mal e conseguiram conquistar coisas por esforo prprio." 
      "Eu sou um inadimplente." 
      "Eu prefiro ser visto como um letrista;  mais a minha cara." 
      
      "Eu sou o rei da declarao." 
      "Voc  bissexual? Eu digo que sou. Quem  seu dolo? Eu conto.  um defeito. Acabo ficando com fama de bbado, homossexual e maluco..." 
      "No tenho luxos. No sou de beber champanha no Hippopotamus. Meu luxo  tomar um Teacher's no Baixo Leblon e comprar um papel de vez em quando." 
      "Superme perde perto dela. A do Ziraldo  penico perto da minha." 
      "Amor demais no atrapalha. Um filho rejeitado nunca conserta a cabea. Um superprotegido t limpo." 
      "Os jovens de hoje so bem caretas. Eu preferia ter vivido nos anos 60. Mas j que vivo na poca de agora, posso pelo menos falar mal dela." 
      "Levo uma vida burguesa. Mas sei que o Brasil vai mal, que tem gente morrendo de fome, que o Papa  um bobo e que o comunismo no est com nada." 
      "Sou meio ufanista, mas a misria, a mfia e o FMI mataram o orgulho da gente." 
      "No me considero um cantor. Levo legal o meu lero. Sou afinado. Mas no passo de um letrista que canta, que gosta de palco. No palco, me sinto o cara mais 
gostoso do mundo. Fora dele, fico meio indeciso, perdido..." 
      
      "Meu primeiro disco solo  um trabalho onde eu estou me expondo muito, quis mudar um pouco a temtica. Na poca do Baro Vermelho eu era tido como o letrista 
que cantava fossa, a dor-de-cotovelo... Este disco est um pouco mais para cima, tem msicas onde olho menos para o umbigo. Neste disco, eu quis fazer homenagens 
a poetas que gosto, est um trabalho diferente. Tem uma msica bem romntica de uma separao, mas que no  dor-de-cotovelo. Tem msicas desesperadas, mas  um 
desespero mais universal, no  aquela coisa de dor a dois."
      "Eu tenho vrios lados. O lado escuro  um lado muito forte, porque sou muito bomio, vivo muito de noite. Gosto muito da noite, acho que ela  um espao, 
um territrio livre para tudo. No sei... a noite  muito dramtica, muito bonita. As pessoas que saem na noite procuram algo que na verdade no vo encontrar, mas 
elas curtem a procura, aquele papo-furado. Gosto muito de sol, tambm, de praia." 
      "O Rock da Descerebrao foi feito para a pea Ubu Rei, uma pea muito louca, porque o Jarry foi o primeiro punk, o primeiro beatnik. Ele e o Rimbaud, aquele 
pessoal todo do fim da virada do sculo que subverteram toda a caretice da poca." 
      "Sou um cara que ouve muita msica brasileira. Eu no conheo os grupos l de fora, no conheo o rock internacional. Conheo Janis Joplin, blues, Stones, 
Beatles. Estou super por fora do new wave, ps-punk, etc. Sou um cara mais ligado nas coisas daqui do que nas de fora. Ento, minha influncia do rock veio a partir 
de Rita Lee, Jovem Guarda, Raul Seixas. Eu me coloco dentro de um rock que j est sendo feito h muito tempo, um rock mais genuno." 
      "Acho que o sucesso  uma coisa muito perigosa. No me deixo seduzir por ele. Eu nunca me deixei fascinar por transa de fs me agarrando, porque sei que  
uma coisa de momento... Tento ser coerente com o meu trabalho e mais nada. No me deixo seduzir por mordomias de sucesso: 'casacos de visom num dia; no outro trapos', 
tipo Billie Holiday." 
      
      "Desde novo, perseguia Caetano, Gil e Rita Lee nos bastidores dos shows, em festas, na praia. Gostava de sentar ao lado deles s para ouvi-los falar. Agora, 
admirao mesmo eu tenho  pela beleza da Nastassia Kinski. Sempre vou ver os filmes dela. Pode ser pornochanchada, comdia, qualquer porcaria. Vou ver s por causa 
dela." 
      
      "Sempre fui ligado em carros e meu prazer era encher o automvel com a turma e ir para fora. Mesmo tendo carro, desejava ganhar uma moto e ficava com um dio 
dos meus pais, porque davam o contra. Hoje, no ligo para carros, nem para motos." 
      "J andei fazendo anlise e descobri que era apenas para entrar na moda. Alugava amigos para me escutarem e era uma coisa bem solitria. Um dia descobri como 
transar o sexo e, embora tenha problemas, passei a me entregar s emoes sem sentimento de culpa. Hoje posso amar uma mulher ou um homem com mais intensidade e 
meus pais aceitam o filho que tm numa tima." 
      "Gosto muito de fazer meu mapa astral, e outro dia disseram que meu melhor perodo da vida ia dos 28 aos 35 anos. Esse seria o tempo de grandes acontecimentos 
e tudo indica que vai ser bom mesmo. Por isso, adoro previses." 
      "Quando enfrento as luzes do palco, h quem jure que meus olhos chegam a ficar verdes. Me defendo com esta postura." 
      "Gostaria de ter uma famlia. Fazer a minha famlia, o que deve ser muito bom. Mas no me considero capaz de dar segurana a uma famlia. Vivo s meu delrio 
e, quando me sentir forte o bastante, quero ter um filho e ser um pai legal. Os problemas do mundo existem porque os pais no deram colo para seus filhos e eu queria 
muito mais colinho." 
      "Espero que, no futuro, no se esqueam do poeta que sou. Que as pessoas no se esqueam de que, mesmo num mundo eletrnico, o amor existe. Existem o romance 
e a poesia. Que mais crianas venham a nascer e  fundamental o amor aos pais." 
      "Quando eu era garoto, queria ser um grande arquiteto e s me interessava em ficar fazendo mapinhas da cidade, traando ruas e desenhando edifcios. Essa mania 
acabou quando resolvi fazer vestibular e percebi que no dava para matemtica. Como fazia mapas, fazia poesia s escondidas de meus pais, porque era um romntico, 
um cara cheio de dores-de-cotovelo." 
      "Meus pais foram muito compreensivos quando comecei a dizer em entrevistas que era bissexual. S achavam que eu estava exagerando, me expondo, mas esse  o 
papel deles. Se h alguma coisa errada,  comigo. Procuro as respostas atravs da vida. Quando ficar velhinho e morrer, ningum vai mais lembrar deste meu lado. 
S a msica vai ficar.  s isso que o pblico vai levar do Cazuza." 
      "Ser filho nico, por um lado,  bom; por outro, no. Meu pai e minha me, por fora da vida profissional, tinham que freqentar a vida bomia - o que acabei 
herdando deles tambm - e me deixavam sempre com a minha av materna. Ela era uma mulher fantstica, muito louca, aberta e deixou um grande buraco na minha vida 
quando morreu. Fiquei sozinho, sem um irmo para dividir comigo as alegrias e mgoas. No tive coragem de me abrir com meus pais sobre minha vocao potica, porque 
pensava que iam dar o contra. Ento, com minha av, discutia versos, rimas. Ela foi a pessoa que mais influiu na minha infncia e adolescncia. Meu pai e minha me 
no eram repressores. J aos 13 anos, tinha a chave de casa e o carro de meu pai para dirigir." 
      "No consigo encontrar algum que me entenda e, a essa altura, j no sei dividir mais nada, muito menos apartamento. J no tenho saco pra ser cobrado de 
nada e dificilmente as mulheres entendem que gosto de ficar sozinho com meus versos, escutando msica ou simplesmente em silncio. J cheguei a viver com uma e no 
deu certo. Sempre fui um cara certinho, sem as rebeldias dos jovens atuais. Claro que algumas vezes dava minhas fugidinhas de casa, mas sempre voltava como um bom 
menino." 
      "A minha msica faz parte de uma histria que comeou quando o meu av, dono de um engenho em Pernambuco, resolveu morar em cima do areal do Leblon (Rio de 
Janeiro), como terceiro morador da regio. Ali nasceu meu pai, Joo Araujo, que se casou com uma moa linda, Lucinha, que cantava como um passarinho. Uma mulher 
que se tornou importante no cenrio musical e que teve, numa das primeiras novelas da televiso, sua gravao da msica Peito Vazio, de Cartola, includa na trilha 
sonora. Gostava de v-la cantando e penso que isso influiu muito no meu futuro." 
      "Exagerado  um disco agressivo, mas eu acho que a gente tem que ser agressivo, porque estamos numa poca muito agressiva, a direita est agressiva. Fiz anlise 
dois anos e tenho uma coisa edipiana mesmo, e de Electra tambm... a minha ligao  forte com os dois, meu pai pelo lado da vida, e com a minha me pelo lado mgico. 
Minha me  mais uma coisa energtica, csmica, meio louca, ela entende tudo o que eu fao, no explico mais, pro meu pai eu j explico." 
      "A histria das drogas est na Bblia,  o po e o vinho, um  o alimento e o outro  a imaginao. Eu, pelo menos, sou uma pessoa que precisa disto, quero 
tanto o po como o vinho, a realidade e a fantasia. Tenho respeito por todas as religies, o candombl, tudo..." 
      "O Brasil precisa de muita fora de seu povo. O nico pas da Amrica Latina que est com a cabea erguida  Cuba, que fez uma revoluo contra um poder enorme. 
A gente t muito de cabea baixa... FMI, o brasileiro que em N.Y. fica querendo falar ingls bem porque l  a cpital do mundo; no tem nada disso, a gente tem 
que ter orgulho de ser brasileiro, sul-americano, ter brilho nos olhos." 
      "Eu no pirei com os Beatles, no dava muita importncia, via como uma coisa meio histrica. Mas adorava tambm. Cantava Help numa lngua que inventei... S 
quando pintou Caetano com Alegria, Alegria  que achei aquilo moderno. Gal cantando 'a cultura, a civilizao, elas que se danem...' Macal e a 'morbideza romntica' 
de Wally Salomo. Rock eu conheci mesmo atravs do Caetano e da Tropiclia, Os Mutantes, Rita Lee, Novos Baianos. Com 13 anos, eu estava l no per de Ipanema; ficava 
de tiete, de longe, tentava apresentar uns baseados pra eles, mas ningum pedia." 
      
      1986 
      "Os marginais esto mais perto de Deus. Toda ovelha desgarrada ama mais, odeia mais, sente tudo mais intensamente, embora eu mesmo no me sinta assim. Talvez 
eu seja mais burgus do que transmito em minhas msicas. Eu convivo com essas pessoas e o que fao  uma espcie de defesa deles." 
      "Quando a Brasiliense comeou a lanar as obras de Kerouac, Ginsberg, Borroughs, eu quase fiquei pirado, porque eu fazia algo ligado a eles e no sabia. Penso 
que os anos 50 tm muito a ver com os anos 80. Era uma poca de represso que se soltou l pela dcada de 60 como agora." 
      
      1987 
      "O disco S Se For a Dois me permitiu usar uma coisa no rock'n'roll. Eu tenho esse lado de cantor de churrascaria..." 
      "Eu morro sem o Frejat.  a paixo da minha vida. Quero fazer parceria com ele at morrer." 
      "Eu posso chegar num bar e conversar com a Beth Carvalho, a Elza Soares, um cara punk. No ponho barreira em nada." 
      "Sou tiete de primeira hora do Caetano. Ele foi um cara que deu um aval importantssimo no comeo da minha carreira. Mas agora, com as declaraes dele de 
que o Rio  s plumas e paets, foi a primeira vez que me decepcionou. Acho que ele deu uma mancada legal. Daqui a seis meses, ele volta com outra polmica. Ele 
devia estar num dia 'no'..." 
      "Lobo deve amar muito o Caetano. Deve se pegar com a coisa do Caetano achar a gerao dele muito melhor. Mas eu tenho orgulho de fazer parte de uma gerao 
que tem o Renato Russo, o Arnaldo Antunes, o Lobo, uma gerao que acabou com essa histria de que rock  bobagem." 
      "Sou um romntico ao contrrio do Lulu Santos. Ainda no conheci a minha Scarlett". 
      "Continuo compondo porque sou compositor. Por acaso eu canto. Eu gravo s para registrar que fiz isso ou aquilo num certo tempo." 
      
      "Sempre tive horror de poltica, mas tem coisas que voc no precisa saber, qualquer burro v. Brasil  uma msica crtica mas no tem nada a ver com uma fase 
'poltica'. Eu simplesmente passei o ano passado (86) do lado de dentro, e quando abri a janela vi um pas totalmente ridculo. O Sarney que era o no diretas virou 
o rei da Democracia. Os fs de hoje so os linchadores de amanh (frase de Millr Fernandes citada em Vai  Luta). O Brasil  um triste trpico." 
      
      "Dei uma entrevista para uma revista masculina falando de drogas e bissexualismo. Depois, todas as pessoas vinham me entrevistar, queriam saber mais a respeito. 
S que cansei de falar sobre isso. O meu trabalho  mais interessante do que a minha vida sexual." 
      
      "Tenho a fantasia de ficar para sempre com uma pessoa s, ter filhos, constituir famlia. Mas minha vida desdiz isso." 
      
      "No tenho nada a esconder. A minha vida  um livro aberto. Entendo, por exemplo, que determinados artistas no podem dar determinadas declaraes, porque 
tm um certo compromisso com outra faixa de pblico, mas este no  o meu caso... Acho que as pessoas que compram meu disco e vo aos meus shows se identificam comigo 
porque tm um tipo de vida parecido com o meu. Nunca passou pela minha cabea ter uma imagem. Nunca procurei isso..." 
      "Ter todo o pblico no escuro e aquela luz em cima de voc  o xtase do narcisista. E eu sou supernarcisista, mas acho que todo mundo que sobe num palco tem 
esse lado. Por mais que o cara no tenha vaidade, tem um lado narcisista. De forma nenhuma considero o narcisismo ou o egosmo um defeito. Acho que so coisas inerentes 
ao ser humano." 
      "No h coisa que me deixe mais feliz do que quando as pessoas vo ao meu camarim, depois dos shows, para falar que a histria da msica  exatamente o que 
aconteceu com elas. Isso  muito bonito e gratifica a gente... Existe essa busca de calar-se com pblico. Isso  lindo." 
      "Acredito em Deus... Ele est no pr-do-sol, nas pessoas bonitas, legais, superanimadas Tambm no acredito em outra vida. A vida  essa aqui mesmo, e a gente 
tem que aproveitar enquanto  tempo. J me preocupei muito com a morte e tive medo at. Hoje, apesar de ser um assunto sobre o qual no gosto muito de falar, encaro 
com naturalidade, porque acredito tambm na energia das coisas. Na transformao das coisas em energia. Talvez at volte a este mundo, mas como outra coisa, em outra 
forma... sei l." 
      "Acho at que, atualmente, poucos compositores falam da dor. Antigamente, tinha aos montes: Dolores Duran, Lupicnio Rodrigues, Noel Rosa, Cartola, Maysa e 
tantos outros. Depois disso, pintou uma fase em que era cafona e antiquado falar do sofrimento. No estou sendo pretensioso, no, mas vrios estudiosos da msica 
popular j me disseram que eu trouxe essa coisa da dor-de-cotovelo de volta.  claro que isso aconteceu com a moldura mais epidrmica do rock. Todo brasileiro, todo 
latino-americano,  pego um pouquinho pelo p nisso de mexer na ferida do amor. E sempre gosta de temas relacionados a uma paixo que no deu certo. Esse  o lado 
diferente e talvez polmico do meu trabalho." 
      
      "Pra compor, no planejo absolutamente nada. Acho que sou a pessoa mais desorganizada que voc pode imaginar. Tudo me acontece de supeto, porque nunca sei 
como a coisa vai sair. Agora, quando a inspirao vem, sou caxias mesmo, muito sistemtico. Quando sento  mesinha para trabalhar, fao mesmo. Se a idia no pinta, 
puxo por ela at acontecer. S sou disciplinado para trabalhar. Pode ser at as quatro horas da manh. Mas se comeo uma letra, ela tem que sair. Depois fico semanas 
melhorando as imagens, as rimas." 
      "Eu no me considero poeta, sou apenas um letrista para divertir o povo." 
      "Ao contrrio de todo mundo, que fica se ressentindo 'porque ela me deixou, no sabe o que perdeu', eu no tenho medo de dizer: Eu  que fui covarde e babaca." 
      "Eu no conto uma historinha,  uma coisa de parar e pensar na vida." 
      "Todos os que vivem no lado escuro da vida so pessoas iluminadas e me sinto mais  vontade em lugares com pessoas escrachadas do que com as mais finas." 
      
      "No tenho vergonha de ser triste. Eu tenho o lado moleque mas tambm tenho o lado 'sentado  beira do caminho soltando bolha de sabo'. Mas de um tempo para 
c, me cansei de temas romnticos. Esse disco  muito romntico (S Se For a Dois),  de uma fase at meio triste, mas acho que foi uma fase vlida. O que aconteceu 
 que nas minhas letras eu tento debochar da dor, porque o rock abre essa possibilidade." 
      "Eu tenho um jeito de cantar blues, mas o meu modo de escrever  samba-cano" . 
      "Quando saio na rua, pinta um personagem mais moleque,  verdade, mas acho muito chato voc chegar a um lugar e ficar ouvindo as pessoas falarem mal da vida. 
P, vai a um analista ento!" 
      
      "No sou um poeta aleatrio, e, depois, como bom filho da Tropiclia, no consigo admitir a barreira que as pessoas traam para distinguir o que  e o que 
no deixa de ser MPB." 
      "Eu sou letrista de rock por acaso. Se houvesse pintado um grupo de samba, em vez do Baro Vermelho, eu estaria compondo sambas. De qualquer forma, sou muito 
latino, muito passional, e minha poesia reflete isso. Posso tentar caminhar no estilo Joy Division, mas quando vou ver o resultado, est muito Cartola." 
      "Atualizar Lupicnio, trazer essa tradio da poesia brasileira atravs de uma abordagem mais moderna, mais prxima de nossa realidade, nosso 'hoje'. No posso, 
por exemplo, repetir Noel Rosa. Os tempos dele eram mais romnticos, as pessoas pediam xcara de acar emprestada. Hoje, as pessoas nem se olham na cara. Houve 
a mudana do universo comportamental, e do referencial imediato. Mas o referencial bsico fundamental, essencial, para mim, para minha alma, ainda  o mesmo." 
      
      "De cara fiquei meio constrangido por dividir o prmio da Associao Brasileira dos Produtores de Discos de melhor letrista da MPB com o Chico Buarque. Sou 
tarado pela obra dele, acho seu trabalho incomparvel. Mas depois pensei melhor e achei que no devia menosprezar assim o meu prprio trabalho." 
      
      1988 
      "Os problemas do Brasil parecem ser os mesmos desde o descobrimento. A renda concentrada, a maioria da populao sem acesso a nada. A classe mdia paga o nus 
de morar num pas miservel. Coisas que, parece, vo continuar sempre. Ns teramos sada, pois nossa estrutura industrial at permitiria isso. O problema do Brasil 
 a classe dominante, mais nada. Os polticos so desonestos. A mentalidade do brasileiro  muito individualista: adora levar vantagem em tudo." 
       "Educao  a nica coisa que poderia mudar este quadro. Brasileiro  grosso e mal-educado, porque no pensa na comunidade, joga lixo na rua, cospe, no est 
nem a. Este esprito comunitrio viria com a cultura. Acho que o socialismo ] talvez possa trazer este acesso  cultura de massa. Fazer como o Mao Ts-tung fez 
com a China. Educar todo mundo  fora. Temos que estudar, ler, ter acessos a livros."  
      "O inferno  aqui. A cabea da gente  um inferno. E essa de 'o inferno so os outros' no sei no... Pra mim, que dependo muito de amigos, de carinho dos 
outros, no vejo a vida contra algum. Posso at ser meio ingnuo. Essa viso de inferno e cu: eu no vejo o inferno como uma coisa ruim e o cu como bom. O cu 
pode ser uma chatice e o inferno uma coisa divertida. Alis, as imagens que temos do inferno so sempre aquelas onde localizamos o demnio, as pessoas transando, 
se comendo. O inferno  um baile de carnaval no Monte Lbano." 
      
      "Estou careta, no bebo, no tomo drogas, no estou mais na noite; estou tratando de mim de um jeito que nenhuma bab trataria. Nunca tinha ido a um mdico 
at os 30 anos... eu no sabia que tinha um corpo e que ele podia falhar um dia." 
      "Troquei de analista e tenho mais f. Chamei por Deus, sim, a gente sempre chama o nome de Deus em vo, no ? Acho que Deus  parte do medo que a gente tem." 
      " Ideologia fala da minha gerao sem ideologia, compactada entre os anos 60 e os dias de hoje. Eu fui criado em plena ditadura, quando no se podia dizer 
isso ou aquilo, em que tudo era proibido. Uma gerao muito desunida. Nos anos 60, as pessoas se uniam pela ideologia. 'Eu sou da esquerda, voc  de esquerda? Ento 
a gente  amigo.' A minha gerao se uniu pela droga: ele  careta e ele  doido. Droga no  ideologia,  uma opo pessoal. A garotada teve a sorte de pegar a 
coisa pronta e a pode decidir o que fazer pelo pas, embora do jeito que o Brasil est, haja muita desesperana." 
      
      "Acho que o poeta  um insatisfeito. Ento a noite, a vida noturna, a vida bomia, da farra, so geralmente freqentadas por pessoas insatisfeitas... Acho 
que  a prpria insatisfao do artista que o leva a ter uma vida desregrada... Voc diz que eu sou poeta, mas eu me considero um letrista, gosto de falar que sou 
letrista, porque eu acho que tem uma distncia entre poesia e msica popular..." 
      "No sei se algum dia vou ser poeta, realmente. Quando me vem uma idia na cabea, ela j vem musical.  um processo criativo meu; escrevo cantarolando uma 
coisa na minha cabea... Eu vejo a poesia como um trabalho com a palavra mesmo. Todas as possibilidades que voc pode tirar da palavra, da gramtica. Acho que fao 
uma coisa mais ligada  msica do que  palavra e por isso no me considero poeta." 
      "Eu tenho um lado que leva as coisas muito a srio. Eu pareo ser uma pessoa que no leva nada a srio! E o que me salva na minha vida  que eu no consigo 
levar esse meu lado srio to a srio." 
      "O rock j no  uma coisa da qual se possa debochar... A gente est com uma fora de palavras, as pessoas esto ouvindo o que o Renato Russo fala, o que o 
Lobo fala... Por ma que cada um tenha caminhos loucos, eles esto falando. Somos uma gerao muito mal informada - no tivemos participao poltica alguma; estamos 
chegando aos tropees. A gente nunca teve ideologia..." 
      "Eu sou muito romntico e me defendo muito com o meu lado agressivo. Eu estou deixando essa faceta de criana, ingnua, bobo, puro mesmo, aflorar bastante. 
Como eu estou sem defesa, estou sem biritar - a bebida era uma coisa que me defendia um pouco das pessoas; eu tomava trs usques e virava o meu heri. E eu fiquei 
muito fraco, doente, exposto, frgil, muito feminino, muito 'yin'... Isso tudo ficou muito forte e  muito legal..." 
      "A coisa de que mais sinto falta  a poca em que andvamos em tribo. Hoje em dia trabalho muito sozinho - cada d vez eu me vejo mais s." 
      "Acho que a revoluo  na vida da gente. Com 18 anos voc quer mudar o mundo e com 40 no quer mais. Por que isso? A gente muda! Tem uma coisa de poca tambm... 
teve uma poca de distenso, de abertura de costumes, que foram os anos 60 e 70. Agora estamos voltando ao moralismo. E estamos vivendo uma poca chata." 
      
      "Est pintando uma coisa diferente em 1988, primeiro porque dei uma parada para pensar na minha vida, estive muito mal, muito doente, quase morri. Foi uma 
coisa que me mudou. Parei de sair  noite, estou levando uma vida diferente, me preservando, me escondendo mais. Ento me perguntei como seria agora que no tenho 
mais meus celeiros criativos que so os bares. Essas pessoas meio marginais com quem eu convivo, sou fascinado por isso. A maioria das coisas que fao, por incrvel 
que parea, no  auto-referente. A inspirao vem muito das situaes que vivem as pessoas que esto  minha volta, embora cante na primeira pessoa, sempre tiro 
de um amigo que brigou com a namorada... E por a. E agora? Eu meio na janela, observando o mundo, escondido na minha casa, com menos amigos, apenas os mais chegados..." 
      "Eu achava que no podia falar sobre poltica, por no ser uma pessoa poltica. Eu tinha muito preconceito em falar no plural, achava que s falava bem do 
meu mundinho. Isso comeou a mudar quando fiz a letra de Um Trem pras Estrelas, com a msica do Gil, a partir do roteiro do filme de Cac Diegues. Depois conversando 
com mil pessoas, inclusive Gil, pensei por que no mostrar a minha viso, por mais ingnua que ela seja? No sei quanto  a dvida externa, qual  o rombo das estatais... 
no estou por dentro destas coisas, tenho uma viso romntica, mas a maioria da populao tambm deve ter uma viso ingnua, ento por que no me posicionar?" 
      "Tenho f em mim mesmo, a minha experincia com Deus  por a, sou muito pragmtico, ctico. Nunca me envolvi com misticismos, mas at acredito em magia. Quanto 
 minha sade, tive muita f na cincia e tambm no astral de querer ficar bem. Toda doena  muito cabea, se voc no est bem, acaba influenciando suas clulas. 
Antes de ficar doente j me sentia como um personagem. Eu estava aparecendo mais em coluna social com um copo de usque na mo do que pelo meu trabalho. Todo dia 
nas ruas, nas festas, querendo aproveitar cada minuto, mas estava meio down, ou ento um clone de mim mesmo. Agora, sem beber ou tomar drogas, coisas de que sempre 
gostei, mas tive de parar para continuar vivo, consegui um pouco mais de paz, o que levou a uma mudana at como letrista." 
      
      "Nunca escondi que sou bissexual. A aids no  uma epidemia e ningum pode deixar de se amar por causa dela. Vamos usar camisinhas! Vamos resistir at que 
encontrem a cura para essa doena. " 
      "Liberdades conquistadas so liberdades conquistadas. Usei minha rebeldia contra a morte." 
      "Dei a volta por cima da morte. Isso me deu uma f muito grande. A doena  metade corpo, metade carma - uma atmosfera da qual voc precisa se livrar. Sa 
da doena com o corpo fraco e a cabea forte. O tratamento mdico nos Estados Unidos foi to importante quanto a gravao do disco. Este disco  da sobrevivncia." 
      "Comi o po que o diabo amassou, No d para o reprter chegar e me perguntar: 'Como vai a tua aids?', 'Como vai seu cncer?' No posso dar satisfao sobre 
o que est acontecendo com o meu corpo. Isso  assunto meu e do meu mdico." 
      "Estou querendo me livrar do personagem Cazuza. No quero mais falar em minhas msicas de sexo e drogas. Deixa isso para o Lobo. No quero mais segurar cartaz. 
No quero nem que cachorro me siga na rua." 
      "As revistas de fofocas dizem que fiquei careta. No sou uma 'Madalena Arrependida'. A droga foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Abriu a minha 
cabea, Maconha, cido... Mas no podia sair do hospital e continuar bebendo e me drogando. Era uma opo: continuar vivo ou morrer."  
      "No quero que me imitem. No quero ningum atrs de mim. Tenho muito medo de ser porta-voz de qualquer coisa," 
      O futuro o rock brasileiro esta na msica mais percusslva, baiana, caribenha.  um filo genial, meu porteiro e a minha empregada vibram com a msica de Sara 
Jane e Gernimo."
       "No tenho peito de falar mal das pessoas. O Lobo fala mal de todo mundo, mas no sai de casa. Eu saio muito, encontro as pessoas." 
      
      "Antes eu me sentia cronista da minha tribo, muito reduzida, por ser a tribo dos bomios... Agora, minha temtica se tornou mais abrangente. No que no me 
considere mais cronista da minha tribo, mas  que minha tribo aumentou."  
      "s vezes fico pensando que a aids parece mesmo coisa da CIA misturada com o Vaticano. Sei que  um pouco de loucura pensar isso, mas faz sentido, faz. Faz 
muito sentido." 
      
      "Sempre fui muito piranha, mas com essa histria de aids eu tambm resolvi me guardar mais, estou mais calmo. No namoro h mais de um ano, mas estou aberto 
ao que pintar." 
      
      "Eu sempre fui uma pessoa de duas vidas, de duas casas. Eu era durante o dia uma pessoa, e  noite tomava quinhentos mil conhaques, e virava o Super Cazuza, 
entendeu? Isso me encheu o saco." 
      "As pessoas sabem de histrias minhas que eu nem me lembro. Se algum me pedisse para escrever um livro sobre a minha vida, eu no poderia. No me lembro. 
Foram noites e noites. E depois? Acordei e tomei outro porre." 
      "Custei a acreditar que eu era realmente um artista, sabe? Eu queria fazer uma zona, aparecer nas revistas, nos jornais, mostrando 't vendo, papai; t vendo, 
vov'... Era uma coisa mais ou menos de provar coisas para quem no acreditava que eu fosse capaz de fazer. Foi uma poca meio estranha, acho que todo artista tem 
isso, eu no me considerava, achava que eu era um cara da rua, da praia, que estava ali fazendo zona. Eu no tinha conscincia do que eu estava fazendo. E as pessoas 
comeavam a me cobrar, falando bem do meu trabalho, gostando, identificando coisas... A, voc comea a ver que  um artista." 
      "A cada dia que passa, eu estou me sentindo mais compositor. O ano passado (1987) fiz uma msica para a Angela Maria e ela gravou. Chama Tapas na Cara. A Elza 
Soares tambm gravou uma msica que fiz com a Denise Barroso.  engraado isso, acho que meu trabalho atingiu de oito aos oitenta. Agora me considero compositor 
profissional.  o que d mais prazer, muito mais at do que fazer shows. Por exemplo, eu gozo todo dia quando ouo a Gal cantando Brasil, sei que o pas inteiro 
est ouvindo, ela canta bem pra caralho. Isso me d tanta alegria!!!  genial ouvir minha msica na voz da maior cantora brasileira." 
      "Nunca vou ser uma grande estrela porque sou preguioso, sou incapaz de fazer aula de canto, de tentar me aprimorar, tomar aulas de expresso corporal. O artista 
que deseja ser star, que deseja mesmo brilhar nos palcos, tem este tipo de preocupao." 
      "Jamais conseguiria morar fora do Brasil. Eu no sou nada cosmopolita, nada sofisticado, sou muito simples. Gosto de ver televiso, de ir  praia, tomar cerveja 
no botequim, fui criado bem classe mdia. Meu pai quando ficou rico, eu tinha 15 anos. Quando chego em N .Y. fico irritado, falo mal ingls, as pessoas no entendem 
o que eu falo, d vontade de matar, enforcar... Fico me sentindo um aleijado, um ndio, uma pessoa do terceiro mundo, envergonhado, sabe? Isto se transforma em raiva, 
vendo aquelas pessoas posudas, com aplomb... Europeu tambm tem isso..." 
      "J viajei bastante, morei na Califrnia, em Londres... Essa coisa  to arraigada que morei oito meses nos E.U. E falo ingls mal! Nem vou a cinema mais, 
quando viajo. Pra qu? Perco 50% dos dilogos, sem legenda eu me fodo. Nas peas da Broadway no entendo nada!"  
      "O Rio  uma cidade louca por isso:  meio provinciana e  enorme. As coisas todas acontecem em volta da Lagoa. Eu me considero um personagem da zona sul. 
Se ali for ao Mier, vou me sentir igual em Nova York, to estranho quanto. Este esquadro  tpico de quem mora perto da praia. A praia  uma coisa muito poderosa." 
      "Fui um dos fundadores do Baixo Leblon, claro! At hoje, quando volto l sou homenageado. Fazem uma festa interminvel. Eu adoro."  
      "Sinto pouco o desejo de vingana. Sou muito cristo nesse aspecto, no sentido da compaixo, da piedade, tenho pena das pessoas. Quando algum me sacaneia, 
penso: 'coitada daquela pessoa'. No estou dando uma de grandioso, mas no sinto vontade de me vingar, de devolver, po, po, queijo, queijo." 
      "Graas a Deus, sou uma pessoa que no tem inimigos. Deixa at bater na madeira... no posso dizer que de tal pessoa eu no gosto, posso at no me relacionar 
muito com elas, mas no tenho inimigos. Luto para no ter, sou at meio falso s vezes, trato todo mundo bem, sou muito vaselina. Ajo assim deliberadamente. J tive 
at quem eu pudesse odiar, mas no entro nessa.  um peso desnecessrio. Sou muito egosta, centrado em mim mesmo, para me incomodar assim com os outros." 
      "Minha viso de prazer  parecida com a letra de uma cano que fiz para Dulce Quental: Inocncia do Prazer. Acho que voc s consegue ter prazer quando voc 
 completamente puro, ingnuo, inocente. Se voc arma de um lado e de outro, o prazer foge. Ou ento, quando consegue a coisa, est exausto. Prefiro ficar desarmado 
frente s pessoas e fatos. Ento chega o prazer." 
      "O tdio  o sentimento mais moderno que existe, que define o nosso tempo. Tento fugir disto, pois tenho uma certa tendncia ao tdio. Mas eu sou animadrrimo... 
Sou muito animado para sentir tdio!!! Sou animado  bea, qualquer coisa me anima. Se voc me convida para ir na Barra da Tijuca, eu te digo logo: 'Vaaaamos!!!' 
Qualquer besteira me anima. Tudo que j passei na minha vida no conseguiu tirar esta animao. Eu me sinto sempre ganhando presentes. Se fao uma entrevista e leio 
depois no jornal, acho o mximo tudo, a foto, o texto... Estou sempre ganhando brinquedos. Me interesso por estes brinquedos um tempo, depois largo... Minha vida 
 muito assim, sempre morrendo de rir, nunca com tdio. E quer saber de uma coisa? O que salva a gente  a futilidade." 
      "Vai ser um show curto, de cinqenta minutos. Uma msica atrs da outra, sem sair do palco, bem conciso. Estou a fim de me aperfeioar como cantor. Quando 
eu cantava somente rock, eu no ia na melodia, eu recitava a letra, era mais gritado. Ser cantor agora  uma coisa to forte que eu economizo gestos, fecho mais 
os olhos para cantar, coisa que o Ney (Matogrosso) me ensinou. Nesse show falo em vida umas seis vezes. Hoje tenho enorme respeito pela vida - peo licena." 
      "Estive doente, me tratei e estou legal. Mas isso  da minha vida pessoal. Fiquei mais mstico, aprendi a aceitar o amor e o dio. A vida  para ser aceita. 
Se voc no aceita, voc  infeliz. Isso  a compaixo. Todas as msicas do novo disco foram feitas antes de tudo acontecer." 
      "Eu no era uma pessoa normal. Desde os 13 anos, levei uma vida muito louca. Quando a gente  jovem, no percebe que as ressacas vo ficando cada vez piores. 
Ento hoje estou tomando cuidado comigo, e isso faz com que eu tenha mais gs e faa coisas diferentes." 
      
      "Tenho feito mil experincias. Fui ao Santo Daime e achei interessante. Foi uma experincia fantstica tomar o Daime. Eu j tinha tomado muito cido, cogumelo, 
mas era diferente. O Daime  uma coisa religiosa, uma coisa de sentir Deus, sabe? Eu no vou l todo dia, pois eu no gosto dessa coisa de clube, seita. Mas foi 
uma ajuda. Eu descobri uma coisa religiosa em mim que  muito importante para minha cabea." 
      
      "Ainda bem que existe um passado, para existir um futuro, e para o presente ser essa maravilha que est sendo. Estar aqui com essa gente bonita, selecionada. 
Se aquela mulher, Maria Helena Godim, estivesse aqui, poderia fazer um livro, 'Sociedade Brasileira do Underground, do overground e do sensurround'..." 
      "O artista no  um operrio, que bate o ponto e tal. Eu no acredito que ningum possa ser operrio da arte, porque a arte  contra a transformao do homem 
numa mquina." 
      
      "O rock-and-roll  como uma trepada, muito ligado ao sexo e s drogas." 
      "De alguma forma me considero brega nas coisas que escrevo. Sou cafona e assumo. Gosto de palavras como ingratido. Sou meio Augusto dos Anjos: 'escarra nessa 
boca que te beija' " .
      
      "Todo dia acordo e vou direto pegar uma ducha e um sol aqui na minha varanda da Lagoa, fico massageando a mInha cabea... E continuo na minha bomia, saio 
toda noite, todo dia na rua. No vivo sem os meus amigos: so pessoas que eu no esqueo, no existe essa de virou artista, ficou famoso. Os meus amigos so os mesmos 
h quinze anos. Vou no mesmo ponto da praia de 'trinta anos, no mesmo bar h quarenta'. A minha vida  muito simples...  bem uma vidinha aqui do Rio: ir num cinema, 
num teatro, na praia que adoro... aproveitar essa maravilha... pego o carro e subo at as Paineiras, para passear na floresta..." 
      
      "Eu sempre fui patriota, de gostar de ser brasileiro, de gostar de morar no Rio de Janeiro, de adorar isto aqui. Tanto que eu fiquei seis meses na Califrnia 
e voltei correndo. Jamais pensei em viver fora do Brasil, nunca sonhei com isso, seria muito infeliz se morasse fora. Sou daquelas pessoas que tm amor  terra. 
Mesmo na poca da ditadura, com aquele clima tenso, militarismo... eu cresci em meio a isso, e a gente debochava muito do pas. Porque o brasileiro  muito macunama, 
debocha de si mesmo, mas acho isso supersaudvel,  uma prova do bom humor do brasileiro, enquanto o americano  todo duro. Aqui no Brasil, a gente no se leva a 
srio; De Gaulle tinha razo, no  um pas srio. E o brasileiro  genial por isso." 
      "Eu sou otimista e foi o otimismo que me fez ficar vivo. Se eu no tivesse otimismo num certo momento, eu teria danado. Eu consegui ver que eu mereo ser 
feliz, porque eu achava que no merecia. Eu era muito culpado, por isso fiquei mal, no conseguia ser feliz. Era muito feliz para o lado de fora, o 'exagerado' da 
rua, mas comigo mesmo no."  
      "Todo mundo comentava: 'o Cazuza vive rindo,  o cara mais louco, distribuindo felicidade, levantando o moral de todo mundo'. E eu, l dentro mesmo, no gostava 
de mim. Foi uma loucura quando descobri isso. Porque  bvio, todos estes temas de anlise, de no gostar da gente, da culpa, sempre estive por dentro, conversava 
com amigos analistas, mas nunca tinha parado para olhar para dentro de mim. Ento, hoje, eu estou vendo tudo com este otimismo, acho que Brasil vai dar certo. As 
eleies para prefeito foram uma maravilha. Fiquei emocionado. Talvez ocorram ainda algumas conturbaes, mas acho que no vamos repetir igualzinho 64, desta vez 
aprendemos a lio. Tento acreditar nisso." 
      "Eu ia comprar um carro agora, ganhei uma grana, no tenho problema de dinheiro, gasto, sou perdulrio. A vi uma Alfa Romeo, que  um sonho que tenho desde 
criana, uma Alfa conversvel, vermelha, e tava com um preo que eu podia pagar. Mas pensei bem e vi que ia me sentir to mal dentro desse carro - quando parasse 
num sinal e chegasse uma criana vendendo balas: preferi ento comprar um Jeep Gurgel."  
      "Achei legal a atitude do Gilberto Gil em se candidatar, e foi linda a votao que ele teve. Gil  muito 'voduzado' na Bahia, pelos liberais mesmo, a elite 
baiana no gosta dele, a classe mdia alta o odeia, mas ele  querido pelo povo. Quanto  coisa de Gil ter apoiado publicamente os cinco anos do Sarney eu discordo 
- eu era pelos quatro -, mas tambm respeito a sua opo: as pessoas tm que ser flexveis." 
      "Sempre escrevi, mas no sou muito bom de poesia, tenho guardado, mas vai custar muito para tirar da gaveta, no mostro, no. Tenho muito desconfimetro, sou 
a pessoa que debocha de mim mesmo com mais escrnio. Antes de qualquer pessoa falar eu j falei, tenho uma autocrtica que  uma coisa louca. Mas o que escrevo tem 
uma coisa musical, j vem com uma msica na cabea, que  uma msica imaginria. S agora que comecei a assumir tambm que estou compondo msica: no ltimo disco 
tem trs faixas com letra e msica minhas. Mas procuro no compor muito sozinho. Jamais faria um disco todo com material s meu porque seria um bode." 
      "Em relao a minha vida, o que fica  uma busca muito grande da felicidade. Ento, 1988 foi um ano feliz para mim. Eu acho que agora, mesmo nos meus momentos 
de tristeza, vai ser diferente, mudou uma coisa, consegui dar um clique e descobri uma base de felicidade e a partir da  que sigo em frente." 
      
      "Viva a Erundina. E que todo brasileiro tenha comida e sexo em exagero." 
      
      "Minha bebida  mesmo usque. Quando vou ao People peo Black and White ou Cutty Sack, que tm mais malte que lcool." 
      "Tudo de noite  mais interessante. Gosto de sair, de correr de carro em qualquer dessas freeways da zona sul, de estar com os amigos, de danar. E com o fim 
do African Bar, s tem o People para ir. Tenho carto, sou superbem tratado pelos garons. Quem  biriteiro, bomio como eu, tem que se dar bem com os garons. Sou 
muito querido tambm pelos do Baixo Leblon, lugar ao qual sou emocionalmente muito ligado. Morei muitos anos em cima da Drogaria Piau, da janela via como estava 
o movimento." 
      "A mulher canta melhor que o homem, se entrega mais, no tem vergonha de dar bandeira." 
      "Eu estou aprendendo a ser feliz. Tem que se educar. Que nem voc tem que aprendera ler, a escrever, tem que aprender a ser feliz. Eu s vou parar no dia que 
eu morrer." 
      "Eu choro muito sozinho, nunca consegui chorar na frente de ningum. s vezes, minha me brigava comigo, me batia, e eu esperava ela sair para chorar. Sozinho, 
de noite, tem vezes  assim, que ao invs de rezar eu fico chorando." 
      "Eu sou cnico, revoltado e menino, mas principalmente muito menino. Sou um ed no candombl. Sempre que eu vou a um lugar esprita, vem um indiozinho me proteger. 
Meu anjo da guarda  uma criana." 
      "Eu gosto muito de mentiras sinceras. Isso  a minha cara, porque s vezes uma mentira bem contada...  a tal coisa, eu que s quero uma verdade inventada. 
As vezes a mentira  to criativa que vira uma verdade."
       
      "Eu sou uma pessoa que precisa de drogas. Um fuminho de vez em quando, sabe? Pra viajar um pouco, meu estado um natural me cansa, me d tdio ficar o tempo 
todo careta." 
      "Qualquer droga faz mal. Eu acho que a maconha faz mal, cocana faz mal, lcool faz mal, mas eu... no posso causar mal nenhum ano ser a mim mesmo." 
      "Esse negcio da aids foi um freio. O prazer passou a ser um risco de vida. Tem pessoas que sabem transar bem com isso, outras no. Tenho amigos que quando 
vo transar vomitam." 
      "A aids caiu como uma luva, modelinho perfeito da direita e da Igreja. A aids caiu assim como um tailleur para eles, que nunca estiveram to elegantes... e 
deselegantes principalmente." 
      "Depois que eu vi a cara da morte eu mudei muito em coisas assim palpveis, como perder o medo de andar de avio, mas no bsico eu continuo o mesmo. No  
que eu no tenha mais medo de morrer,  que eu gosto tanto de estar vivo que acho que vai ser um desperdcio morrer." 
      "(A morte)  um tringulo de luz,  uma paz como se fosse um gozo, como se fosse um choque de herona." 
      "Uma coisa  certa: morrer no di. Eu estive perto dela e  prazeroso, no di." 
      "Eu tenho desprezo total pela Igreja e pela direita. Eu acho a direita uma coisa to mesquinha, o poder individual, eles so to... Eu gosto de viver no coletivo. 
Eu sou da esquerda porque tenho muitos amigos, gosto de dividir as coisas, acho superbonito dividir." 
      "O primeiro sentimento do ser humano  a competio. Ele nasce, pega o peito da me, e j est competindo com o pai. Depois vem a inveja, que  mais ou menos 
a mesma coisa que a competio. Ento, eu acho que Cristo e Marx foram muito ingnuos. Eles tentaram extirpar isso do homem, e  impossvel. O ser humano  competitivo. 
O leo, o tigre  competitivo, os animais so competitivos. Ento,  como amputar um dedo, sem a competio as pessoas ficam sem um dedo." 
      
      1989 
      "Em 1988 mudei minha maneira de encarar o trabalho. Antigamente, trabalho para mim era diverso. Eu queria me mostrar. Cantava para arranjar broto e para provar 
para o meu pai que eu era bom. Eu queria era comer todo mundo. E consegui. Agora vejo o trabalho de outra maneira. Comecei a me preocupar em cantar melhor. Como 
letrista, passei a falar de coisas mais abrangentes. Parei de falar um pouco do meu quintal e passei a falar da minha gerao. Acho que  a idade tambm." 
      "Sou muito protegido. Isso at me prejudica. Sou meio despreparado. Sou o neto preferido de duas avs e filho nico, mimado de pai e me. Mas meus valores 
so todos de classe mdia baixa. Eu era filho de um produtor de discos e de uma costureira, Estudava no Santo Incio, que s tinha gente rica. Eu tinha vergonha 
porque minha me costurava para as mes de meus colegas. Na poca eu chorava, hoje tenho o maior orgulho dela, Papai s comeou a ficar rico quando eu tinha 15 anos," 
      
      "Nunca estive to ruim em minha vida. Um dia o suicdio passou pela minha cabea. Rapidamente. Queria tomar alguma coisa para desmaiar. No sentia prazer em 
estar vivo. Nunca entendi o suicida. Achava uma covardia. A eu entendi."
      "Fui criado por padres errados. Fiquei com trauma. Se vejo um padre saio correndo. Mas os valores do cristianismo eu acho legal. Sou contra a idia de pecado. 
Cristo props a dvida. Isso  maravilhoso. Ele duvidou at o fim. Acho isso fantstico porque a dvida  criativa."
      "No gosto que me perguntem se estou com aids.  Me faz lembrar uma coisa que eu quero esquecer. Contei para muito pouca gente o que eu passei no hospital, 
Mas todo mundo sabe o que eu tenho." 
      "Perdi 10 quilos, perdi meus msculos e no os recuperei. Tinha um pouquinho de barriga. Tinha um bundo. Meus amigos me chamavam de 'Maria Gorda'." 
      "Para mim, o amor e o contrrio da morte. Por isso no tenho medo de morrer. Eu estou amando. Estou amando um homem. Isso para mim  coragem. E  contra a 
caretlce." 
      
      "Tenho f em mim mesmo, a minha experincia com Deus ,  por a , sou multo pragmtlco, ctico. Sou otImIsta. Se no fosse, num certo momento eu teria danado, 
Mas, em relao  minha vida, o que est acontecendo  uma busca muito grande de felicidade que eu estou encontrando."
      
      "Eu era muito feliz pelo lado de fora, mas comigo mesmo no. Achava que no merecia ser feliz." 
      " Estou timo, segundo todos os exames. Mas posso morrer amanh. " 
      
      "O meu amor agora est perigoso. Mas no faz mal, eu morro mas eu morro amando." 
      "Quero festa, banda e corpo de bombeiros no aeroporto, quando eu voltar para o Rio. Estou com a sade tima. Na verdade  como se eu acabasse de descobrir 
que sou portador do vrus, como se ele no tivesse comeado a agir." 
      "H algum tempo eu deixei de esconder a aids. Acho que graas  Marlia Gabriela, que me deu um toque. Depois que ela me falou que no fazia sentido o fato 
de eu negar o vrus com minha posio liberal como artista. A eu pensei, vi que ela tinha razo e achei melhor parar de esconder." 
      "s vezes acho que foi mais culpa das drogas e de bebidas (alcolicas) do que dos remdios. S sei que comecei a ter alucinaes, via coisas que no aconteciam 
na realidade, uma depresso brava. Ento meu mdico no Brasil me recomendou que eu fosse mais uma vez a Boston para fazer um novo check-up. Foi bom que eu descobri 
que estou timo. Aqui nos E.U. cheguei a engordar quase dois quilos." 
      "Posso levar uma vida normal. Estou fumando como sempre. Posso at beber vinho e cerveja. S no posso mais  com usque e nem com cocana. Prometi para mim 
que no iria voltar para esses velhos vcios. Agora eu estou lutando para ficar vivo." 
      
      "Meus deuses so muitos e eu acredito em todos eles." 
      "Frei Jos me disse que sou uma pessoa cheia de luz e energia, por isso sou to inquieto. E mais: que tenho uma misso a cumprir aqui na Terra, e que estou 
fazendo isso muito bem, por isso no vou morrer to cedo. Ainda vou viver muitos anos." 
      "Ficam dizendo que Roberto Carlos  careta, mas eu no acho. Ele tem que ter muita responsabilidade com o que diz e eu estou tambm sentindo isso neste momento. 
Atualmente estou me tornando um ativista poltico. Tudo o que eu vejo de errado escrevo cartas para jornais, denunciando mesmo. E acho que todo mundo deveria ser 
assim." 
      "Eu andei um tempo afastado do Roberto (Carlos), mas agora voltei a achar o trabalho dele demais. Eu estou sempre cantarolando 'se diverte e j no pensa mais 
em mim'. A nova msica dele. O Roberto Carlos  uma pessoa importantssima para mim, porque faz parte da minha infncia. Eu cresci amando a Jovem Guarda. Tinha tudo 
com a marca Calhambeque, roupa, merendeira e sapato. E um dos momentos mais emocionantes da minha vida foi quando aos 10 anos meu pai me levou no estdio da Som 
Livre, onde o Roberto Carlos estava gravando." 
      
      "Nem penso que tenha sido explorado. Pode ser que tenha havido essa inteno, a gente nunca sabe. Mas eu no considerei nenhum desses ltimos lanamentos de 
trabalhos como os ltimos. Eu no penso em morte. Acredito em outras vidas e coisas assim. Nem fiz testamento. A nica coisa que combinei com o meu advogado  que 
quero ser cremado quando morrer, e que minhas cinzas sejam espalhadas no Arpoador." 
      "Claro, fao muitos planos. Esse  o segredo para ficar vivo. Toda a minha famlia  muito forte. Eu tenho certeza de que vou viver pelo menos at uns 70 anos." 
      
      "Eu nem queria dar entrevista, mas  melhor dar logo. Estou aqui porque no posso beber. Desde a poca em que estive em Macei (fev./1989),  bebida de manh 
 noite. Acordo com um copo de usque, durmo com outro. Depois que fui para Boston, onde de trs em trs meses eu fao um check-up, tentei anlise, mas no adiantou. 
Assim, com tudo isto, tive uma desidratao e uma fraqueza geral de tanto beber e no comer. Nada tenho a esconder. Minha vida  um livro aberto." 
      "J estou comeando a me sentir timo, me recuperando. Meus amigos tm vindo aqui e telefonado muito. A enfermeira trouxe o bilhete das crianas e eu adorei. 
Adoro crianas. Deveriam ter deixado elas virem aqui. Eu as recebo, abrao, beijo." 
      "Essa msica minha com o Lobo eu adoro; Azul e Amarelo so cores do meu santo, ogum ed, que  um santo criana, o mesmo santo do Gilberto Gil. Com azul e 
amarelo estou protegido. E temos a parceria do Cartola nesta msica - ele diz rindo - porque usamos uma frase sua: 'No quero, no vou, no quero'." 
      "A fita azul que estou usando no tornozelo  a cor do meu santo tambm. Coloquei quando fui a Salvador. Meus trs pedidos so: sade, amor e paz. Sei que s 
so atendidos depois que ela arrebenta. Ela est a. Nunca arrebenta." 
      
      "No geral eu gosto de dar entrevistas. Gosto de falar, sou falastro. O que eu tenho tentado melhorar  que eu falo demais e s vezes esvazio o que estou pensando. 
 uma coisa que eu herdei da minha me. Sou muito ansioso, desde pequeno, quando eu era uma criana eltrica, no parava no lugar, morava num apartamento muito pequeno, 
no tinha para onde ir..." 
      "Eu acho que a entrevista  uma maneira de voc chegar ao grande pblico, porque eu sempre adorei ler entrevistas dos artistas que eu gosto, inclusive vrias 
delas mudaram completamente minha cabea." 
      "Aquele show no Place foi uma coisa muito louca, porque eu acho que ele foi histrico para So Paulo... Teve as eleies de 15 de novembro e no primeiro de 
dezembro eu estava l. E tinha aquele clima de euforia, as pessoas querendo acreditar novamente que tudo vai mudar, que pode mudar... Tanto que eu considero Ideologia, 
Brasil e O Tempo No Pra uma trilogia de Sarney ao PT no poder.  uma trilogia de esperana... Eu nunca tive medo de falar quando eu estava de baixo astral. Acho 
que a gente no pode ficar 'tudo bem' o tempo todo: o mundo  ruim, as pessoas so ruins, o mal sempre vence, ento tem esse lado forte. Mas agora estou numas da 
corrente do bem. T nessa e acho genial. Tudo bem: o mal t l, as pessoas ruins esto l, pessoas mesquinhas, mas no vo me atrapalhar mais. No vou mais sofrer 
por causa delas". Eu no acho que vai haver apocalipse porra nenhuma. No acredito em nada disso. Eu ainda vou fazer uma excurso da Challenger para Disneylndia, 
dar uma volta pela Inglaterra, entendeu! Nem preciso chegar na lua - a lua eu deixo para os meus netos. Eu sou muito otimista. Acho que o mundo mudou para melhor. 
Hoje em dia as mulheres tm a liberdade delas, existe uma outra interpretao da mulher, outra interpretao dos negros - nos Estados Unidos, pelo menos, teve, e 
isso  um  exemplo para o resto do mundo... O mundo est caminhando para uma coisa melhor. As minorias, os gays, hoje j se fala de homossexualismo de uma maneira 
totalmente aberta, Conseguimos uma vida melhor. Hoje a nova gerao j trepa com 15 anos. Na nossa poca isso era a maior represso. Ns trouxemos isso, essa lliberdade, 
para eles. Est tudo mais fcil. T certo que pagamos um preo caro por isso. Mas est ai, Se tem poluio, por outro lado temos ecologistas. Eu acredito que vai 
haver um movimento to grande, um encontro imediato, vamos encontrar outros seres, numa grande confraternizao."
      "Eu perdi um pouco dessa coisa de humildade. Aprendi uma coisa que a anlise me ajudou - a aceitar a minha grandeza, a aceitar o fato de ser bom. Porque te 
d um medo filho da puta: ser feliz, medo de amar, medo de ser bom. Tudo que faz bem pra gente, a gente tem medo. E eu t tranqilo, porque ocupei meu lugar e ningum 
tasca mais. Foi o que sempre quis, era meu sonho." 
      "Acho que entrei para o primeiro time, no t mais na reserva. T no time principal, que  o sonho de todo jogador - chegar  primeira diviso." 
      " que eu descobri que  uma caretice voc achar que poesia e letra so coisas separadas. Voc pode ser um poeta musical - so gneros de poesia: tem a poesia 
musical, tem a poesia que vive sem a msica. Acho que minhas letras sobrevivem s msicas. Algumas, pelo menos." 
      
      "Tem muita coisa que eu no gravei, muita coisa indita. Mas no dia em que eu morrer algumas pessoas vo na minha gaveta e pegam. Mas eu acho que vou deixar 
at um testamento para rasgarem, queimarem tudo, porque eu acho uma sacanagem quando um cara morre e deixa uma obra - no t falando que eu tenho uma obra, porque 
eu ainda no tenho. Daqui a dez anos eu vou ter uma obra..." 
      
      "Minha me me batia mesmo e no era de mo, no. O primeiro objeto que ela via pela frente atirava em mim. Depois ia chorando no quarto pedir desculpas..." 
      "Politicamente sou mais John Lennon que Chico Buarque." 
      
      "A razo principal da minha sada do Baro  que ocupava muito espao dentro da banda." 
      "Os msicos so todos iguais. Tudo doido, uma raa  parte." 
      "Talvez eu seja mais burgus do que as minhas msicas." 
      "Sou socialista e acho que o nico caminho para um pas do terceiro mundo chegar ao primeiro mundo  atravs do socialismo"
      
      "Eu nunca estudei canto. Minha voz  pequena, mastigo muito as palavras. A opo pelo blues vem disto. Tenho certeza de que se houvesse nascido em outra poca, 
quando havia cantores, eu seria apenas um compositor. Faria as msicas e mandaria para os cantores gravarem." 
      
      "Adoro correr riscos." 
      "Gosto muito de berrar, tenho a voz rouca e o rock no  mais que um blues rpido." 
      "Sou um latino apaixonado, nada racional, as idias pintam e me aprisionam. Depois que vou trabalh-las eu sofro, choro, viro noite." 
      "O que mais gosto  de tomar banho de sol, de mar, de acordar tarde e da noite, que curto intensamente." 
      "O que mais odeio  gente complicada e preconceituosa, hipocrisia e ser acordado. Nenhuma outra coisa consegue ser pior do que isso." 
      
      "Ainda no sou ingnuo, mas chego l porque nunca quis pouco." 
      "No estou correndo atrs da morte, mas da vida." 
      "No aconselharia nem um cachorro a me seguir na rua." 
      "Eu paguei a conta do analista para nunca mais ter que saber quem sou eu."
      "No posso deixar de me considerar um privilegiado, porque adoro o que fao. So poucos os que podem ganhar dinheiro com o que gostam de fazer. Eu, h oito 
anos, sobrevivo da minha paixo, a msica." 
      "Sempre fui muito aberto, mas no estou nem a, no devo nada a ningum: como o que quero, e amo como quero." 
      "Acho que a gente tem que saber usar as coisas e no deixar que as coisas usem a gente. As drogas, principalmente as lisrgicas, me ajudaram muito na minha 
adolescncia. Me ajudaram a entender o mundo de uma outra maneira, me ajudaram a ser uma pessoa mais segura de mim mesmo. Minha experincia com as drogas foi fantstica, 
s me fez bem. Mas foi uma coisa de adolescncia, depois eu me tornei mais biriteiro. " 
      "Cartola no existiu. Foi um sonho que a gente teve." 
      "Gosto de coisas densas, como a literatura de Clarice Lispector. Por falar nela, acabei de compor Que o Deus Venha (mar/86 ), uma msica inspirada em meu livro 
de cabeceira, gua Viva." 
      "Antes eu era um cara de vida desregrada, nunca tinha ido ao mdico e nunca tinha sentido nada. Ento eu vi um sinal me avisando que eu tinha que me cuidar, 
que eu tenho um corpo e preciso dar ateno a ele... Dessa vez Jesus me chamou, mas no fui, disse que era cedo e ele podia esperar." 
      
      "Ser marginal foi uma deciso potica." 
      
      "Tive vontade de vomitar quando vi aquela capa da Veja. Acabei tendo um problema cardaco e por isso passei o dia numa cadeira de rodas. Mas minha cabea est 
a mil." 
      "Estou legal. Tive um problema cardaco, a presso baixou e eu estou na cadeira de rodas. Mas a cadeira de rodas anda a 120 mil. No quero falar sobre Veja. 
Deixo isso pros meus amigos. Tenho texto do Caetano, do Chico Buarque, assinaturas da Gal Costa, Bethnia, Antnio Ccero, sei l quantos, que esto brigando por 
mim e vai ser publicado nos jornais esta semana". 
      "Quero mais  esquecer o assunto. Com essa matria eles mexeram em casa de abelha. No sabem o poder dos amigos - no poder de armas, mas do amor que sentem 
por mim. Eles vo tratar do assunto." 
      "Foi uma coisa de mau-carter, de m-f, mas eu acredito na justia. Agonizando eu estava no ano passado, com 40 fios enfiados no corpo, sem funes, pulmo 
artificial. Agora, s a cadeira. Continuo trabalhando a mil por hora, tudo numa boa."
      
      " a minha criatividade que me mantm vivo. Meu mdico diz que sou um milagre porque eu tenho tanta energia, tanta vontade de criar, e que  isso que me deixa 
vivo. Minha cabea est muito boa, ela comanda tudo." 
      "Meu av morreu dois anos antes de eu nascer. Mas para mim ele  muito importante, uma figura presente." (A msica Nabucodonosor  em homenagem a ele.) 
      "Se em 1985, no comeo, eu tivesse ido logo a um mdico, hoje estaria muito melhor. Sempre fui muito destrutivo, eu achei que tinha aids, eu quis ter aids." 
      "Eu queria sair do hospital, queria acabar logo com tudo aquilo, mas minha me me mandava ficar quieto, e eu ficava." 
      "Disse a meus pais que eu estava com aids mesmo, que a aqui gente tinha de curtir porque eu no sabia quanto tempo mais at iramos ficar juntos." 
      "Me sinto livre, sem medo de morrer. Da ltima vez em que fui para a clnica, vi a cara da morte, entrei nela e sa, no sei como.  claro que eu no quero 
morrer, mas tambm no quero sofrer. J pensei em suicdio, mas agora isso nem me passa pela cabea. Falei com meu mdico: se alguma coisa acontecer comigo, eu no 
quero ver. Que ele me d morfina, muita morfina, porque eu quero ir embora dormindo. Estou pronto para assinar um papel nesse sentido. Mas no vai ser preciso. Tenho 
certeza de que vou viver muito tempo ainda. Minha cabea comanda tudo. J perdi a oportunidade de morrer, passou a minha vez." 
      "Quando li pela primeira vez um artigo falando da doena, pensei que era aquilo que eu tinha. Comecei a ter febre nos fins de tarde, mas no contava para ningum. 
Tomava duas aspirinas e ia para o bar, beber. Se nesse comeo tivesse ido a um mdico, hoje estaria muito melhor do que estou. Agora fao tratamento psiquitrico 
para sair do alcoolismo. Tomo remdio para no ter vontade de beber, e no bebo. A noite, tomo um calmante e durmo seis horas.  pouco. J vivi uma poca em que 
dormia doze horas seguidas. Muitas vezes acordo sem ar e preciso de ajuda. Sexo ainda  importante para mim. No sou um aidtico casto." 
      "Quando eu tinha 3 anos, meu pai me deu uma bola. Eu a peguei no colo e a ninei como a uma boneca. Essa foi a primeira decepo que o meu pai teve comigo. 
Meu pai e minha me so as pessoas que eu mais amo no mundo, mas nem sempre eles entendem o que passa pela minha cabea. Eu tenho minhas idias, meu mundo, da acontece 
que, s vezes, a gente no conversa, mas discute. Mas a paixo que eu tenho por eles  a maior do mundo, e sem eles eu hoje no estaria aqui. Meu pai nasceu pobre, 
trabalhou e foi subindo na vida at chegar a uma cobertura em Ipanema. Ele  uma pessoa muito positiva. Quando eu cheguei em casa e disse que ia morrer, ele respondeu: 
'Vamos ficar juntos, lado a lado, e vencer isso' ". 
      "Quando eu estava no hospital de Boston, pensei muito e acabei descobrindo que ficar calado me deixava ainda mais traumatizado.  uma situao ambgua, de 
esconde-esconde. Mostrar aos outros que com aids pode-se continuar vivendo, trabalhando, produzindo me pareceu o caminho mais certo. Agora me sinto mais aliviado." 
      "Existe uma curiosidade um pouco fora do normal por parte do pblico com relao a minha doena. Especialmente das pessoas das primeiras filas de meus shows, 
que me olham com ar de espanto, de preocupao. Mas depois todo mundo aplaude, e eu vibro. Eu sei lidar com o pblico. Tenho domnio do palco, fico com as pessoas 
na minha mo. Eu sempre olho para as pessoas da primeira fila. O resto, no quero nem saber. S no agento aqueles que vm no camarim, ou que me esperam na sada, 
para me abraar e sussurrar em meu ouvido: 'Coragem, Cazuza, coragem', com ar de funeral. Xingo essas pessoas na mesma hora." 
      "Ser marginal foi uma deciso potica, mas foi o nico caminho que tive. Descobri que era um artista aos 16 anos. Antes, aos 11, os Novos Baianos foram passar 
trs dias na minha casa, e eu pensei que queria ser como eles. Baby Consuelo andava com um espelho retrovisor na cabea, e eu achava o mximo. Recentemente, a Som 
Livre acabou com os artistas contratados, e eu tambm tive que sair. Mas teria sado do mesmo jeito porque eu era visto como o filho do dono, e no como artista, 
e todo mundo me adulava. Ento sa e entrei em leilo. As ofertas eram boas, mas nem todas me convinham. Com o que vendo, sou um biscoitinho bom para as gravadoras." 
      "Eles me botaram na capa para dizer que sou medocre." 
      "Eu quero ser um Caetano Veloso, que pode sair na rua, passear, ser amado por uns e odiado por outros. Adoro o Roberto Carlos, mas no queria ser um dolo 
como ele". 
      
      "Homem que  homem volta atrs mas no se arrepende de nada." 
      
      
      Publicaes consultadas: Amiga, BiZZ, Contigo, Correio Braziliense, Folha de S. Paulo, Interview, Isto /Senhor, Jornal da 1rde, Jornal do Brasil Manchete, 
O Estado de S. Paulo, O Globo, Playboy, Revista Goodyear e Status. 
      
      AGRADECIMENTOS 
      Alcides Nogueira, Almir Chediak, Amilton Carvalhal, Antnio Carlos Harres (Bola), Armando Nogueira, Bebel Gilberto, Bineco Marinho (pstumo) , Bizuka Correa 
da Silva, Caetano Veloso, Christina Moreira da Costa, Cintia Carvalho, Clara Maria Fernandes, Cludia Moog, Coca Duarte, Cynthia de Almeida, rika Zanata, Ezequiel 
Neves, Fernando Cardoso, Flora Gil, Gilberto Gil, Gilda Castral, Goga Gonalves, Joo Araujo, Joo Rebouas, Landa Bisordi, Lo Jaime, Leonardo Netto, Mrcia Alvarez, 
Mrcia de Jesus de Souza (Edinha) , Maria Cludia Fernandes, Marta Alves, Neila Perez, Ney Matogrosso, Patrcia Cas, Pedro Bial, Regina Duarte, Rita Lee, Roberto 
de Carvalho, Roberto Frejat, Shirley de Souza Tavares, Suely Aguiar, Tereza Oliveira da Silva, Wagner Baldinatto, Zlia Carius da Silva e a todos que torceram por 
ns. 
      
